Dalton Vigh (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como começou seu envolvimento com Vida de Menina?
Começou no dia em que me ligaram para perguntar se eu tinha interesse. Depois, quando li o roteiro.

Você fez um teste ou foi a primeira escolha para o papel?
Na verdade eu não sei. Não me lembro de ter feito um teste propriamente dito. Um dia, fui na casa da Helena para passarmos uma cena, mas não sei se estava contando como teste. Quando li o roteiro achei muito legal, é o tipo de filme que não se faz no Brasil. Tem uma cena que me pegou: aquela na qual Alexandre conversa com a filha, no final. Acho que meu personagem já vale por essa cena.

Uma das coisas especiais deste filme é o fato dele ser de época. Você sentiu alguma dificuldade nessa reconstituição?
Eu já tinha feito outras coisas de época, minha primeira novela foi um trabalho de época, então eu até gosto disso, de buscar o cuidado com os costumes e figurino, ou mesmo na prosódia. No caso deste trabalho, achei que a direção de arte está de parabéns, eles conseguiram não só passar um retrato da época, mas fizeram uma coisa verdadeira. Senti que tudo tinha uma certa vivência. O Alexandre já teve uma certa posição social e encontra-se falido. Por isso eu achava interessante o figurino dele, me ajudou na composição.

Você faz algum laboratório para poder interpretá-lo?
Fiz um laboratório na lavra com os garimpeiros para aprender a mexer na bateia, como eles separavam as pedras. Mas o que mais ajudou na composição do personagem foi que, na época das filmagens, eu estava em turnê com uma peça de teatro. Quando percebi que ia ter isso, fiquei muito feliz deles terem topado fazer mesmo assim, alterando o plano de filmagem para encaixar com minhas datas de viagem. É mais fácil o cineasta escolher outro ator, por isso não ter acontecido fiquei muito grato. Então eu ficava viajando toda hora: quando dava uma folga na peça, ia para Diamantina, rodava umas cenas. São mais ou menos seis horas de viagem entre Belo Horizonte e Diamantina, então eu vivia nesse caminho. Isso me gerou um cansaço que ficou apropriado para o personagem, eu já chegava no set mal, sabe? Isso acabou me ajudando em alguns pontos.

Isso de ficar entre dois personagens - no teatro e no cinema - não acaba atrapalhando também na hora de você entrar nos personagens?
Na verdade não, isso acaba ajudando. Já passei por situações em que eu interpretava três personagens diferentes, então eu gosto disso.

Até agora esta é sua maior participação em um filme, não é?
Sim, mas estou para rodar um no qual serei o protagonista, sabe? Chama-se Corpos Celestes, vou começar a rodar agora, a partir do dia 1º de outubro em Curitiba. É um trabalho muito interessante porque tivemos três semanas de ensaio, o que é muito raro. Desde que li o roteiro pela primeira vez, me apaixonei.

Quem dirige o filme?
São dois diretores de Curitiba, Marcos Jorge e Fernando Severo. Eles dividirão a direção. É o primeiro longa deles, que vieram da publicidade e têm curtas premiados. Eles ganharam um edital do Paraná com o roteiro deste filme.

Qual foi a maior dificuldade em Vida de Menina, você encarou muita diferença em relação à TV e o teatro?
A diferença é o tempo. Na televisão você não tem muito tempo para preparar as cenas, porque há um plano de filmagem de 15, 20 cenas por dia. Dependendo do dia, no cinema, você roda três, no máximo. Então tudo é mais elaborado. O trabalho de concentração é maior no cinema exatamente por isso, você tem muito tempo fora do personagem. O tempo de espera é bem maior. Nesse ponto o ator tem de ser muito mais certinho, não pode se desconcentrar de uma cena para outra para que a interpretação não mude. Na verdade, eu acho o cinema fascinante, virei ator por causa do cinema porque desde cedo sempre fui cinéfilo. Eu ia assistir aos filmes e saia na rua imaginando as cenas, refazendo os diálogos.

