Débora Bloch

23/07/2009 12h49

Por Heitor Augusto

Apesar de ter sido premiada já em seu primeiro filme, Noites do Sertão (1984), a atriz Débora Bloch não tem seu nome diretamente associado ao cinema. Ao longo de 29 anos de carreira, participou de apenas onze filmes. Débora ganhou fama pelos programas televisivos (TV Pirata), novelas, com trabalhos esporádicos no teatro.

Após oito anos longe da telona, a atriz é uma das protagonistas de À Deriva. Débora interpreta Clarice, mãe de três filhos e casada com o francês Mathias (Vincent Cassel), que vê o projeto de família desmoronar. Nesta entrevista, a atriz compara o trabalho no cinema e na televisão (está na novela Caminho das Índias), as semelhanças entre sua trajetória de vida e os destinos de sua personagem e comenta o hiato de oito anos desde seu último trabalho no cinema, Caramuru – A Invenção do Brasil. A seguir:

Assim como sua personagem, você é uma mulher na casa dos 40 anos e foi casada com um francês. Esses elementos da sua vida pessoal ajudaram na composição do personagem?
Foi uma coincidência total os traços da minha vida serem semelhantes à personagem. Quando o Heitor me chamou, ele nem sabia a idade da minha filha e ainda não estava decidido que Vincent faria o filme. No roteiro, o personagem é um argentino, não francês. Tanto que o nome do personagem era Esteban, não Mathias.

Tempos depois, ele me contou que o Vincent iria fazer o filme. Achei o máximo porque ele é um baita ator, mas logo depois caiu a ficha: vão achar que eu fui chamada para o filme porque eu estive casada com um francês, assim como minha personagem. Eu sabia que teria de responder a essa pergunta. Na verdade, eu acho que não tem a menor importância o personagem ser argentino, brasileiro, francês, que seja.

Para você, não importa o fato de ser estrangeiro?
Para o filme, isso é irrelevante. O importante é o material do ator, o que ele é. Claro que o ator não interpreta a si próprio, porém eu sou uma mulher da geração dos 40 e estou na idade de representar essas mulheres que, em geral, já passaram por crises de casamento, são mães. É assim, é a vida, não dá para eu representar uma garota de 15 anos nos descobrindo a vida.

Ao mesmo tempo, o ator é a visão e opinião que ele tem da personagem. O Domingos de Oliveira sempre fala que há algo no ator que depende do que ele é. Por isso, uma interpretação do Hamlet depende de quem a faça. É a bagagem de vida, do que você leu, assistiu, pensa, viveu. Para interpretar uma assassina, não preciso ter matado alguém. Porém, a visão que eu tenho dela vai determinar como vou fazê-la.

Qual é o olhar sobre sua personagem, a Clarice? Uma mulher forte que finalmente saiu do ciclo de infelicidade na sua vida ou que demorou a reagir?
Não tem forte ou fraco. As relações afetivas são sempre difíceis, especialmente em um casamento longo, com filhos. Não é fácil resolver uma crise. Acho que a Clarice fez o possível, o que dava, assim como fazemos na vida. Eu a enxergo como uma mulher, com fraquezas e virtudes. Como atriz, é bom representar isso.

Houve muitos ensaios para a construção dos personagens?
Tivemos menos ensaios do que gostaríamos, eu estava terminando de fazer a minissérie Queridos Amigos. Fiz poucos ensaios com o Vincent Cassel e as crianças nas horas de folga da minissérie. Terminei de gravá-la e dois dias depois já estava em Búzios. Ensaiamos na casa, a locação, o que faz toda a diferença.

O cinema permite esse tipo de coisa, ele tem esse nível de elaboração, tem essa calma para trabalhar. Na TV, não dá. O corte está sempre em quem está falando, a câmera te foca enquanto você fala, no cinema é diferente. Você pode construir isso, ao lado do diretor. O Heitor [Dhalia, diretor] e o Gustavo [Giani, montador], contribuíram. No cinema, o ator depende do olhar de quem dirige, do montador e do câmera. Para mim, foi um encontro muito feliz. Porque, às vezes você faz, mas quem edita não “saca” o seu tempo de interpretação.

Isso ocorre na televisão, nem sempre por culpa do montador. Eu me lembro um episódio da novela Caminho das Índias [na qual Débora interpreta Sílvia] que estava muito grande e tinha de diminuí-lo. Eu olhei para a edição e percebi que as minhas pausas de interpretação tinham sido picotadas.

Ou seja, o cinema dá mais espaço à elaboração?
O cinema permite uma calma no olhar das pessoas ao seu redor. Uma vez eu li uma frase que dizia, a respeito da interpretação, que “o cinema lê pensamentos”. Às vezes, você não está em ação ou falando, mas o olhar diz muito.

No Brasil, você é uma celebridade e já deve estar acostumado a tudo isso. Como foi o assédio em Cannes, onde o longa foi exibido pela primeira vez?
Por um lado, não é muito diferente, mas lá eu não sou celebridade. Porém, estávamos com Vincent, que é um astro, e acolheu a nós e ao filme, como um anfitrião. Cannes é realmente a ilha da fantasia! É um festival muito legal, que tem um respeito pelo cinema de autor e do mundo inteiro. Você é muito bem tratado, é uma celebração. Eles colocam o cinema em um lugar bonito.

Uma coisa pura do cinema, não é só o filme com dinheiro que é respeitado. É o filme pelo filme. Para mim, foi uma experiência incrível. Tenho 29 anos de profissão e pela primeira vez fui a um festival importante com um filme do qual eu me orgulho e gosto. A ida coroou um processo em volta do filme.

Você é filha do ator Jonas Bloch e começou sua carreira de atriz muito jovem. Se seus filhos quisessem seguir a profissão cedo, você permitiria?
Acho que meu pai não devia ter deixado a começar tão cedo. Eu não vou deixar mesmo! Minha filha vai fazer 16 anos, é muito nova. Primeiro, tem que estudar... tem a hora de cada coisa, é uma idade em que não sabemos o que queremos de fato. Para mim, foi ótimo, mas eu sou um tanto precoce. Pulei algumas etapas, ficar mais tempo como estudante, viajado mais. Minha vida adulta começou cedo. Tem o benefício, mas coisas que perdemos.