Dominguinhos

23/08/2009 21h30

Por Heitor Augusto

José Domingos de Morais, o Dominguinhos, introduz o espectador a uma viagem pelos diversos estilos sanfoneiros do Brasil no documentário O Milagre de Sta. Luzia.

Nesta entrevista exclusiva ao Cineclick, o músico não fala apenas do filme, mas, com imensa propriedade, traça uma linha cronológica do instrumento a que dedica desde os seis anos de idade, quando tocava em feiras do interior de Pernambuco. Bem-humorado, atencioso e quase sempre encerrando suas frases com um riso, Dominguinhos atribui ao núcleo baiano do Tropicalismo a salvação da sanfona. “Quando veio a Bossa Nova, o instrumento caiu em desuso. Foi a Gal Costa que teve coragem de colocar o acordeom em seu devido lugar”.

Leia a íntegra da conversa abaixo:

Como é que você foi parar no filme? Por um convite do diretor Sérgio Roizenblit?
Ele já tinha filmado algo sobre sanfona no projeto O Brasil da Sanfona, registrou sanfoneiros de vários lugares. Depois, fez um show com várias tendências da sanfona. Acho que ele ficou com aquele material todo na cabeça e um desejo de fazer uma coisa mais ampla, para cinema. Aí me convidou. Então, nas viagens que eu fazia, especialmente para o nordeste, ele acompanhava.

Você indicou quais músicos deveriam estar no filme?
Alguns nomes eu sugeri, outros foram trazidos pelo Sérgio, que aliás fez um bom trabalho de pesquisa. Por exemplo, os músicos gaúchos [que ocupam boa parte do filme] vieram do diretor, que fazem aquele som maravilhoso. Também conseguimos pegar o Mário Zan [maior sanfoneiro paulistano, morto em 2006], que foi muito legal.

Mas muita gente ficou de fora, a Marinês [conhecida como “Luiz Gonzaga de saias”], uma grande cantora. Já Patativa do Assaré [poeta morto em 2002] conseguimos manter no filme.

Eu senti falta de mais sanfoneiros do Centro-Oeste. Apenas o Dino Rocha e o Elias Filho. Por que os capítulos com a sanfona no Nordeste e no Rio Grande do Sul são muito maiores?

Vou te dar uma explicação e você vai entender: o pessoal do Mato Grosso, com exceção dos lados de Goiás, eles tocam de um jeito muito parecido com os gaúchos. Já o goiano toca de maneira diferente, entoa a mão direita com a esquerda [no jeito nordestino, os baixos da mão esquerda são menos utilizados e o fole é mais contido]. O Zezé Di Camargo toca muito bem nesse estilo, que no filme é representado por Elias Filho.

Mas, faltou muita coisa, como os sanfoneiros do Ceará. Porém, tem outras coisas boas, como os sanfoneiros, o lendário Bagre Fagundes, o Gilberto Monteiro, que toca de um jeito diferente, com o pé na cadeira e a correia da sanfona quase caindo.

Tirando o acordeom nordestino, do forró e do baião, qual outro estilo sanfoneiro te agrada?

O jazzístico. Este é extraordinário.

Como é ter sido a última pessoa a entrevistar o Sivuca?

Ah [suspira e pensa um pouco] ele era um grande amigo, desde 1956. Tivemos a sorte de conseguir falar com ele, ainda lúcido [morreu em 2006 em decorrência de um câncer na laringe], mas com dificuldades em falar. E ainda falou demais!

Por que você somente se apresenta de chapéu?

É uma relíquia de Luiz Gonzaga, ele sempre usava o chapéu, mas do estilo cangaceiro, maior e com mais adereços. Eu sempre gostei do chapéu, mas como adorno apenas. O grande ficava para ele, uma espécie de identificação, assim como o pequeno é um símbolo meu...

Mas quando você era menino e tocava nas feiras pra alimentar a família, como mostra O Milagre de Sta. Luzia, você não usava chapéu, né?
Naquela época eu usava trapos feitos pela minha mãe, até eu vir para o Rio. Depois toquei com a Gal [Costa], com o Caetano [Veloso] e com o [Gilberto] Gil já com o chapéu. Aliás, sobre os baianos, eles tiveram a coragem de usar a sanfona quando ela já não estava popular. Colocaram o acordeom no para substituir o teclado.

