Daniel de Oliveira

28/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Em 2009, o ator Daniel de Oliveira (Batismo de Sangue) - premiado no Festival de Gramado e do Rio pela atuação no ainda inédito A Festa da Menina Morta - tem mais um desafio: protagonizar 400Contra1 - Uma História do Comando Vermelho, que começa a ser filmado já apontando polêmica. Baseado no livro autobiográfico Quatrocentos Contra Um, publicado em 2001 e escrito por William da Silva Lima, um dos principais articuladores da polêmica organização, o filme tem cenas rodadas na prisão Provisória de Curitiba - Presídio do Ahú, no Paraná, desativada desde 2006.

Depois de filmar uma cena de ação no centro da capital paranaense, Oliveira ainda teve ânimo para conversar com o Cineclick sobre o filme e como foi a composição do personagem - ele interpreta William da Silva Lima no longa dirigido por Caco Souza. Conversamos na própria praça em frente à locação e, cercados pelos curiosos que acompanhavam a filmagem, o ator deu atenção não somente à imprensa, mas também às dezenas de pessoas que pediam autógrafos e para tirar fotos ao lado do jovem galã.

Este é o quinto personagem real que você vive no cinema. O que te atraiu para este projeto?
O roteiro é forte. Também me senti atraído pelo fato do filme contar o início de uma organização. A mistura de presos comuns com presos políticos já ficou para trás na nossa história, mas ainda é importante em nosso presente, marcando de uma forma negativa. Chamavam (o Presido da Ilha Grande) de caldeirão do Diabo, daí você começa a refletir para onde o ser humano está indo, onde a gente está chegando. O filme é um documento histórico. É importante a gente registrar nossas histórias, além de ser uma história totalmente cinematográfica, sempre sonhei em fazer algo parecido. Uma vez estava numa peça do Gabriel Villela, Salmo 91, em São Paulo, e no final teve um debate com o Drauzio Varella (a peça é uma adaptação teatral baseada no livro Estação Carandiru) e ele falou que o presídio o fascinava. Eu também já tinha uma certa fascinação no que está ali excluído. Pensei que um dia gostaria de fazer um trabalho assim porque cinematograficamente é interessante.

Você conhecia a história do William de Silva Lima?
Não. Na verdade, quando fiz o Frei Beto (Batismo de Sangue) e o Stuart (Zuzu Angel), li algumas coisas, mas não foquei na parte do início do Comando Vermelho, fiquei mais na história dos frades dominicanos e do próprio Stuart. É mais uma história da ditadura.

Por que você se sente fascinado por presídios?
Não sei, é uma sensação inexplicável. Talvez pelas pessoas estarem ali aglutinadas. Visualmente, é interessante. Não sei de onde vem isso, não sei explicar e nem o Drauzio no debate que fui soube. Não deixa de ser curioso.

E esta é a terceira vez que você filma cenas em presídios...
Sim, como Frei Beto, como Stuart e agora...

Vocês dormiram algumas noites no presídio a fim de fazer laboratório. Qual foi a sensação?
Ali no Presídio do Ahu não dava pra dormir não... Até pensei que daria, mas quando cheguei lá dentro vi que não era um lugar legal para se dormir, mas tivemos uma vivência bem bacana com o pessoal da Colônia Agrícola do Paraná, onde tivemos uma interação muito bacana com internos reais. Isso foi fundamental, além da preparação com o Christian. Os internos fizeram um trabalho junto com os atores, então conseguimos também pegar um pouco do jeito deles, um código diferente, a questão da postura, de estar sempre esperto. Tem uma coletividade, mas ao mesmo tempo tem uma grande solidão, estava refletindo sobre isso com os companheiros ali, sobre a questão coletiva, que convive com a solidão. É cada um por si nos sentimentos. Você pode confidenciar coisas, ser amigo, parceiro, mas, no fundo, tem uma solidão, cada um tem sua história, vai sair na hora que tiver de sair.

Como você compôs o personagem? O próprio Caco Souza (diretor do longa) fez documentários sobre o William e imagino que esse material tenha te ajudado nesse processo...
Ajudou bastante. Assisti aos documentários, que foram essenciais. Até tem uma história engraçada, o Caco foi o diretor de fotografia do primeiro comercial que fiz em Belo Horizonte! Isso há 11 anos.

E você lembrava dele?
Não... Ele que lembrou. Nos reencontramos agora e topei fazer esse personagem. O primeiro passo na composição foi assistir aos documentários e ler o livro, 400Contra1, do próprio William da Silva Lima, que é um cara interessante porque é um dos mentores da organização depois intitulada Comando Vermelho - na verdade, eles nem estavam buscando nomes, era uma organização para se defender dentro do presídio, a fim de evitar estupros, roubos, enfim... Eles tiveram que se organizar para manter a força do grupo. Eles também abriram a cabeça dos políticos para um outro universo da organização mesmo. Ao mesmo tempo, ele se define como poético e ele é, pois escreve coisas muito interessantes, poesias... É um cara complexo neste sentido. Ao mesmo tempo, não estou endeusando nem idolatrando, tanto é que ele pagou pelos crimes que cometeu, ficou 30 anos presos. Estou vendo o William de uma forma humana: quando tem de assaltar um banco ele assalta, não é um herói nem nada, é um ser humano que teve esta história de vida.