Eduardo Escorel (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O que na figura de Genival o levou a produzir este documentário?
A mesma coisa que me fez, em 1996, gravar um depoimento em áudio. Percebi nas conversas que tivemos durante as gravações de Gente que Faz que ele tinha uma experiência de vida que ia muito além do que interessava ao programa. O propósito da série era limitado ao apresentar os perfis. Isso me motivou, mais inicialmente, a estabelecer uma relação com ele que eu não havia experimentado com nenhum outro personagem durante os dois anos nos quais trabalhei na série. Conheci pessoas muito interessantes durante os quase dois anos que trabalhei na série, mas nenhuma delas me motivou a voltar, senti que tinha ali uma riqueza que me interessou. Guardei essa gravação (parte dela aparece no documentário). Achei que existia ali algum material que valeira a pena resgatar e não deixar cair no esquecimento. Embora o Genivaldo seja uma liderança conhecia no Estado do Alagoas, fora deste âmbito a história dele não era conhecida. Todas essas coisas me levaram a voltar em 2005, nove anos depois. Inicialmente, já tinha escrito um roteiro de ficção, mas deixei esse projeto de lado e resolvi desenvolver O Tempo e o Lugar.

O fato de você ter voltado e concluído o documentário foi intuitivo. A intuição é importante para um documentarista?
Há certas coisas que despertam a curiosidade. Hoje em dia, cada vez mais, a grande motivação de se fazer um documentário é a satisfação de uma curiosidade, de conhecer o desconhecido, tentar revelar algo que não está na aparência das coisas. No passado, o documentário teve outras ambições, como ensinar o público ou de persuadir as pessoas. Essas ambições entraram em crise. Ao mesmo tempo em que as ambições sejam aparentemente mais modestas, são, na verdade, mais complexas. Quando voltei em 2005, o Genivaldo me revelou muitas coisas novas. Naquele ano, não tinha percebido direito a dimensão que acredito ter na história dele. Aliás, parte da história dele no PT foi posterior a 1996. Graças a esse longo período de 11 anos, fui conhecendo-o melhor e entendendo sua história.

O fato dele ter participado de Gente Que Faz em 1996 pode ter influenciado de alguma maneira sua trajetória política? Você acha que este documentário o fará?
Não sinto que o Gente que Faz tenha tido algum tipo de interferência. O jornalismo tem uma característica de ser efêmero, aquilo vai ao ar e no dia seguinte todo mundo já esqueceu (risos).

Mas a série era bem popular...
Sim, com certeza, em todos os lugares do Brasil que íamos, as pessoas conheciam o Gente que Faz. Eu tenho a impressão de que, mesmo assim, os personagens são esquecidos, pois era um a cada semana. Para o Genivaldo, com certeza foi importante no âmbito municipal e estadual, mas é um pequeno grão na história dele, com uma ótica muito diferente do documentário. Intencionalmente, inclui um trecho de Gente que Faz para fazer uma contraposição entre a linguagem publicitária, institucional, e a documental com a idéia de quem visse aquilo percebesse como são diferentes.

