Cristina Leal (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como surgiu a idéia de fazer este documentário exclusivamente focado nos diretores de fotografia?
Surgiu principalmente da vontade que eu tinha de conhecer mais sobre fotografia. Vim de Letras, não fiz faculdade de cinema, comecei fazendo roteiros. Num belo dia, cheguei na direção e vi que não entendia nada de fotografia. Esse conhecimento fez muita falta para mim. Passei uma temporada nos EUA e me veio a palavra "movimento". Num trocadilho com nossa língua, a palavra logo me levou ao cinema, ao movimento de câmera e do olhar. Ficaram esses dois conceitos em minha cabeça: o trocadilho do movimento e o fato de que eu precisava saber mais sobre cinema. Deparei-me com a realidade quando comecei a pensar mais sobre o assunto: nenhum trabalho na filmografia nacional havia sido feito sobre os fotógrafos de cinema. Tem uma carência, porque temos belíssimos fotógrafos e a fotografia de cinema é surpreendentemente bela. Nossos fotógrafos exibem nosso país lá fora com tanta adequação e beleza. Quem são esses homens? Todos sabem, mas ninguém os conhece a fundo. Uma ou outra entrevista não dava a dimensão, queria um pouco do técnico, do fotógrafo, do homem e o cinema inserido nesse contexto. Mas imediatamente, pensei em como explorar isso tudo sem virar um documentário chato. Veio a idéia de uma cena em comum na qual todos dessem seu olhar sobre a mesma cena. Chamo isso de prova de autoria de cada um. Havia muitas possibilidades, foi uma escolha difícil, mas queria pessoas que já tinham uma história ligada ao cinema nacional, que haviam construído uma cinematografia. Muitos nomes apareceram, fomos escolhendo dependendo da agenda deles e a nossa. Tive muita sorte e de cara os primeiros escolhidos foram os que ficaram, com exceção do Lauro Escorel e do Affonso Beato, que participaram das entrevistas, mas, por uma questão de agenda, não participaram da cena do beijo e não entraram na edição final porque fazia falta.

Mesmo porque essa era a essência do filme...
Exatamente. Ela mostra como cada um sente e elabora a mesma cena. Depois, acabei vendo que seis fotógrafos era mais do que eu teria feito, inicialmente deveria ser cinco, o filme ficou mais longo do que gostaria, mas, uma vez que os seis fizeram, todos deveriam entrar.

É uma pena que essas entrevistas não pudessem ser aproveitadas. Talvez na versão em DVD do filme?
Elas têm outras possibilidades, mas ainda estou tão vivendo Iluminados que ainda não consegui pensar onde vão entrar. Entrar num extra não teria muita graça, a graça é eles aparecerem num contexto mais amplo, senão fica uma entrevista de programa de televisão. Queria mais coisas, que revelasse o artista, o homem e o contexto dentro do cinema nacional.

Este é seu primeiro longa, seguido de dois curtas de ficção. Porque a estréia neste formato em documentário?
Jamais pensei que fosse fazer um documentário. Gosto de histórias. Realmente veio da necessidade de eu conhecer mais a fotografia e do trocadilho da palavra. Mas foi um bom começo no sentido de que aprendi muita coisa, não somente fotografia, mas sobre som, por exemplo. Conheci melhor esses homens todos. Ainda não sou nenhuma expert, mas aprendi sim. O que me deixa mais feliz é saber que estou ajudando outras pessoas a conhecer melhor fotografia. Isso é um ganho que foi aparecendo com o tempo diante da reação das pessoas. Não era o foco principal, mas hoje me sinto muito feliz de ter feito um documento inédito no Brasil, uma retrospectiva do cinema nacional a partir do Cinema Novo. As pessoas disseram: "Puxa, Cristina, que bela aula de cinema você deu", mas quem dá a aula são os fotógrafos, minha função foi olhar com muito carinho e amor cada um deles para poder montar um trabalho no qual eles aparecessem com o que têm de melhor. Todos se revelaram muito mais consistentes e interessantes do que eu imaginava.

Vendo o filme, me parece que os fotógrafos também tem alguma coisa de diretor, principalmente na marcação dos atores...
Ali é o seguinte: inicialmente, tinha uma decupagem básica e, teoricamente, todos fariam a mesma coisa na cena. Bem perto de entrarmos no set, tudo já estava preparado. O Edgard (Moura, diretor de fotografia) me ligou perguntando se poderia mexer alguma coisa na cena. Respondi que iria pensar, pois não havia cogitado essa possibilidade até então, ainda estava apegada àquilo que tinha construído. Dias depois, o Walter (Carvalho, diretor de fotografia) me ligou perguntando a mesma coisa. Passou pela minha cabeça o seguinte: é um filme sobre fotógrafos. Se eu permitisse que fizessem o que desejassem, estaria revelando não somente a técnica de cada um como também a participação real que cada um deles pode dar no filme que está inserido. Isso foi muito bom porque acabou dando as quebras, que eu acho fundamental pro filme não ficar muito monótono, e porque revela muito bem como cada um se posiciona em relação ao trabalho que deve fazer. Tem diretores que se incomodam muito que o outro tem palpite, outros diretores precisam disso. Isso fica claro no filme. O Edgard (Moura) diz: "eu lavo e você enxuga" (referindo-se ao diálogo entre diretor e fotógrafo). Na verdade, isso só somou porque, na verdade, dá a dimensão daquilo que gostam e podem fazer, e do que são dentro de um set.

Você pretende filmar uma história em seu próximo trabalho?
Logo que acabou Iluminados, tive uma vontade muito grande de fazer um projeto internacional, que seria o encontro de cinco belos nomes da fotografia mundial. Eles viriam ao Rio de Janeiro para filmar uma gafieira carioca, algo exótico para eles, ao mesmo tempo em que a cidade causa um atrativo na cabeça dos estrangeiros. Eu estaria proporcionando a chegada desses estrangeiros aqui, que poderia proporcionar o encontro deles com nosso jovens, nossos fotógrafos... Isso abriria fronteiras, quem sabe daí não surgiriam novas parcerias? Sou uma produtora pequena, independente, não tenho estrutura para um passo tão grande. A vontade é grande, mas gosto de dar passos do tamanho de minhas pernas. Mas recentemente recebi proposta de uma produtora mais estabelecida do Rio de Janeiro. Ela afirmou que um estrangeiro amigo dela queria conversar comigo por ter se interessado pela idéia de Iluminados internacional. Também penso em contar uma história, mas, no fundo, ainda não sei qual quero contar. Só quero contar uma história quando souber qual é ela. Vivemos um momento muito difícil no cinema nacional, está na hora de repensarmos uma série de coisas e, quando encontrar a história que procuro, vou reconhecê-la e brigar por ela, mas por enquanto não aconteceu. Estou arrolada em outro projeto de ficção, com um roteiro antigo meu baseado em texto de Mário de Andrade, acabei de escrevê-lo num edital, mas, enquanto isso, ficarei com Iluminados internacional na cabeça e em busca de um história pra contar.