Dorrit Harazim e Arthur Fontes (Dois Tempos)

08/06/2011 15h00

Por Heitor Augusto











Como funciona na prática a parceria de uma jornalista e um cineasta?
Dorrit Harazim: Para entender isso é importante termos em mente que são dois filmes, sendo o primeiro Família Braz de 2000 e integrante de um projeto maior, o 6 Histórias Brasileiras. Portanto, essa sinergia – ou não – funcionou de forma diversa no primeiro e no segundo. Porque no primeiro fazia parte de uma série pensada coletivamente em reuniões semanais num papo ultra-cabeça, saía faísca até entre o grupo de jornalistas e o de cineastas, colocados numa experiência improvável, mas que deu muito certo. A sugestão foi do João Moreira Salles, que achou possível juntar jornalistas com ideias e cineastas que soubessem colocá-las em imagens em movimento. Então se formaram grupos e duplas envolvendo Zuenir Ventura, Flávio Pinheiro, Marcos Sá Correa e eu. Nós nos conhecemos há quarenta anos.

E quem eram os cineastas?
Dorrit: Na outra ponta estavam o João [Moreira Salles], Izabel Jaguaribe e Arthur fontes. Três cineastas e quatro jornalistas. Por que estou comentando isso? Nessas reuniões, muito soltas, levaram-se vários meses até entendermos o que queríamos mostrar. A ideia preliminar era que nós, jornalistas, iríamos dividir o Brasil em quatro, sem roteiro. O início seria em Brasília, e cada um ia a um canto com um fotógrafo. Não se pensava em imagem em movimento não tinha nada nisso. Só que o João insistiu, “vocês estão loucos de hoje em dia fazer livro, tem que fazer imagem em movimento, filme, cinema”. Mas nós, os jornalistas, nunca tínhamos feito isso.

Naquelas reuniões, na qual participavam todos, pretendíamos abordar os evangélicos, o brasileiro médio, carnaval, migração e o Vale do Ribeira, um embrião para o tema da ecologia. Para assuntos absolutamente banais e corriqueiros, o grande desafio era como tratá-los de forma diferente. Os jornalistas inventavam roteiros, o problema era colocar as ideias em imagem.

Mas como se consolidou a parceria em torno do Família Braz, que desembocaria, dez anos depois, no Dois Tempos?
Dorrit: No caso de Arthur [Fontes, codiretor] e eu, nossa escolha recaiu sobre São Paulo por se tratar da maior população urbana. Estudamos vários meses diversos indicadores, a Fundação Seade ajudou enormemente com um mapeamento muito preciso de regiões e detalhamento populacional. Usamos também IBGE, Pnad, chegamos ao perfil ideal do que seria uma família de classe média brasileira.

Uma vez que era São Paulo e o Arthur sendo do rio, não faria muito sentido, pelo tempo valioso dele como cineasta, fazer o trabalho de jornalista. Sem maiores dificuldades, decidiu-se que em algum momento eu traria pra região um leque de cinco, seis famílias que teria mapeado até então. Foram meses de trabalho, sozinha, sem pesquisador por opção minha.


O documentário acompanha dois momentos da família Braz: no final da década de 1990 e em 2009

Como foi a recepção das famílias pesquisadas no início?
Dorrit: Era necessário ir aos poucos. Ninguém chega falando para uma família humilde “a gente vai ficar aqui durante um mês filmando vocês”. Primeiro fui eu, a gente conversa, depois vem o Arthur e explica o que é, depois se apresenta o cara do som com aquele boom. Enfim, fomos muito devagar.

O olhar do Arthur foi fundamental porque, quando chegamos à família Braz em Brasilândia, no que ele viu a rua onde eles moram, em um dos vários topos de São Paulo, ele sacou que seria preciso conquistar a família, pois do ponto de vista do cenário, seria muito melhor que outros bairros. Além disso, várias outras famílias, na segunda ou terceira visita, tinham embutido algum problema ou alguma condição que atrapalharia a normalidade que a gente queria dar à vida deles no filme. Um exemplo: numa das famílias, que seria ótima e se encaixaria como uma luva no método científico, uma das crianças não tinha o palato no céu da boca. Ora, isso se tornaria um problema que tomaria conta de uma rotina que queríamos captar. Uma outra senhora tinha problema grave, ela era muito querida, mas sofria de agorafobia [medo de espaços abertos], não podia sair do quarto. Isso seria um assunto tão grande que teria seu próprio filme, que não era o propósito.

