Dellani Lima e Marcelo Ikeda (Cinema de Garagem)

24/03/2011 11h30

Por Heitor Augusto















No livro Cinema de Garagem, lançado nesta quinta-feira (24/3) em São Paulo, o realizador Dellani Lima e o crítico Marcelo Ikeda mapeiam as transformações do cinema brasileiro na última década. As possibilidades e problemas trazidos pelo digital estão entre os principais assuntos do livro.

“Nem que tudo que é produzido é relevante, nunca foi assim. Mas que há uma grande importância nesta “possibilidade” ou experiência de se produzir imagens de forma mais acessível. Há belas descobertas no meio de tantos desperdícios ou mesmo monstruosidades”, afirma Lima ao Cineclick. “Será que alguns dos filmes que julgamos a princípio pouco fechados a se lançar no escuro não são filmes iluminados? Demoramos décadas para descobrir tanto o talento de Jonas Mekas [cineasta lituano que fez diversos filmes-diário] quanto de Jerry Lewis [lendário comediante norte-americano]. É preciso não apenas ter olhos atentos, mas especialmente o coração aberto”, questiona Ikeda.

As entrevistas foram realizadas separadamente por e-mail. Porém, para facilitar a leitura, decidimos agrupar as respostas de Dellani Lima e Marcelo Ikeda, já que existem diálogos em algumas respostas. Confira abaixo a íntegra da conversa online:

Na carta de intenções do livro, você menciona "o cinema não como profissão, mas como vocação. Uma nova resistência, através da política das imagens". Conte para o leitor do Cineclick o que você quer dizer com isso
Marcelo Ikeda: Quando falo no “cinema não como profissão, mas como vocação” me refiro uma lógica de produção que não seja meramente em produzir uma mercadoria que circula num mercado, mas essencialmente como um gesto de olhar o mundo. Fazer cinema, dessa forma, não seria meramente um “ofício”, apreendido por meio do domínio de algumas técnicas, mas acima de tudo uma prática diária, cotidiana, ligado à essência do ser, indissociável ao próprio fato de vivermos. Enquanto piscamos os olhos, já estamos fazendo cinema, vendo cinema, vivendo o cinema. Fazer um filme desse modo não começa num “projeto” e termina com o seu “lançamento no mercado”, mas simplesmente não tem começo nem fim, porque é algo que simplesmente nos atravessa.

Nas entrevistas, existem algumas linhas comuns de pensamento, por exemplo: pouco importa o dispositivo, a necessidade de se fazer e produzir, as novas tecnologias ampliaram o acesso, a precariedade da imagem não é necessariamente um problema. Uma provocação: essa defesa do fazer não é também um sinal negativo de produção cultural está no centro do capitalismo? Essas manifestações artísticas estão mesmo à margem numa sociedade que clama pela singularização do indivíduo?
Dellani Lima: Quando se tem estas observações ou notas do fazer, ou poder fazer, não implica que tudo seja positivo com isto. Nem que tudo que é produzido é relevante, nunca foi assim. Mas que há uma grande importância nesta “possibilidade” ou experiência de se produzir imagens de forma mais acessível. Há belas descobertas no meio de tantos desperdícios ou mesmo monstruosidades. Não posso afirmar que todas as produções ou artistas são marginalizados dentro do contexto do viver ou fazer contemporâneo. Mas que ainda, infelizmente o processo de massificação do mass media impera nos meios de comunicação, de maneira completamente arcaica e produtora de uma ignorância hegemônica. O fazer será sempre uma forma de se descobrir o mundo e a si mesmo e nem sempre precisa resultar em obras de arte.

Num dos textos, escrito em 2001, você fala sobre o que é cinema independente no Brasil. Dez anos depois, existe cinema independente no Brasil? O cenário mudou apenas pelo surgimento do digital?
Ikeda: Mudou muito e, ao mesmo tempo, permaneceu o mesmo. Por um lado, é claro que as tecnologias digitais permitiram uma certa revolução tanto no ato de se fazer filmes quando no de ter acesso a eles. Por outro, a concentração do mercado exibidor é gritante: são poucos os filmes vistos nos cinemas, em DVD, nas televisões. Há uma tensão entre um processo crescente de concentração em grandes conglomerados globais e um cenário atômico e acêntrico, multiplicando os nichos de resistência. Em paralelo ao cinema global das majors, há o surgimento de um cinema filipino, de um cinema romeno, de um cinema cearense.

Prolongando a pergunta anterior, pense no cenário de dez anos e olhe pro de hoje. Em que pontos há progresso desse tipo de filme que você defende em Cinema de Garagem? É possível que eles ampliem seu escopo de exibição?
Ikeda: É exatamente essa pergunta que tentamos começar a responder no nosso livro. Houve muitos avanços tanto quanto à visibilidade de uma produção quanto ao amadurecimento dos filmes realizados por essa cena. No entanto, essa cena não é uniforme: são múltiplas as formas como esse desejo se manifesta nos filmes de cada realizador. Mas em comum acredito que haja um desejo que atravessa os filmes e as relações, fazendo ressoar novas possibilidades de se fazer filmes e de fazer com que esses filmes sejam vistos. Ao mesmo tempo tudo está apenas começando.

