Daniel Rezende (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como você começou sua carreira?
Depois de me formar em publicidade na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), em 1996, comecei a trabalhar em agências de propaganda. Foi quando percebi que não queria trabalhar em agências, mas com comerciais. A primeira produtora na qual consegui estágio foi na O2 Filmes; lá, comecei fazendo testes de VT e operando câmera, até que passei a finalizar vídeos como assistente da finalizadora de comerciais que trabalhava com o Fernando Meirelles na época, quando ele tinha acabado de fazer seu primeiro longa, Menino Maluquinho 2 - A Aventura (1998). Quando ela quis sair desse cargo, fiquei como finalizador. Nessa época, meio que "colava"nos montadores porque não sabia operar direito o equipamento que eles usavam, nem sabia montar, então eu "grudava" neles para saber quais botões apertavam. A primeira vez que trabalhei montando foi quando a agência pediu pra fazermos um making of de um comercial com o Bruce Willis. O Fernando gostou do meu trabalho e passei a montar com ele alguns de seus filmes publicitários.

O Fernando sempre foi um diretor/ montador, sempre entendeu muito dessa área e ele mesmo se define assim, um diretor e montador ao mesmo tempo. Ele sabe muito o que quer e o que funciona, então aprendi muito trabalhando com ele - quase tudo, na verdade. Nesse processo, passei a trabalhar mais com montagem do que com finalização; parei de finalizar e passei a tomar gosto pela coisa. Depois de três anos e meio de trabalho com o Fernando, ele me convidou para fazer Cidade de Deus. Foi a primeira vez que montei um longa e ocorreu uma guinada em minha carreira; a partir desse momento, passei a trabalhar mais com cinema do que com publicidade.

Além disso, com esse primeiro trabalho você concorreu ao Oscar, ganhou o Bafta...
Sim, esse trabalho projetou minha carreira por que tive a sorte de trabalhar em um primeiro projeto que deu muito certo, em todos os sentidos. Essa transição foi rápida.

O que você trouxe da sua experiência em publicidade e videoclipes para a montagem de Cidade de Deus?
Muitos profissionais que chegam ao cinema vindo da publicidade trazem essa experiência de "colocar a mão na massa"; não tinha a experiência de contar uma história, aprendi na hora. Sabia como resolver situações específicas, pois não se trabalha com narrativa na publicidade, mas com situações.

A influência da publicidade o cinema é sempre um tema polêmico, geralmente encarado como uma influência má, pois a publicidade é vista como uma linguagem cheia de vícios e "maneirismos". Quando são usados, no cinema, recursos de montagem como acelerações ou divisão de tela, por exemplo, logo dizem que o filme tem referências publicitárias; o que as pessoas às vezes esquecem é que a publicidade do mundo inteiro é influenciada pelo cinema. É nos filmes que se busca referências para a propaganda e quem trabalha com isso sabe.

Uma coisa boa que aprendi é que a publicidade te faz trabalhar. Um longa-metragem é produzido durante mais de um ano; um diretor trabalha em muitos mais filmes publicitários durante o mesmo período. Então, alguma experiência ele acumula nesse tipo de trabalho, sabe? Na montagem é a mesma coisa: num ano, é possível montar uns 100 comerciais, então adquire-se muito mais experiência nessa área, principalmente na resolução de situações.

Acho que sou um montador relativamente rápido, com agilidade principalmente para os primeiros cortes. Evidentemente, isso não monta um filme, mas é a base usada pro resto do trabalho. É nesse momento que noto usar a experiência que adquiri na publicidade, o trabalho de dramaturgia é realizado nos próximos cortes, é quando se entende melhor o diálogo entre as cenas.

Portanto, o trabalho do montador é indissociável do diretor, certo?
A relação entre o diretor e o montador é crucial para definir o caminho que filme vai tomar, tem de existir algum tipo de afinidade. Claro que é possível fazer um trabalho sem que essa afinidade exista, mas o trabalho sai muito mais rápido com ela. O montador tem de entender o que o diretor quer, traduzir isso com o material e saber impor o que ele acha sobre o filme, mas com limites, porque a visão do diretor é a que prevalece em todos os setores do longa. Pelo menos é nisso que acredito. Ainda que algumas vezes possa não concordar com o que o diretor quer, tenho de estar lá para fazer o melhor possível dentro do que ele acha. Quando existe essa afinidade, geralmente ambos têm a mesma opinião, então o trabalho flui melhor.

Uma técnica que tem funcionado muito comigo, mas não é usada por todos os montadores, é sempre fazer o primeiro corte sozinho. Alguns diretores me dão total liberdade para essa etapa, eles querem que eu assista ao material e trabalhe com aquilo, com base no roteiro. Leio o texto antes de fazer o filme, mas, na hora de fazer a montagem, me baseio no material filmado e entregue a mim. Depois de fazer o primeiro corte de cada cena, mostro ao diretor e ele vai me direcionando em relação ao que quer. Com este método, o montador é capaz de trazer coisas que o diretor talvez não tenha pensado, a serem incorporadas - ou não - no filme. Se o montador trabalha ao lado do diretor, ele fará exatamente o filme que ele concebeu; se o diretor sabe exatamente o que ele quer, isso acelera o processo, mas acho que o montador é capaz de contribuir mais para o filme se ele consegue ter a primeira impressão do material sozinho.