Qual era o propósito, então?
Dorrit: Retratar uma família da periferia de São Paulo sem insistir, a menos que brotasse naturalmente no entorno, nos males sociais. À época, estava muito presente com insistência brutal, desde o Cidade de Deus, um filme que adoro e gerou filhotes, a droga, o tráfico, prostituição. Nosso propósito era mostrar periferia que vive o dia a dia e, de vez em quando tem favela, de vez em quando não tem.

A equipe toda carioca me deu a primeira surpresa porque eles estranharam a periferia de São Paulo, achavam que era tudo favela. Foi até bom porque filmaram diferente. Quando chegamos à família Braz, jogamos as estatísticas fora porque ela fugia dos principais quesitos: quatro filhos, enquanto a média brasileira desde 2000 é de 2,7 filhos. Eram negros, a estatística mediana não era essa. Mas o bairro era Brasilandia, a família era Braz, com chefes com nome dona Maria e seu Toninho, poxa! Assim nasceu o primeiro filme: o olhar do cineasta é fundamental para coisas que o jornalista não percebe, pois fica preso ao conteúdo que acha que vai obter. E pra jornalista, quando terminam as filmagens, achamos que o filme já estava pronto. Foi um aprendizado mútuo.

Em 2011, é até estranho imaginar que vocês filmaram tanto material há uma década em película, já que hoje o digital dá outra liberdade...
Dorrit: O Arthur enlouqueceu porque o primeiro filme não tinha roteiro, decisão deliberada. A meu ver, a única maior graça é a surpresa ser mútua, do espectador e nossa. Jamais perguntei a nenhum dos membros da família duas vezes. Se errou a mão, se o áudio não estava funcionando, a luz estava errada, danou-se. Mas não repetíamos: choramos a mágoa e perdemos, mas nunca repetíamos

Mas isso é um posicionamento que gerou conflito, né?
Dorrit: Não, porque o Arthur tem uma habilidade, como cineasta, de driblar inclusive esse impasse. Aceitamos não refazer porque a resposta sai diferente, o tom de voz também, a pessoa já pensou. Achamos que isso é a marca do nosso documentário, que é simples, não tem nenhum mérito cinematográfico para entrar na história do cinema e nunca mais ser esquecido, mas ele tem uma veracidade espontaneidade. Ele é de momento: naquele momento o sujeito falou isso e vale para aquele momento. Quando nós ouvimos é exatamente o que o espectador ouve. Isso gera imperfeições, e nesse sentido o Arthur, cineasta de mão cheia, tem latitude intelectual e profissional grande o suficiente pra achar soluções e tapar erros fundamentais.

E em Família Braz – Dois Tempos?
Dorrit: Foi outra coisa, porque o HD te permite fazer papos de uma hora e meia, o câmera não aguentava mais. Mas, precisávamos aproveitar tempo porque todos trabalham, tínhamos de aproveitar. No final das contas, tiramos a sorte grande com essa família pelo fato de serem seis, o que dá um leque maior de possibilidades de mostrar algumas coisas brasileiras e um tipo de Brasil, e a sorte de eles terem se colocado à disposição, cada um a seu modo. Tiramos a sorte grande de ter uma família inteiramente normal, no sentido de que ela não está preocupada a esconder coisas ou se mostrar de forma diferente do que talvez seja. Captamos aquele momento, e ele é real.

Essa decisão de voltar na década seguinte para fazer o Dois Tempos tem a ver com documentar a passagem da família para uma outra classe?
Arthur Fontes: Resolvemos que seriam dez anos, mas poderiam ter sido cinco ou dez anos, foi uma decisão arbitrária nossa de que a gente voltaria em dez anos. No final do primeiro filme, eles mesmos, sem a gente perguntar, faziam previsões do que aconteceria em dez anos. Na hora da edição tudo filmado e pronto, pensamos em seria interessante voltar depois desse intervalo.