Como você vê a produção cinematográfica brasileira hoje? Já é possível, para um ator, dedicar-se somente ao cinema?
Existem pessoas que conseguem sobreviver só de cinema, mas são poucas. A gente já subiu alguns degraus, mas ainda falta uma escadaria pela frente. Falta mercado, fica muito difícil você optar por fazer somente cinema. Até chegarmos nesse momento em que as pessoas possam sobreviver única e exclusivamente do cinema, falta um bom chão.

Um exemplo dessa dificuldade do mercado é o próprio Vida de Menina, que venceu em Gramado ano passado e somente agora entra em circuito...
Exatamente. Tem todo um quebra-cabeça aí que depende de dinheiro. Podemos dar várias desculpas, mas o problema é exatamente esse. Se você não tem grana para divulgar teu filme, as pessoas não vão nem saber que ele está em cartaz.

Você ainda vê o preconceito dos espectadores brasileiros em relação a filmes brasileiros?
Não sei. Não parei para pensar nisso ainda. Eu, por exemplo, sou da geração que pegou o lixo do cinema brasileiro durante muitos anos. Na época da Embrafilmes, por exemplo, quando só se podia fazer filme se tivesse um peitinho, o que empobreceu bastante a cultura nesse sentido, não por culpa dos cineastas, mas por fatores maiores, como censura. Não se podia pensar na época da ditadura, o que acabou fechando muitas portas no cérebro do brasileiro. Isso sem contar a questão técnica, pois a qualidade do áudio era muito ruim, as pessoas não entendiam o que era dito na tela. Eu, particularmente, passei um bom tempo desacreditando na qualidade do cinema brasileiro. Não que ele tivesse morrido - mesmo na época em que realmente não se fazia filmes eu vivia discutindo que ainda teria filme no Brasil. Então, fico muito feliz de ver filmes que conseguem levar milhões de pessoas ao cinema. Não tem mais tanto preconceito, as pessoas estão buscando se encontrar no cinema brasileiro. Pois o cinema é isso, é o retrato de um povo e a gente precisa ver histórias brasileiras sendo contadas.

Você disse que começou a atuar por causa do cinema. Quais são seus favoritos?
Ah, são muitos. Marlon Brando, Jack Nicholson, Jeremy Irons... São muitos. E atrizes também. Gosto muito do trabalho da Meryl Streep, o jeito que ela consegue mudar de papel em papel. Para o ator, pelo menos para mim, tudo é referência, desde grandes atores e até pessoas com as quais convivo. Por exemplo, fiz uma novela no SBT, Os Ossos do Barão, na qual eu vivia um filho de italianos. O produtor do elenco do SBT tinha um sotaque muito carregado de paulista, sabe? Imitei o sotaque dele para fazer o personagem. Então, a observação é fundamental para o ator, a gente está aqui para representar seres humanos. Então, quanto mais a gente conseguir entender as pessoas, o trabalho é preenchido.

Para viver Alexandre de Vida de Menina você se espelhou em alguém?
Não. Tem alguns personagens que na leitura você já consegue enxergá-los, o Alexandre foi um desses. O de Corpos Celestes quando li o roteiro já vi o cara. Para outros personagens eu uso isso. Por exemplo, quando fiz o inquisidor na Xica da Silva eu pensava em duas pessoas: no Drácula e no Darth Vader (risos). Isso porque tive muito pouco tempo para compor o personagem, então no caminho fui escutando a trilha sonora de Star Wars para pegar esse "espírito Darth Vader".

Que tipo de público você acha que será atraído por Vida de Menina?
Não consigo pensar em uma faixa etária para este filme. Ele atinge a pessoas que têm sensibilidade para perceber essa passagem de tempo nessa menina. Não é um filme de mulher, pois são fatos comuns a todos. As observações são comuns: a descoberta do valor do dinheiro, da família, da perda e da morte. Quando o vi, me identifiquei em vários momentos com coisas que aconteceram na minha vida. Então não sei definir direito para quem esse filme vai falar.