Você consegue identificar sugestões que você deu a Cidade de Deus, por exemplo, seu trabalho mais notório até então?
Na verdade, quando você repara muito na montagem de um filme, não quer dizer necessariamente que ela seja boa... Ela tem de contar a história num tempo necessário. Se você ficar prestando atenção na montagem, alguma coisa pode estar errada na história ou na maneira em que ela está contada. Não que isso seja uma regra. Se você começa a pensar em outras coisas que não tem nada a ver com a produção à qual você está assistindo, como a conta que esqueceu de pagar, há algo errado, principalmente na montagem, porque o ritmo do filme está te tirando da história.

As pessoas percebem a montagem de Cidade de Deus, mas ela não é gratuita, foi muito pensada. O Fernando sabia muito bem como seria cada elemento do longa, não somente a montagem. Enquanto filmava o material, ele já sabia como a montagem evoluiria junto com a história.

Tem uma teoria que criei enquanto trabalhava em Cidade de Deus a qual uso até hoje. Quando você tem um problema num filme, e todos têm, passo o mais rápido possível por ele na montagem. O ideal seria jogar a cena fora, mas às vezes isso não é possível porque ela é muito importante para o entendimento da história. Se você fica tentando consertar, a "ferida" pode ficar mais exposta; se você passa rápido por ela e a produção é boa o suficiente para curá-la, nem se repara. A idéia é não colocá-la em primeiro plano.

Em Cidade de Deus, o início da guerra entre o Mané Galinha e o Zé Pequeno não havia sido 100% resolvido no roteiro nem nas filmagens, então sobrou para a montagem. Então, passamos o mais rápido possível por esse momento e a narrativa em off ajudou nisso. Tenho sempre mantido essa técnica em mente.

Existe alguma "ferida" que não pode ser resolvida nem com montagem?
Claro, tem filmes da história do cinema que trazem "feridas" do começo ao fim. A montagem salva, mas não faz milagre.

Você já se deparou com uma situação dessas, na qual nem montagem salvaria?
Até agora, tive a sorte de só ter trabalhado em filmes bons, que eu gosto. Evidentemente, todos eles têm probleminhas que têm de ser contornados. Por exemplo, em Cidade dos Homens - O Filme, que ainda não foi lançado, a idéia era colocar algumas imagens da série para que se pudesse ver na mesma produção os personagens em fases diferentes da vida, dos 12 aos 18 anos, o que é inusitado na ficção. Foi criada uma nova história para fechar a trajetória dos personagens e as primeiras versões do roteiro ainda tinham indicações um tanto vagas dos flash-backs. Quando entrei no projeto, conversei com o diretor e o roteirista e falei que a montagem poderia até salvar, mas não faria milagres. Se as cenas da série não fossem integradas ao roteiro desde o começo, não saberíamos o que saber com elas. E isso aconteceu ainda durante o roteiro.

Neste filme que estou fazendo agora, Tropa de Elite, foi feita uma reestruturação muito grande do roteiro original para o que temos hoje. Todo esse trabalho está sendo feito juntamente com o roteirista, o Bráulio Mantovani, e o diretor, José Padilha. Ultimamente, tenho aderido a um processo bastante usado pelos americanos: no momento do primeiro corte, é impresso fotogramas que representem cada uma das seqüências, as principais. Colamos numa folha-imã e as ordenamos numa chapa de metal. É uma ótima forma de visualizar e organizar a seqüência dos acontecimentos no filme. O roteiro é construído a partir de idéias; a montagem é construída a partir das cenas filmadas.

Fale um pouco de sua experiência de concorrer a prêmios internacionais em seu primeiro trabalho com cinema.
Quem pode esperar ser projetado não somente no seu País, mas também internacionalmente, em seu primeiro filme? Ninguém espera, ainda que, durante o processo, a gente soubesse que Cidade de Deus era cheio de qualidades, mas daí a ser indicado ao Oscar e ganhar prêmios internacionais é totalmente inesperado. O que pude fazer foi curtir aquele momento, meus prêmios foram viajar por conta da Miramax, como passar uma semana em Londres.

Ganhar o Bafta foi uma surpresa, principalmente por que os concorrentes eram muito fortes e trata-se de um importantíssimo prêmio inglês. Pior: foi a primeira categoria anunciada na noite. Então, subir ao palco tendo de fazer um discurso em inglês e sabendo que o Martin Scorsese estava na minha frente, foi apavorante. Mas, depois que você passa por isso, qualquer coisa fica fácil.

