Daniel de Oliveira (Exclusivo: Batismo de Sangue)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como começou seu envolvimento com Batismo de Sangue?
Eu estava fazendo (a novela) Cabocla e a Patrícia Pillar (com quem Daniel trabalhou nessa ocasião) me falou sobre um filme que seria filmado em Belo Horizonte, baseado em livro do Frei Betto.

Você conhecia o livro?
Não. A primeira coisa que fiz foi comprá-lo; disse para minha mãe comprar em Minas que eu compraria no Rio. Liguei para o Helvécio Ratton para conversar com ele. Tudo foi através da Patrícia, assim como em Zuzu Angel. Ela é como minha agente! (risos)

Você filmou Zuzu Angel e Batismo de Sangue mais ou menos na mesma época, mas são filmes totalmente diferente. Como foi ligar com essas histórias similares nesse curto período?
Batismo de Sangue foi feito primeiro, o que foi ótimo por que consegui manter uma separação entre os filmes e tive um embasamento antes de começar a rodar Zuzu Angel. Quando cheguei pras filmagens desse longa, já estava "amaciado" para falar desse tema. Por isso, foi importante ter feito Batismo primeiro, pois fizemos muitos exercícios, assistimos a vídeos de torturados chilenos, depoimentos... Foi uma preparação meio "punk", triste mesmo, mas ao mesmo tempo nos deu muita força. Também foi bom porque tinha muitos atores que eu já conhecia, então estava em casa. Quando li o roteiro, meu coração guiava para o Betto; tinha a possibilidade de interpretar o Tito, mas sempre sentia que queria interpretar Frei Betto.

O que o personagem tinha que te atraiu desta forma?
Pelo fato dele ser mineiro, já entendia aquela figura, como ele vinha contando com essas mil vertentes de revolucionário e frei, mas de uma forma mais suave, racional. Tudo bem que sou muito mais acelerado, tive de ficar mais introspectivo para pegar um jeito mais jornalístico das coisas. Também fui incentivado pelo Sérgio Penna (preparador dos atores em Batismo de Sangue) a escrever, às vezes relatava em escrito o que acontecia. Enfim, me sentia melhor na pele do Betto, acho que foi uma escolha acertada porque o Caio (Blat) também faz um grande Frei Tito, ele tem essa melancolia do personagem.

Como foi sua preparação para este filme?
A primeira coisa foi a palavra: li alguns livros e fiquei impressionado com sua personalidade, o grande ser humanos que ele é. Em Cartas da Prisão, por exemplo, ele descreve o dia-a-dia da prisão, a saudade da família... É muito lindo. Então, a primeira coisa foi entender essa palavra, depois foi observá-lo muito Em algumas reuniões que a gente fez com todos os freis, que nos deram uma pequena palestra. Depois saímos informalmente, o Ângelo Antônio conhecia o Frei Betto "de outros carnavais" e também foi bom bater esse papo informal com ele. Na preparação do Penna, ele me pediu para escrever coisas, o que deu asas a um outro tipo de visão, a jornalística.

Seus papéis de destaque no cinema são de personalidades conhecidas, como Cazuza (Cazuza - O Tempo Não Pára), Stuart Angel (Zuzu Angel) e Santos Dumont (no curta-metragem 14 Bis). Isso é mais complicado no seu trabalho de ator?
É complicado porque muita gente tem referências em fotos e filmes...

Especialmente no caso de Cazuza...
Sim e quanto mais recente pior. Ao mesmo tempo, tem essa liberdade, não gosto de ficar preso a uma cópia; tem de ver e absorver o máximo possível, mas deixar 70% da composição para a imaginação. Na verdade, sou eu quem vou interpretar, isso sai de mim, da minha carne, do meu corpo. Tentar encaixar o olhar, o jeito de andar e essas coisas fica por conta da imaginação, também para dar vida ao personagem, não o resumindo a uma simples cópia. Tem também o diretor, o autor e os outros atores; cada um vai te modificando também, moldando o personagem fictício, o real já está pronto.

E o que este personagem tinha de Daniel?
O Frei Betto do filme é um cara maduro. Minha namorada fala que sou brincalhão, mas sou capaz de interpretar um homem sério porque existe essa porção em mim. Tentei fazer um personagem mais discreto possível, queria que as pessoas nem me vissem ali.

Porque a idéia é que ele é o observador e narrador da história...
Exatamente! Ele narra. É um religioso espiritualmente conectado com aquela causa, simples, humilde e conectado com Deus. Por outro lado, ele não quer fazer estardalhaço ou aparecer, então tudo é mais contido. Pra mim isso foi o mais difícil, posso bater neste gravador e derrubar tudo (risos)! Então, foi complicado reduzir isso tudo porque o Frei Betto é tranqüilo. Outra característica forte dele é o sorriso no rosto que sempre esta lá, bem sutil mesmo, e isso mostra o universo em que vive e o que ele quer para a vida dele, para a sanidade que ele quer para sua cabeça. Porque este mundo é muito insano, se deixar a gente fica louco, se é que já não somos! Acho que sim! Mas acho que essa atitude dele também está ligada à fé.

Este período histórico é bastante explorado no cinema brasileiro, você mesmo esteve em dois filmes sobre a ditadura nos últimos meses. Como você vê Batismo de Sangue nesse quadro histórico que se forma e o que ele tem de diferente?
Para começar, tem essa história da Igreja entrar, os dominicanos junto com (Carlos) Marighella, ANL (Aliança Nacional Libertadora).

Você conhecia esta história antes?
Não, achava que somente artistas e guerrilheiros se envolviam com isso. Mas vieram os dominicanos, o que me surpreendeu, achei muito forte e este é o grande atrativo do filme. Mas há várias histórias que têm de ser contadas. Tem muitos filmes sobre o Nazismo, por exemplo. Esta nossa história é mais recente e não há tantos filmes assim sobre, o Brasil tem a obrigação de contar isso, ainda mais histórias como estas até para que possamos repensar a questão política, especialmente os jovens.

Conte um pouco sobre seus próximos projetos no cinema.
Acabo de voltar da Amazônia, onde estava filmando A Festa da Menina Morta, do Matheus Nachtergaele, que por sinal é demais. É o filme de 2008, 2009, 2010... Tenho idéia pelo que deixamos lá de material e coração. Mas agora quero sumir, se Deus quiser, dar um tempo porque deixei tudo lá por causa desse filme.