Outra provocação: as produções dos coletivos espalhados pelo Brasil que seu livro mapeia constituem um fenômeno inédito? Olho para os filmes de Luc Moullet e sinto a mesma atmosfera de produção dos filmes da produtora cearense Alumbramento...
Lima: De forma alguma é recente. Na arte, trabalhos coletivos e totalmente independentes fazem parte da história. Quase todas as vanguardas trabalham coletivamente. Mas isto acontece hoje em dia de outra maneira, principalmente por causa das novas tecnologias. Com muito mais alcance (distâncias, velocidades, indivíduos conectados, etc). Espaços ficam cada vez mais próximos tanto virtualmente com as redes geradas pela internet quanto pelo acesso aos transportes físicos, cada vez mais baratos. É importante frisar que não existe um conflito geracional: os artistas da cena contemporânea não buscam rótulos, nem tampouco buscam ignorar ou esquecer suas influências ou antecessores.

Por que, na montagem de Cinema de Garagem, você decidiu manter uma estrutura fragmentada?
Lima: A opção é tanto estrutural como conceitual, partindo do princípio que vivemos em uma sociedade fragmentada e como diria Wally [Salomão]: “a memória é uma ilha de edição”. Além do dinamismo na leitura. Esta publicação tem mais um formato revista que livro. Queríamos uma estrutura próxima do fanzine, que nos remete a cultura “faça você mesmo”, uma das grandes referências desta cena.

No texto A Crítica (O Crítico) Como um Barco à Deriva, você defende uma crítica que se lança no escuro. Como exercitar este tipo de análise no dia a dia quanto uma parte significativa dos filmes que entram em circuito não está disposta a se lançar no escuro?
Ikeda: Primeiro, é preciso ressaltar que os filmes que passam no circuito comercial não podem ser a referência básica para um espectador cidadão: há outras formas de ter acesso a filmes muito mais plurais do que os lançados no circuito, em que três ou quatro filmes dominam 50% das salas de cinema do país. Segundo, é preciso exercitar esse tipo de crítica não apenas escrevendo sobre os filmes, mas se tornando essencialmente um bom espectador. Será que alguns dos filmes que julgamos a princípio pouco fechados a se lançar no escuro não são filmes iluminados? Demoramos décadas para descobrir tanto o talento de Jonas Mekas [cineasta lituano que fez diversos filmes-diário] quanto de Jerry Lewis [lendário comediante norte-americano]. É preciso não apenas ter olhos atentos, mas especialmente o coração aberto.

Num momento em que o capital carrega para o hegemônico manifestações marginais, o que você pretende implicar quando usa a palavra “contracultura”?
Lima: Quando cito as referências contracultura, vanguarda, underground, entre outras, uso para citar as influências da cena, e não para nomear os processos, as produções, os artistas ou o contexto. Com a cinefilia de Internet, p2p [peer to peer], blogs, entre outros sítios, nos quais toda uma geração baixou e assistiu obras que antes o acesso era dificílimo de se ter, possibilitou um campo maior de pesquisas e quereres. Além de obras audiovisuais, músicas e textos também estão disponíveis na Internet, ampliando o escopo de influências para se apaixonar.

Mesmo que os realizadores deste contexto tenham estas, entre outras influências, suas produções buscam refletir e experimentar o grande escopo de pesquisas artísticas sem segui-las em todos os seus purismos. Daí uma grande margem para o hibridismo, tanto de meios como de linguagens. Com isto, fica difícil de serem rotulados por qualquer escola de arte, mesmo que a crítica, curadoria ou mesmo a imprensa insistam em nomeá-los com algo de “novo”. Existem realizadores que produzem desde filmes de gênero como experimentais, ou mesmo conceituais. E muitas vezes os artistas desta cena detestam rótulos, que acabam atrapalhando em vez de auxiliar. Certos estatutos da arte não se aplicam mais as obras e artistas contemporâneos. Acho que a banalização da imagem se dá muito mais na comunicação de massa (publicidade, TV, etc.) do que nas pesquisas artísticas.

Por que Cinema de Garagem não problematiza as mudanças trazidas ao cinema pelas novas tecnologias?
Lima: Não houve na elaboração do livro a necessidade de se fazer esse contraponto, ou os desdobramentos negativos desse impacto. Existem sim crises no digital. Antigos recursos analógicos ainda possuem melhores captações, armazenamentos e exibições. Estamos em processos e descobertas com essas novas tecnologias que não param de evoluir. A cada instante temos novos recursos e melhoras significativas nos anteriores. A fragilidade dessa memória virtual seria um ponto importante a ser levantado, é comum (e às vezes dramática) a perda de dados, talvez o papiro ainda preserve mais seus caracteres que o HD. Mas ainda assim, prefiro carregar cinco longas em um pendrive do que encher o porta-mala do fusca com tantas latas de película.