Portas foram abertas para mim, mas não tão facilmente. Até recebi algumas propostas para trabalhar lá fora, mas nenhuma se concretizou; trabalhei em produções internacionais de diretores brasileiros. Trabalhei com o Walter Salles duas vezes fora do Brasil e deu supercerto (Diários de Motocicleta, Água Negra), ainda não tive a experiência de fazer um filme totalmente internacional.

O fato de você trabalhar nessas ocasiões com um diretor brasileiro teve diferença, apesar de serem produções internacionais?
Foi mais fácil, né?

Mas em relação às produções totalmente brasileiras que você montou, você sentiu diferenças em seu trabalho?
Na prática sim, mas não na maneira de contar a história. Os equipamentos são basicamente os mesmos, mas lá fora tudo é um pouco maior. O primeiro filme internacional que fiz, Diários de Motocicleta, era independente, mas Água Negra era de estúdio, então conheci esses dois processos no mercado internacional.

Como geralmente se trabalha com dois equipamentos, a montagem progride mais rapidamente porque o montador e seu assistente trabalham juntos, de dia, também por causa do sindicato; no Brasil, o montador geralmente trabalha de dia e o assistente durante a noite, o que dificulta a comunicação e retarda um pouco o trabalho. Essa também é uma diferença do trabalho em comerciais e num longa; o material nesse segundo tipo de trabalho é muito mais volumoso. É preciso ser muito bem organizado para não se perder e, quando isso acontece, se gasta muito tempo tentando se achar. Por isso que um assistente é tão importante na montagem de um longa, para o montador conseguir usar seu tempo criando. Então, alguns processos no mercado internacional são mais interessantes e práticos. Por outro lado, já ouvi casos de se ter dois ou três montadores trabalhando simultaneamente no mesmo filme, o que nunca aconteceu comigo. Principalmente em produções maiores, é comum ter um profissional somente para cenas de ação e outro para os diálogos. Eles usam muito o conceito do "editor associado", o que não existe aqui. No Brasil, assistentes são vistos como assistentes e existem poucos profissionais por aqui, pois é uma profissão bastante técnica e exige muito cuidado e organização. O editor associado seria um cargo transitório entre o montador e o assistente, ele edita as cenas, mas com supervisão do montador.

No caso de Água Negra, um filme de estúdio, você sofreu interferências além das do diretor em seu trabalho?
Em nenhum momento trabalhei direto com os produtores. Como todo produtor, de qualquer filme, eles tinham suas opiniões. Dentro de uma indústria cinematográfica, quando se coloca muito dinheiro, se espera um retorno e eles esperavam algo do filme. No mercado de entretenimento, quanto mais se investe, mais cobranças há. Nos estúdios norte-americanos, é muito difícil o diretor ter o corte final; quem o assina é o produtor. Não foi diferente no caso do Água Negra, ainda que ainda que, nesse caso, os produtores respeitaram muito a opinião do Walter até o fim do processo e houve muito diálogo durante todas as decisões. Se ele tivesse feito o longa sem nenhuma influência dos produtores, com certeza teria um resultado diferente. Se fosse um diretor não tão conceituado quanto o Walter, seria outro filme ainda.

Você não tem vontade de trabalhar em produções totalmente internacionais?
Vontade até tenho.

Por que as propostas que fizeram não deram certo, como você afirmou anteriormente?
Por uma série de fatores: prazos, algumas seleções às quais recusei participar, compromissos que já havia assumido com o Fernando - havia combinado que montaria o próximo filme da O2, quase foi Não Por Acaso, mas acabei montando Cidade dos Homens - O Filme. Também recebi roteiros muito ruins e parei de responder a propostas internacionais porque já havia me comprometido a trabalhar em projetos por aqui. O próximo será Ensaio sobre a Cegueira, de grande projeção internacional, e em algum momento após esse longa gostaria de entrar num projeto 100 % estrangeiro. Mas são muitos fatores envolvidos nisso: sou casado, tenho filhos, não dá pra sair do País por muito tempo, especialmente porque a montagem demora muito tempo para ficar pronta principalmente nas produções estrangeiras. Cold Mountain, por exemplo, demorou 16 meses para ser montado. Para eles isso não é um absurdo.

No Brasil, quanto tempo se leva para a montagem de um longa ficar pronta?
Não há prazo específico, mas a média é de cinco ou seis meses. Narradores de Javé levou três meses para ser montado, Cidade de Deus demorou seis e O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias foi montado em seis meses. Já em Água Negra, trabalhei um ano. Apesar do processo prático da montagem lá fora ser mais rápido, demora mais para que se chegue no corte final porque muitas vezes é preciso refilmar cenas, passá-las pela aprovação de produtores, exibi-las em screening tests (exibições nos quais espectadores, escolhidos de forma alheatória, dão suas opiniões aos longas antes de seu corte final)... Quando você vai fazer um trabalho lá fora, já sabe que vai passar pelo menos seis ou sete meses dedicado nisso. Aí vem toda a complicação de envolver a família, então não é uma decisão fácil tentar a carreira lá fora.