Conversamos com Matthew Chapman, diretor de A Tentação e tataraneto de Darwin

Filme estreou no Brasil na última sexta-feira.

11/08/2012 10h00

Por Roberto Guerra

Foto: Anna Bella Chapman

Chapman e elenco:Terrence Howard, Patrick Wilson, Liv Tyler e Christopher Gorham

Tataraneto de Charles Darwin, criador da Teoria da Evolução, o escritor, roteirista e diretor inglês Matthew Chapman confronta em A Tentação, que estreou nesta sexta (10/8),  um ateu e um cristão fundamentalista num duelo que ultrapassa os limites do bom senso quando o jovem incrédulo se apaixona pela mulher do fanático relisioso. Naturalmente, oromance proibido não dá certo e entra em cena um jogo de fanatismo, tragédia e paixão, que o espectador descobre aos poucos nos flashbacks que surgem da conversa do personagem com um policial.

Como questiona preceitos religiosos, o longa causou polêmica quando estreou no festival de Sundance em 2011. Em países como a Indonésia, movimentou um grande quantidade de jovens inconformado com a prisão de um rapaz que havia se declarado ateu na internet.

Morando nos Estados Unidos há 20 anos, onde as ideias de seu tataravô ainda causam polêmica, Chapman acredita que há uma batalha em curso no mundo, de fundamentalistas religiosos contra a modernidade. E para ele essa guerra ainda vai piorar. Veja essa e outras declarações polêmicas do diretor na entrevista que segue, concedida com exclusividade ao Cineclick.


Você não dirige um filme desde 1988, o que fez você voltar à ativa?


Eu parei porque não fiquei satisfeito com meu último filme [Heart of Midnight]. O roteiro não foi tão bom quanto poderia ter sido. Então, minha filha nasceu e eu pensei que seria bom vê-la crescer. Aproveitei o tempo também para melhorar minha escrita. Eu escrevi o roteiro de Jogos de Adultos e, então, me ofereceram vários filme para escrever. Os anos se passaram e daí eu olhei para o calendário e pensei: "Porra, se eu não dirigir novamente em breve estarei morto".

De onde surgiu a ideia para o roteiro de A Tentação e como o filme tem sido recebido mundo a fora? 

Eu queria escrever e dirigir um filme que fosse basicamente um misto de thriller e história de amor, mas queria que o conflito no meio fosse romântico e também filosófico. Uma espécie de cavalo de Troia de um filme. Curiosamente, ele foi lançado na Turquia no mesmo momento que houve a tentativa de aprisionar o pianista e compositor Fazil Say por blasfêmia. Na Indonésia, o país mulçumano mais populoso do mundo, ele foi lançado pouco tempo depois de um jovem chamado Alex Aan foi condenado a dois anos de prisão depois de escrever em sua página do Facebook que não acreditava em Deus. Em ambos os países o filme foi lançado como um thriller simples, mas foi descoberto por um público jovem e questionador, muito dos quais estavam fazendo pressão para que Alex fosse solto e Fazil deixado deixado em paz. Se você entrar o Facebook de A Tentação, nas postagens mais antigas, poderá ver o que ao filme significou para as pessoas nesses países.

O filme apresenta uma batalha entre um fundamentalista cristão e um ateu. Os eventos relatados no filme refletem seus sentimento em relação à religião?

Eu acho que há uma batalha acontecendo neste momento entra pessoas que têm medo da vida moderna, e querem voltar o relógio, e pessoas que abraçam a vida moderna e querem melhorá-la racionalmente e com compaixão. Acho que essa batalha vai piorar. No lado oposto à modernidade estão os radicais islâmicos, os fundamentalistas cristãos, evangélicos e assim por diante. Há muitas crises sociais e planetárias em curso no momento, problemas que envolvem a moralidade. Como devemos cuidar dos pobres, dos famintos, dos fracos? O que estamos dispostos a sacrificar para preservar a saúde de nosso planeta? Não aceitar conselhos de pessoas que acham certo apedrejar mulheres e matar gays já é um começo. Eu acredito que nós precisamos abrir um espaço para interlocutores melhores - e rapidamente.

