Daniel e Diego Vega (Outubro)

20/07/2011 08h20

Por Heitor Augusto



























Oportunidade rara de ver um filme peruano estreando nos cinemas brasileiros. Depois de A Teta Assustada, que chegou ao circuito há quase dois anos, estreia nesta sexta-feira (22/7) Outubro, longa-metragem de estreia dos irmãos Daniel e Diego Vega.

Ganhador do Prêmio Especial do Júri de Cannes em 2010, dentro da mostra Um Certo Olhar, o filme fala sobre Clemente, um agiota sem motivações na vida que repensa sua existência após encontrar um bebê na porta de casa. “O processo de pesquisa do filme foi longo. Chegamos a personagens que são normais e corriqueiros”, contam os diretores por e-mail ao Cineclick.

Antes de chegar à direção de um longa, Daniel – formado em Economia e, posteriormente, Cinema pela cubana San Antonio de los Baños – e Diego – graduado em Comunicação Audiovisual e com experiência da publicidade – dirigiram o curta-metragem Interior Bajo Izquierda, que pode ser assistido gratuitamente no YouTube.

Nesta entrevista, os realizadores peruanos conversam sobre as assumidas e contidas influências na realização de Outubro. “Uma delas é do finlandês Aki Kaurismaki”, definem. Kaurismaki é conhecido por um humor bem peculiar e por vezes frio: os peruanos acrescentaram um pouco mais de pimenta ao filme.

Leia a íntegra a seguir:

O filme de vocês tem ares de novidade no cinema peruano, não pelo tema, mas pela abordagem: tratam-se de pessoas comuns em histórias do cotidiano observadas com humor. Por que a preferência por esses personagens e também por tipos mais velhos?
Daniel e Diego Vega: Não é necessariamente preferência. O processo de pesquisa de Outubro foi longo: terminamos com uma história absolutamente diferente da que começamos. Não decidimos as idades de nossos personagens já no primeiro dia de trabalho – aos poucos, convivemos com eles. Por outro lado, nem concordo que nossos personagens sejam ordinários: são pessoas normais, comuns e corriqueiras, mas não ordinárias.

Em Interior Bajo Izquierda, o primeiro curta-metragem que vocês dirigiram, há um tema grandioso como a morte tratado sem espetacularização, mas sim como um evento normal. Por que essa abordagem?
Tanto no curta como no nosso longa, a morte vem com a velhice dos personagens. Não abordamos mortes traumáticas. Talvez por isso, apesar dos matizes de cada trabalho, os personagens se relacionam com a finitude com naturalidade. Em relação ao curta-metragem, um casal busca a morte porque está muito velho, sós e perdidos nesse mundo: querem adiantar o fim, mas não conseguem, e essa é justamente a ironia. No caso de Outubro, um senhor solitário sequestra uma doente terminal também anciã porque não quer morrer só e a leva para fora da capital para terminar seus dias em paz.


No filme de estreia dos peruanos, Sofia (Gabriela Velásquez) e Clemente (Bruno Odar) são o esteio de Outubro

Em vários momentos, o tipo de humor e a encenação lembram os filmes do sueco Roy Andersson, como Vocês, os Vivos. Ele foi uma influência? Qual foi o diálogo com o ator Bruno Odar, que vive o protagonista, para construir uma interpretação, ao mesmo tempo, séria e engraçada?
Não conhecia os filmes de Andersson até depois de estrear o nosso filme. Tínhamos outras referências, algumas óbvias, como Aki Kaurismaki [O Homem sem Passado]. Tempos depois vi Songs From the Second Flor e acho uma obra-prima. Vocês, os Vivos assisti em outro momento, mas prefiro o primeiro. O fato é que ambos os filmes de Andersson são muito mais radicais, tem mais humor negro e se propõem a uma reflexão bem mais complexa que a nossa em Outubro. Talvez em algumas sequências pode haver semelhanças, mas se trata de produções diferentes.

A Bruno Odar pedimos que visse vários filmes, entre eles El Otro, O Guardião [do argentino Rodrigo Moreno] e Whisky [dos uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll], além de filmes do Kaurismaki para dar uma ideia do tipo de interpretação que buscávamos. Por sua vez, Bruno se preparou muito tempo para o personagem e nos propôs um estilo que fomos burilando juntos. Um dia sugeriu um jeito específico de caminhar, forçando a perna direita. Esquisito, mas que encaixou no personagem.

Durante todo o filme, só um movimento de câmera que parece com um travelling em direção ao rosto de Clemente, o protagonista. Por que a opção pela câmera estática? Isso tem alguma relação com a “teatralidade” do filme?
A ideia sempre foi filmar com poucos movimentos, mas levamos essa premissa ao limite e não utilizamos travellings ou dollys [carrinhos que permitem a locomoção da câmera]. Como rodamos em quatro semanas, eliminamos os ensaios com dollys e nos concentramos em outras coisas. No final percebemos que a câmera estática é perfeita ao personagem porque permitiu ao filme falar de outras coisas, sobretudo a solidão. Os planos fixos e longos nos permitem ver, escutar e sentir a vida rotineira, triste e cinzenta do protagonista.

A aproximação na cara de Clemente é um zoom digital proposto pelo montador, Gianfranco Annichini. Quando chegamos ao final do filme, ele insistiu em fazer esse zoom. Queria ver o plano e um dia decidiu fazê-lo e colocou dentro do filme. Gostei e ficou. É quase imperceptível, mas acredito que dá certa dramaticidade e emotividade a uma história narrada com frieza e distância. O montador, como sempre, tinha razão.

Assista ao trailer de Outubro

Uma das qualidades do filme é como vocês resolvem a relação de Sofia, uma católica fervorosa, com seu desejo por Clemente. É na superstição que ela consegue se aproximar dele. Vocês poderiam comentar essa religiosidade mais séria com toques populares?
Foi a maneira que encontramos para descrever o desejo de Sofia por um homem dentro de uma história marcada pelo pudor e recato.

No enredo, Clemente, um agiota, recebe uma nota falsa e fica tentando repassá-la a todo momento como um descarado pilantra, mas não consegue. Como surgiu esse subplot tão importante para entendermos a natureza do personagem?
Outubro nasceu exatamente disso. Queríamos um tema relacionado à nota falsa. De cara, criamos várias situações em que ela ou solucionava ou criava um problema, inserindo Clmente na roda. Com o tempo, o que era a ideia central do filme acabou se tornando uma subtrama. Não sei quem dizia algo como “pergunte a um diretor ou roteirista sobre o que queria tratar em seu filme que ele vai começar respondendo sobre uma subtrama”. Ao lê-la, percebi que se encaixava muito bem no processo de trabalho que tivemos no nosso filme.

Nos créditos finais há uma porção de coprodutores, fundos internacionais e apoiadores. Como é para os jovens fazer cinema em um país de periferia como o Peru?
No total são quatro fundos: Conacine, Programa Ibermedia, EED/EZEF e Global Film Initiative, todos fundamentais. Além disso, participamos de prêmios para trabalhar o roteiro em diversos tratamentos. Coprodutores há dois, da Venezuela e Espanha, com quem recorremos pelo Ibermedia. É complicado conseguir dinheiro para rodar um filme com condições mínimas.

Atualmente, dá para filmar com poucos recursos, mas é preciso ter gana e força para convencer pessoas a trabalhar sem receber, além de uma ideia sensível. Na verdade, se um realizador tem essa capacidade de agregador para rodar sem nenhum centavo, não é preciso esperar os fundos. Há muitas maneiras de produzir, cada um que encontre a sua.