Daniela Thomas (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como vocês foram convidados para participar deste projeto?
Em 2000, eu e Waltinho (Walter Salles) estávamos no Festival de Berlim para apresentar O Primeiro Dia.

Que também era um projeto semelhante, com vários cineastas filmando sobre o mesmo tema...
Exatamente, mas eram longas de dez diretores sobre o mesmo tema. Nossa, não tinha me dado conta disso! Enfim, o Emmanuel Benbihy (idealizador de Paris, Te Amo) era um menino com esse projeto debaixo do braço. Ele era um cinéfilo apaixonado por cinema que admirava vários diretores, então ele queria juntá-los para falar sobre Paris. E a gente falou: 'Maravilha, se você conseguir, estamos dentro'. Passaram-se anos e ele nunca conseguiu levantar dinheiro, mas sempre nos mantinha informados, até que um dia ele conseguiu juntar-se com a Claudie Ossard, produtora de filmes como O Fabuloso Destino de Amelie Poulain e Delicatessen, bem populares na França. Ela ajudou o Emanuelle a levantar o dinheiro necessário para conseguir cineastas do nível que ele pretendia. O Emanuelle foi muito tenaz, lutou pelo filme e ficamos contentes em saber que este projeto não teve fim, pois sempre achamos que era algo que já havia morrido, sabe?

Em 2000, quando vocês foram convidados para participar do projeto, o que os convenceu a topar?
Primeiro porque somos apaixonados por Paris. Para mim é a cidade mais perfeita que existe, é lá que a sociedade clássica ocidental chegou no auge. Também pela oportunidade de estar neste grupo nobre de diretores, a oportunidade me encantou.

O curta-metragem que vocês dirigem tem uma temática muito comum também ao brasileiro, ficando longe da Paris luxuosa que a maioria das pessoas vê...
O interessante é que levamos nosso olhar sobre a cidade e há muitos temas que poderiam ser explorados. Um deles é o pertencimento. Eu e Waltinho somos duas pessoas que moramos por muito tempo fora do Brasil. Quando você é imigrante, uma coisa acontece: mesmo que volte a morar em seu País, as coisas nunca voltam a ser as mesmas. Essa confusão sobre a identidade toca muito nós dois. Assim que surgiu a oportunidade, resolvemos trabalhar com esse tema. Paris é tão fascinante e maravilhosa que sempre se costuma mostrar esse lado, mas, como toda grande metrópole, é cercada de um cinturão de pobreza, o contra-fluxo do colonialismo nesses bairros que abrigam imigrantes. Além disso, nos anos 70, houve uma grande debandada de brasileiros para a França e a idéia inicial era trabalhar com uma brasileira. Queríamos a Cléo Pires, mas na época (2005) ela estava fazendo uma novela. Vimos Maria Cheia de Graça e descobrimos Catalina Sandino Moreno, uma menina encantadora. Essa situação que descrevemos no filme é universal; por exemplo, há várias amigas minhas que têm empregadas cujos filhos estão sendo cuidados pelas avós ou vizinhas quando elas mesmas estão cuidando dos filhos da patroa, sabe? Enfim, é uma situação muito triste e comum.

Como vocês chegaram nessa história?
Não me lembro muito bem. Durante certo tempo, ia ser outra, passada em outro bairro, mas, quando fomos procurar locações, percebemos que não tínhamos noção. Então, o Waltinho lembrou de algumas histórias que ele tinha vontade de trabalhar e esta era uma delas, eu acho. Nos demos conta que poderíamos trabalhar dessa maneira. Estávamos trabalhando num bairro de imigrantes e tivemos de mudar para um mais nobre, a gente pretendia trabalhar com a questão dos imigrantes e onde vivem, mas percebemos que era um assunto político muito pesado.

Em todos os curtas-metragens deste projeto, os personagens dialogam com o espaço físico que ocupam em Paris. Seus conhecimentos em cenografia teatral foram importantes na escolha das locações do segmento no qual você trabalhou?
O Waltinho tem uma verdadeira paixão por road movies, pela movimentação. Também é interessante uma coisa que poucas pessoas pensam em relação à cidade: para se movimentar, passa-se grande parte do dia debaixo da terra, num carro ou no ônibus. Esse fenômeno do movimento dentro da cidade também é pouco explorado. Nosso filme se passa muito pouco no bairro.
Mas meu trabalho com cenografia não influencia muito. Lógico que tenho um olhar mais estético, mas ficamos muito agarrados à realidade. Queríamos ser muito verídicos em relação ao bairro onde ela mora, a periferia de Paris. A arquitetura daquele bairro é comunista, com aqueles prédios todos iguais e ruas batizadas em homenagem a líderes comunistas. O local nasceu de uma utopia dos anos 70, pretendia-se criar uma cidade socialista em torno de Paris, mas o projeto falhou terrivelmente e virou essas favelas verticais. Por exemplo, o elevador do prédio onde filmamos era quase um banheiro público, tinha um cheiro horroroso.

Existe alguma memória afetiva sua em relação a Paris que você colocou no curta-metragem?
Acho que não. O que tem é relacionado à minha família, não a cidade, que é a canção de ninar. Eu sempre compus canções para meus filhos, meu pai também, minha avó também... Fiquei muito feliz em trabalhar com isso. A canção do curta existe, mas só a primeira estrofe, então eu e a Catalina compusemos juntas o resto da canção que ela canta. É uma canção de ninar típica colombiana, ela que a trouxe.