Na época [entre os anos 60 e 70], a Gal tinha um status mais ou menos como o da Marisa Monte hoje, sua música transitava na elite, na classe média alta e entre os universitários. Esse momento, trazido pela esfera dos baianos, foi a salvação da sanfona. O instrumento era muito popular, aí veio a bossa nova, o iê iê iê, boleros e mambos, samba para valer. Aí eu comecei a tocar muito graças a eles, e as pessoas foram descobrindo que o acordeom pertence a quem toca: se você o deixa encostado na parede, vai ficar lá a vida toda [risos].

Mas em que época ocorre esse declínio da sanfona?

Foi depois da bossa nova, ela tirou muita coisa e quase acabou com o conjunto regional – dois violões, cavaquinho, acordeom, flauta e pandeiro. Todas as rádios tinham um conjunto regional. Aí a guitarra começou a substituir os cavaquinhos e os violões nas gravações, sem contar a entrada do contrabaixo. De repente, quando percebi ,estava gravando com até dois guitarristas! Depois chegou a bateria. Aí foi empesteando tudo e o pessoal foi detestando o acordeom.

No auge da sanfona [anos 40 e 50], toda mocinha e senhora tinham o instrumento. Era época de Mário Mascarenhas, o maior incentivador do acordeom no Brasil. Ele reunia cinquenta sanfoneiros em festivais do Maracanãzinho. Quando o instrumento deixou de ser popular, foi um sufoco, os músicos foram tocar piano, órgão. Até o meu irmão [mais velho] Moraes também teve de mudar.

Já que você está falando da posição da sanfona em tempos de declínio, o que você acha da posição da sanfona hoje?

Está ótima! As pessoas compram, é um instrumento caríssimo. Vejo muito garotinho tocando de novo, como há cinquenta anos [risos]. Como diria o Chacrinha, “nada se cria tudo se copia”, é um ciclo [risos]. Parece que os meninos olham para trás, “vou ver como o meu pai fazia”, e aí fazem tudo de novo.

Depois que você passou a viver da sanfona e foi “escolhido”, aos 16 anos, herdeiro do legado de Luiz Gonzaga, nunca teve outro instrumento que te trouxesse tanta atenção?
Ah, não... eu toquei tudo, do jazz ao samba, mas sempre no acordeom. Não tem nem conversa! Eu toquei pandeiro, triângulo, zabumba, outras coisas de percussão. Agora, instrumento mesmo, apesar de ter tido chances, eu nunca quis. Sempre fui do acordeom, o que significa que, para mim, O Milagre de Sta. Luzia foi uma beleza!

Qual é a música de Luiz Gonzaga, seu padrinho artístico, de que você mais gosta?

[Pensa muito antes de falar] Gonzaga tinha muita coisa e você tem de ouvir as mais antigas [risos]... não é baião nem forró, são valsas, como esta [começa a cantarolar]: “Ver carreteiro na estrada passando/ E o gaiteiro com sua gaita tocar” [da canção Jardim da Saudade, de Lupicínio Rodrigues]. É uma coisa, digamos, diferente.

A propósito, o Gereba [fundador dos Trovadores Urbanos] está fazendo um trabalho sobre as valsas de Luiz Gonzaga. Pegou as músicas e pediu os autores para fazer letras, Maciel Melo, Zeca balero botaram letras, umas figuras conhecidas estão botando letra e vão cantar e Maria Bethânia vai cantar, eu mesmo toquei numas cinco seis músicas.

Por que a sanfona, objeto de devoção de O Milagre de Sta. Luzia, não se relaciona com o samba?

Não se relaciona agora, mas elas andavam juntas. Eu mesmo gravei muito com Ciro Monteiro, Jorge Veiga, na rádio Mayrink Veiga, Nacional e Tupi. Todos os cantores, além de cantar seresta, interpretavam sambas. O acordeom e a flauta faziam as introduções da musica. Os grandes cantoras da época, de Jamelão a Dalva de Oliveira, cantavam com orquestra e andavam com os arranjos debaixo do braço. Nos corredores das rádios eu cruzava com Dalva de oliveira, Cauby Peixoto, Ângela Maria.

Voltando ao filme, qual sua opinião a respeito? É uma boa apresentação para quem quer se aproximar das diversas vertentes da sanfona?

Para um cineasta paulista, dá para sentir que ele fez porque gostava e a honestidade representa muito. Eu acho que quem for ver o filme vai entender os usos da sanfona por causa dos entrevistados. Eu e o Renato Borghetti [sanfoneiro gaúcho] falamos das diferenças, das formas de tocar. Lógico que faltaram outros nomes, mas é uma apresentação.