O que você acha da posição apartidária de Genivaldo?
É uma opção dele, muito original, aliás, que marca talvez a maior diferença dele em relação a outras trajetórias, algumas muito conhecidas, né? Existe um paralelismo com o presidente Lula. Há muitos pontos em comum - muitos mesmos - e alguns desvios, que resultam em destinos muito diferentes. Quando o PT passou a colocar como objetivo a conquista do poder, o que não existia no começo, assim como o Lula, ele foi levado a pagar o preço ao fazer acordos e compromissos. , um jogo de cintura que a realidade impõe aos políticos. Assim como o Lula, Genivaldo migra do nordeste - talvez como Lula, ele nunca tenha se conformado em ser apenas um peão de fábrica - e, por circunstancias pessoais e por apego, ele volta ao Nordeste. Aí já há uma diferença. Genivaldo se sente bem no lugar dele. O roteiro de ficção que eu havia feito sobre ele tinha como título Meu Lugar É Aqui, uma das coisas que ele me disse. Ele volta para lá e é capaz de constituir uma família, orgulhando-se de seus filhos (são seis, no total) nunca terem trabalhado para latifundiários. Com toda razão. Ter tido essa experiência na Pastoral da Terra, do MST e do PT e manter-se fiel à vocação política em outros termos, sem a concepção eleitoral, atuando no âmbito modesto dele e tendo esse sentido de liderança reconhecida é uma opção moderna e muito interessante. A prática política é, no caso dele, mais uma demonstração de que não precisa, necessariamente, ser feita no âmbito partidário. O que não quer dizer que o filme pretenda negar a representação política, isso também é muito importante e ele lida com isso, Genivaldo tem relações com quem está no poder, mas, ao contrário de seu companheiro Cazuza, ele vê com muitas reservas a trajetória do Cazuza.

Você vê a possibilidade de se fazer um documentário imparcial?
A imparcialidade é um ideal que se deve buscar. Assim como a Justiça deve ser imparcial, o documentário também deve. Se você não busca a imparcialidade, você cai num julgamento sumário, nas condenações precipitadas que, muitas vezes, são feitas pela mídia televisiva. Pelo tempo de elaboração, em tese, o documentário te dá condições de buscar uma certa imparcialidade, ao mesmo tempo em que ela se mostra relativa. Ao mesmo tempo, um documentário como O Tempo e o Lugar é estabelecido por essa relação com o entrevistado na medida em que a pessoa concorda que você entre na casa dela. É um certo nível de compromisso que põe em xeque o ideal de imparcialidade. É muito diferente de um Michael Moore, por exemplo. Ele não pretende ser imparcial, ele defende uma tese, é um agitador até de boas causas, mas é um panfletário. Ele não tem nenhum problema em colocar o entrevistado numa situação muito constrangedora, na verdade ele busca. Documentários recusam essa possibilidade. Até um filme sobre o mais aberrante dos casos deveria procurar entender aquilo, não que fizesse uma condenação sumária. O documentarista não é o juiz. E o Michael Moore não tem problema nenhum em fazer isso.

Como você avalia o papel do documentário na cinematografia brasileira atual?
Existe uma cultura do documentário que poucos países têm. Ou seja, uma produção interessante, fóruns de debates, festivais e sites especializados, cursos... O que há no Brasil é inegavelmente uma cultura do documentário, o que é muito importante. Há documentários indiscutivelmente interessantes, como os filmes da Guta Ramos (Juízo), Serras da Desordem, Andarilho... Dá pra fazer uma lista muito interessante, inclusive de gêneros e propostas diferentes. Isso sem citar o Eduardo Coutinho, o João Moreira Salles... Essas filmes têm sido pouco vistos no mercado cinematográfico, pois existe uma inadequação entre o circuito exibidor e a produção. A produção norte-americana - ou a que a imita - é divulgada massiçamente no circuito, assim como filme voltados ao entretenimento. O documentário tem outro objetivo, supõe-se um tipo de disposição de quem vai ver completamente diferente. O que resta saber se o documentário no Brasil vai conseguir encontrar seu lugar. Pensou-se que a televisão seria, mas já se demonstrou que a TV é um veículo importante, mas não resolve esta equação. É uma questão em aberto, um problema porque não se pode imaginar se serão produzidos documentários se eles não alcançam um certo patamar de espectadores. A criatividade para se fazer documentários no Brasil é enorme, existe uma quantidade muito grande de pessoas interessadas em produzi-los, principalmente pelo fato de serem filmes de custo menor. Hoje em dia, qualquer pessoa, praticamente, pode fazer documentário. Existe um potencial de criação muito grande. Como essa produção vai se difundir é a questão, talvez pela internet, a longo prazo. Estamos vivendo esse processo de ter documentários que conseguem provocar certo nível de debate. É uma área em torno da qual existe interesse.