Na volta, em 2009, pegamos o instantâneo. A mudança de classe e tudo isso está fora do nosso controle. Eles falam no documentário que em 2004 passaram momentos difíceis, ou seja, se tivéssemos escolhido voltar a fazer o filme em cinco anos, certamente a contaríamos uma história de dificuldades. Não foi a troca de classe que nos levou a essa família ou que isso era importante. A gente foi só ver o que tinha acontecido com eles. Tudo conspirou a nosso favor que esse retrato da ascensão social ficasse mais claro, mas não foi intenção pra afirmar a subida de classe.

Como realizadores, vocês não sentiram a necessidade de colocar para o espectador o que aconteceu, do ponto de vista político, nos últimos dez anos, ou explicar por que a família Braz chegou a outro degrau financeiro?
Dorrit: Seria a coisa mais fácil, mais politicamente correta e jornalisticamente cretina, pelo seguinte: se você pegar qualquer pessoa que tem 16 anos há dez anos e 26 hoje, alguma coisa terá acontecido na vida dele. Provavelmente será a maior mudança que terá acontecido na sua vida porque, dos 40 ao 50, menos coisas mudam.

Então, seria artificial nós, intelectuais e cineastas, os de fora, conduzirmos a entrevista para eles manifestarem o que eles acham desse período. Parece-me muito mais inteligente fazer com que as coisas aflorem ou não. Se a política não aflorou, isso quer dizer uma coisa importantíssima: que não foi importante pra eles.

Justamente, até em uma cena o Anderson, filho mais velho, mostra um desdém com a esquerda. Com a percepção política dessa família?
Dorrit: Pergunte a eles, acho muito mais importante ouvi-los, senão vai passar pelo meu filtro. Isso é uma coisa que deliberadamente não queremos fazer.

Como realizar um filme como esse sem depender demais das entrevistas, do talking head?
Arthur: A gente entendeu que tudo que estava fora da família não funcionava. No primeiro longa, em 2000, filmamos muita coisa, entrevista com patrões, vizinhos e outras coisas durante um mês.

Para o Família Braz – Dois Tempos, existe uma série de coisas que não acontecem mais. Por exemplo, domingo eles todos iam para a rua, jogavam vôlei e dançavam. Hoje não tem uma criança na rua, pois estão em casa usando a internet ou na lan house. A rua é um deserto, antes era uma festa. O ambiente também mudou e isso interfere na filmagem. Tentamos realizar encontros da família porque gerava cenas mais legais. Porém, só conseguimos em um domingo, o resto do tempo era a gente tentando pegá-los pela cidade, correndo por são Paulo. Quase nunca havia dois membros da família juntos. Isso foi uma grande dificuldade: por isso o filme atual é mais talking head...

Essa mudança acabou interferindo na montagem? Parece que existe uma preocupação em fazer uma apresentação dos personagens que até me lembrou os filmes de Visconti...
Arthur: Sim. Para misturar as duas histórias de passado e presente primeiro decidimos usar o preto e branco para chegar a um meio termo. No final, decidimos fazer uma apresentação mais clara e não misturar os personagens no começo. E a introdução dura até o minuto quarenta do filme.

Tentamos também montar o filme sem narração, mas faltavam informações importantes. Em determinado momento, assumimos a narração, sendo o mais sucinto possível e deixando claro que não estamos querendo fazer nenhuma teoria, nem sociologismo e antropologismo. Estamos apenas assistindo, nossa posição é de observadores.

Como vocês conseguiram se depreender de pré-entendimentos dessa classe na hora de filmar, ainda mais pelo tamanho da pesquisa prévia?
Dorrit: Não se desprende, só discute-se o que aflora. O que aflora? O carro [em dez anos, a família saiu de um veículo usado para adquirir quatro automóveis]. Os valores familiares. O que nós fazemos como jornalistas é exatamente o inverso e raramente temos a humildade de não impormos o que nós achamos importante para quem está vivendo a vida deles. Nesse documentário, eles impõem o que eles acham.

Sem notar, você já tem a resposta, mas não está querendo aceitar: para eles, Brasília, política e partido são inteiramente desimportantes. E é uma coisa que não queremos aceitar.