Denzel Washington e Russell Crowe

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Por que histórias como estas, de crimes nos anos 70, exercem fascinação junto ao público?
Russell Crowe: Existe uma certa fascinação em relação à vida das pessoas que vivem fora da lei, nos crimes, especialmente no caso do personagem de O Gângster, que vive fora da lei e faz suas próprias regras. Quantos de nós somos capazes de acordar pela manhã e saber que são o que gostariam de ser? Pessoas que conseguem isso são fascinantes. Ao mesmo tempo, Frank Lucas (interpretado por Denzel Washington) representa uma linha que mostra que se aposentar não é o mesmo que desistir.

Denzel Washington: Ele estava realmente aposentado, mas sentia falta daquela adrenalina de quando estava em ação, pelo menos por uma semana. Esse é o ponto atraente às pessoas que atravessam essa linha fora da lei. Todos perguntam o que ele quer e, no momento que ele é rico, atingindo o melhor que qualquer negócio pode fornecer, ele não consegue parar de fazê-lo. Obviamente, não é pelo dinheiro e talvez nem pelo poder, mas talvez algo inserido no contexto. Frank pensa sobre isso quando volta a Nova York. Às vezes, desejamos que também fossemos desse jeito, entende?

A figura do traficante de drogas na Harlem (bairro nova-iorquino) dos anos 70 é muito presente também socialmente. Seria uma forma para compensar seus crimes essa ação social que eles têm?
Washington: Essa relação de poder é universal, uma forma dos traficantes de manterem a população quieta. Há muitos na comunidade que acreditam ter traficantes como aliados é melhor do que ter policiais; ao mesmo tempo, existe esse medo do que poderia acontecer caso a comunidade não colabore com os bandidos.

Ao mesmo tempo em que seu personagem cuida da comunidade, ele pode ser visto como uma ameaça a ela. Como você vê essa dicotomia moral?
Washington: É isso que estou dizendo. Existe um ponto cego aí. É triste conversar com Frank Lucas sobre as coisas boas que fez à comunidade porque ele necessitava sentir que realmente fez o bem. Uma boa questão a ser feita seria: "Se você sabia que seria capturado, por que voltar aos negócios?". Nunca perguntei isso. O Frank mesmo me disse que foi não teve uma boa educação; portanto, nunca conseguiria um emprego em Wall Street ou mesmo como faxineiro neste hotel - o que ele nunca faria por conta de sua personalidade. Mas ele tem a capacidade de administrar facilmente este hotel por conta de seu talento administrativo, mas nunca teria a oportunidade de mostrar isso. Então, ele criou e conduziu seu próprio império ao lado de pessoas que confiava.

Em algum momento, Richard (interpretado por Crowe) esteve tentado a mudar para o outro lado da lei, aceitando subornos?
Crowe: Como é dito no filme, é apenas dinheiro. Richie tem seus desejos pessoais e dinheiro não é um deles. Ele sempre quis entrar para essa instituição e o vejo como um verdadeiro patriota norte-americano. Mas existe algo em sua personalidade que simplesmente não encaixa com sua entrada na polícia. Às vezes, sinto que esse não era o melhor lugar para ele. Depois de cinco anos trabalhando lá, ele ainda não sentia que era o melhor lugar; pessoas culpadas por crime tendo direito à defesa não era certo para ele, apesar de ser assim que a lei americana funciona. Richard é um personagem complexo; ele tenta ser o tipo de policial que idealizava quando criança, então, ele não aceita nenhum tipo de suborno.
Aceitar dinheiro ou qualquer outro tipo de favor simplesmente porque é resultado do tráfico de drogas, não faz com que não seja suborno ou antiético, de acordo com a forma como ele vê. Não são todos os seus colegas que concordam com isso e manter essa posição não era fácil para Richard.

Foi por isso que ele decidiu não ser mais um policial e se tornar m advogado?
Crowe: Esse é um bloqueio, foi muito complicado conseguir conversar com Richard sobre esses detalhes de sua vida. Foi um longo e difícil processo de inquisição, o que é natural. Quando estava me preparando para o papel, perguntei a Richard se poderia pegar sua Estrela de Davi (importante símbolo da religião judaica) emprestada para usar no filme, um detalhe mínimo, mas, para ele, foi uma surpresa saber que pretendia usar uma Estrela de Davi no longa. Foi quando começamos a estabelecer uma relação de confiança e ele passou a se abrir para mim.

Eles ficaram satisfeitos com o resultado final da produção?
Washington: Sentei numa sala com Frank, segurei sua mão e ele começou a chorar como um bebê. Não esperava por isso. Existe muita dor, remorso e arrependimento em sua vida, o que percebi com essas lágrimas, elas eram reais.

Sobre o que vocês conversaram nessa situação?
Washington: Sobre muitas coisas, principalmente sua infância, quando Frank observou seu primo sendo assassinado... Ele tremia enquanto falava sobre esses acontecimentos e eu pensava que aquilo tudo tinha de ser real, não havia como ser fingimento. O assassinato, quando Frank tinha apenas seis anos, mudou completamente sua vida. Após o crime, ele saiu correndo pela floresta achando que seria o próximo a ser morto; Frank podia ouvir a voz de seus pais e familiares chamando por ele, que não queria sair de seu esconderijo. De repente, ele passou ser uma figura forte em sua família. Todos eram muito pobres e, quando ele roubava galinhas, sua mãe nem perguntava de onde elas vinham, simplesmente as cozinhava para que pudessem se alimentar. Aos poucos, foi roubando cada vez mais galinhas e outras coisas que Frank conseguiu sustentar seus irmãos e familiares.
Ao chegar em Nova York, ocupou seu espaço no Harlem. Bumpy Johnson foi o primeiro a perceber seu potencial para as negociações fora da lei e o próprio Frank sempre o respeitou, nunca o chamou de Bumpy, mas sim de Sr. Johnson. Por isso que no filme, meu personagem fala detalhadamente sobre como, por 15 anos, ele foi o braço direito do Sr. Johnson.

Quando você viu que Frank chorava nesse encontro, sentiu que poderia confortá-lo?
Washington: Primeiramente, não o julgo por seus atos e tenho certeza que não estou falando nada sobre o que ele não se sentiria a vontade de compartilhar. Ele foi honesto comigo e senti isso. Frank abriu todas as portas e não esperava por isso. Afinal, ele é um ser humano, fez coisas horríveis em sua vida e pegou pelo preço, não somente por ter ficado preso, mas também em seu corpo: por conta de uma osteoporose, ele não pode nem mais ficar em pé, locomovendo-se numa cadeira de rodas. Frank é um homem fascinante. O tempo todo, ouvimos sobre homens bons e ruins e não é bem assim neste caso, Frank é um pouco dos dois.

Foi uma pressão a mais interpretar alguém real que ainda está vivo?
Crowe: Não estamos neste negócio para fazer imitações, então não foi uma pressão. Algumas pessoas ficaram impressionadas com a forma como o interpretei andando, dizendo que era realmente parecido, mas não passou da minha imaginação na composição do personagem. Estava muito mais interessado em outras coisas em sua vida e na forma como ele se sentia; o caso da Estrela de Davi era uma ponta disso e somente fez com que eu me aproximasse de Richard. Sua maior paranóia era ser retratado como um mulherengo e ele citou isso várias vezes. Acho que conseguimos atingir um equilíbrio.