A crença pessoal dos atores interferiram de alguma forma no filme?

Eu acho que Terrence Howard foi provavelmente o mais religioso do elenco. Ele é batista, acho. Ele se recusou a dizer uma oração falando que Maria era a mãe de Deus. Por outro lado, quis fortalecer a declaração que faz no final do filme sobre não dar graças antes do jantar. O roteiro foi quase inteiramente rodado como está escrito, mas neste caso eu pensei que era uma boa mudança.

Você já teve alguma experiência em Hollywood com a famigerada Cientologia. Alguma celebridade já tentou te converter?

Não, mas tive uma experiência terrível com o Centro de Cabala de Loas Angeles, lugar frequentado por Madonna e Demi Moore. Eu havia escrito um roteiro para Tony Kaye, o diretor inglês de A Outra História Americana, um cara muito divertido e talentoso, mas, infelizmente, devoto dos homens de chapéu preto. Eu não estava entendendo as notas que ele pedia para eu fazer no roteiro e daí descobri que ele estava recebendo conselhos de Deus (via rabinos). Não eram conselhos “divinos”, posso afirmar.

Foto: Divulgação

A Tentação: duelo entre racionalismo e fanatismo religioso

Você pode falar um pouco sobre suas experiências pessoais com a fé, particularmente dos americanos de vertente evangélica, onde se concentra A Tentação?


Eu convivi muito tempo com os fundamentalistas americanos, batistas, evangélicos, católicos. Fundamentalistas mesmo. Eu escrevi um livro, 40 Dias e 40 Noites, sobre um caso na Pensilvânia no qual um grupo de pais fundamentalistas obteve o controle de uma escola pública. Eles, então, queriam que o criacionismo fosse ensinado como uma ciência. Eles dividiram uma cidade, foram agressivos. Eram ignorantes. Tudo acabou em um tribunal federal. Fascinante. O membro do conselho escolar encarregado de escolher os livros didáticos de ciências era um guarda de prisão viciado em analgésicos. Ele não foi para a faculdade e realmente não sabia a diferença entre o Design Inteligente - a forma de criacionismo que ele aprovou - e evolução, que ele pensou que era ruim. Essas pessoas não tinham respeito pela evidência ou a verdade e se orgulhavam disso. "Eu tenho fé", foi bom o suficiente para eles. De certo modo era até cômico. Por outro lado, assutador. Se esses tipos de pessoas chegam ao poder, ou começam a ter influência sobre os eleitores, é muito prejudicial para um país moderno.

Você dedica o filme a Dick Chapman. Quem é ele e por que a homenagem?

Ele era meu tio, um homem gay que viveu com outro homem por mais de 50 anos. Durante parte desse tempo eles chegaram a ser presos por serem homossexuais. Houve muita intimidação, mesmo quando essa lei foi revogada. Suas vidas foram diminuídas por um ódio justificado pelo ensino bíblico. Mesmo sendo uma criança na época, eu achava que isso era cruel e absurdo. Existem ainda muitos países no mundo onde ser gay pode te matar. Isso, sem dúvida, é encorajado por muitas religiões. Se esta é a moral que a religião ensina, vou passar a me contentar em apenas ser gentil com as pessoas, porque eu quero que elas sejam boas pra mim.

Em quais projetos está trabalhando no momento?

Eu escrevi e coescrevi três filmes passados no Brasil ano passado. Um dele está sendo filmado atualmente e se chama Flores Raras, dirigido por Bruno Barreto e estrelado por Glória Pires. O outro projeto também foi para o Bruno e o terceiro foi um roteiro que escrevi para Daniel Filho, adaptação do livro O Silêncio da Chuva, de Garcia Riza. É um thriller noir arrebatador como Los Angeles - Cidade Proibida ou O Segredo dos Seus Olhos. E também estou tentando configurar meu próximo filme para dirigir, mas não quero me envergonhar por ser otimista.

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