Daniel (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Heitor Augusto

Você viu a primeira versão do filme feita em 1976?

Eu assisti há umas duas semanas...

E o que você achou? Seja sincero...

Cara, eu acho que é um filme muito truncado, demora pra engrenar. E tem a questão de ele ter sido feito com uma equipe de só nove pessoas, é complicado. Quando eu assisti, fui vendo com o olho de quem tentava imaginar como tudo estava sendo feito. Eu ainda acho que fizeram milagre para obter um resultado razoável.

Você falou com o Sérgio Reis, que interpretou o mesmo personagem há 33 anos?

Não. Eu conversei com ele na coisa do dia-a-dia, do trabalho, e ele já foi fazendo brincadeira: "Pô, você não me convida nem pra ser o avô do menino da porteira!". Mas não falamos sobre o personagem, mesmo porque quando o encontrei já estava no meio das filmagens, a coisa estava rolando e já tinha aquela carga de coisas que já tinham me passado nos dias que tive de preparação.

Você conseguiria traduzir em palavras o que tanto te encantou no set de filmagens? E qual é a diferença, para você, em gravar um filme ou uma novela, já que você acaba de entrar em Paraíso?

O encantador é a brincadeira. Se você não levar a coisa a ferro e fogo, você está fazendo uma brincadeira ali que tem de se tornar realidade para aqueles que estão vendo e você tem de convencer as pessoas. Mas é uma brincadeira, e é a arte de fazer de uma coisa parada, o fotograma, ganhar movimento. É magia. Fiquei fascinado pelo fato de... poxa, primeiro porque eu estava em um habitat que era meu, que eu cresci. Segundo porque há tempos eu não andava a cavalo, tocava o gado, coisas da minha infância e adolescência. Eu estava junto com a família, comendo arroz e feijão da mãe.

Tirando tudo isso, tem outra questão. No cinema, a gente tem pouco tempo para resolver uma história, diferente de novela, que leva alguns meses para ser contada. Na telona, é uma hora e meia para resolver tudo e por isso entendo que O Menino da Porteira não tem de ter muito papo mesmo, deve ser ágil e acabou! O cinema é feito com uma perfeição que me encantou; na TV, a respiração e o tempo do ator são completamente diferentes.

Como cantor, você surgiu se apropriando da música sertaneja de raiz e ao longo dos anos foi caminhando para o gênero romântico. Parece que voltar ao mundo caipira do filme é uma volta às suas próprias origens...

Acho que você tem razão, apesar de que tenho tido oportunidade de fazer, desde 2000, um projeto raiz, o Meu Reino Encantado [uma série de CDs na qual ele só canta sertanejo de fato]. Isso era um sonho que eu e o João Paulo [ex-parceiro que morreu em 1997] tínhamos há muito tempo. A gente vinha tentando, mas a gravadora não era a favor de que gravássemos uma moda de viola. Eu tinha isso como sonho, aí veio a morte de João Paulo e ingressei numa coisa mais romântica. Porque, cara, você estar sozinho é totalmente diferente de estar em dupla, com parceiro do seu lado.

Mas concordo com o que você falou, o filme me dá oportunidade de voltar ainda mais pra um público fiel que me acompanha e gosta da música raiz. O Brasil é muito sertanejo.

Por que você aceitou o papel?

É engraçado, canto a música O Menino da Porteira [cuja letra é o argumento do filme] desde os cinco anos, mas jamais imaginei regravar, nem no Reino Encantado. Passou um tempo, comprei um cinema em Brotas, que estava desativado há uns vinte anos, exatamente no mesmo lugar que comecei como apresentador de um programa da Rádio Brotense. Pintou o convite para participar do filme e foi por isso que aceitei. São muitas coincidências: o cinema, uma música que era símbolo para mim, o campo. Sabia que o contato com cavalo, com o campo não me trariam dificuldades. E na questão de aprender a atuar, confesso que deixei pra pensar depois, quando vi o rojão na mão. Foi um dos melhores anos da minha vida, de verdade! Acordava todo dia de madrugada, 7h da manhã já estávamos no set, com uma harmonia que fazia tudo fluir. Foram momentos que se tornaram inesquecíveis e que agora, através do filme, se tornaram eternos.

Muitas das músicas do remake não estão na versão original. Como foi a seleção entre você, o diretor Jeremias Moreira e o maestro Nelson Ayres?

É difícil escolher, né? É impressionante a quantidade de música com qualidade e atuais. Eles me deram oportunidade de dar algumas opiniões. Para cena romântica entre Diogo e Juliana [os dois têm uma sequência em uma cachoeira à moda A Lagoa Azul] gravamos duas versões: uma com Índia [de Cascatinha e Inhana] e outra com uma canção inédita. Felizmente, conseguimos os direitos autorais, pois acho que a cena perderia muito sem essa canção. Outro palpite meu foi uma das grandes sumidades da nossa música, o Tocando em Frente, do Almir Sater e Renato Teixeira, que veio a abrir o filme [a música ilustra o plano inicial]. Com certeza muitas coisas ficaram para trás, mas acho que tudo que deixei a desejar como ator, o que não sou, compensei na trilha.

Do universo do Diogo, o teu personagem, o que ele tinha que você precisou aprender?

Eu diria que é a parte dramática. O Diogo tinha como subtexto perdas e dramas do passado, uma história mal resolvida, com uma possível namorada e a morte de um irmão [elementos discretamente insinuados no filme]. Essa parte dramática foi difícil. Engraçado, pois eu chegava em casa às vezes e minha mãe dizia: "Daniel, você está diferente!". Justamente porque estava compenetrado de tal forma que estava levando aquilo comigo. Eu saía das sessões de preparação meio Diogo demais.

Quando pegava no violão, me sentia à vontade. Também ficava à vontade quando estava com o menino [João Pedro Camargo, o menino da porteira] e diante da Juliana, facilitava porque ela era bela, eu tinha de conquistá-la. A parte romântica não trouxe dificuldades. Já a coisa dramática.... Quando me deparava com o major [o vilão do filme] e o peso de contracenar com José de Abreu [que interpreta o malvado], era complicado. Tinha de ser sisudo, coisa que não sou! Nunca briguei, nem na escola. Queira ou não, como não tenho tanta habilidade como ator, tenho de colocar um pouco daquilo que sou dentro do personagem para ajudar e não encontrava saída pra isso, então tive de buscar por meio do preparo com o Luis Mário e me concentrar em algumas coisas que ajudavam. Aí saía.

Leia entrevista com o diretor Jeremias Moreira e e o produtor Moracy do Val.