Eli Roth (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Seu pai é psicoterapeuta. O que ele pensa sobre O Albergue e seu curioso interesse em sangue?

Ele ama. Diz que é muito saudável. Nós sabemos que filmes de terror são apenas filmes, não é real. Sempre fui uma criança feliz, comportada, mas é natural pensar em coisas ruins, faz parte do ser humano. Eu transferia tudo para os filmes, sempre foi uma maneira de fugir de tudo isso, botar pra fora.


É verdade que o filme foi inspirado em fatos verídicos?

Eu vi um website que um amigo me mostrou há quatro anos. O site dizia que você poderia ir a esse lugar e, por US$ 10 mil, poderia atirar em alguém. A página ainda dizia que essa pessoa em quem você atiraria tinha aceitado tudo isso, assinado um contrato e receberia uma grande quantia de dinheiro, suficiente para alimentar sua família por muitos anos. Esse meu amigo disse que era real. Acredito que as pessoas são realmente capazes de fazerem esse tipo de coisa doentia. Basta pegar seu cartão de crédito e pagar por isso. Fiquei tão aterrorizado, não sei se esse lugar existe, mas sei que existem pessoas capazes de fazer certas atrocidades.


Que tipo de reação você esperava do público quando criou O Albergue?

É uma produção de apenas US$ 4 milhões. Quando estava filmando, não tinha idéia se iria sair apenas em DVD ou se seria lançado nos cinemas. Fizemos uma apresentação e as pessoas ficaram enlouquecidas. Tivemos de chamar duas ambulâncias. Uma pessoa desmaiou e a outra teve um ataque do coração. Nesse momento, vi que conquistei meu objetivo, a certeza de que o filme funcionaria. Ficamos ainda mais chocados quando O Albergue ficou uma semana em primeiro lugar nas bilheterias. Eu não tinha a menor idéia de que isso aconteceria, de jeito algum. Percebi que as pessoas precisam de filmes de terror, de sangue, estão prontas para essa violência. Não querem mais filmes certinhos, seguros. É uma sensação maravilhosa saber que atingimos o topo. Você deve pensar que sou louco por dizer essas coisas, mas é isso que as pessoas querem.


Como foi trabalhar ao lado de Quentin Tarantino?

Foi muito divertido trabalhar com ele, apesar de nunca ter estado no set de filmagens. Quentin me ajudou no roteiro, pois no momento das gravações ele estava filmando um episódio de CSI. Mesmo assim, conversamos bastante sobre o filme, trocamos idéias. Nós nunca planejamos produzir algo juntos. Somos amigos e assistíamos a filmes como todos os amigos fazem, mas realizar um filme não estava em nossos planos. Quentin é a única pessoa que realmente procuro para pedir bons conselhos. Ele ficou tão empolgado com a história do filme que passou a me ajudar sem que eu precisasse pedir por isso. Quentin Tarantino acabou se unindo a nós como produtor, que era o mais apropriado. Éramos como dois amigos se divertindo.


Você é influenciado pelo trabalho de outros diretores?

Sim, muitos. No próprio O Albergue, fui buscar inspiração nos filmes de Takashi Miike.


Como você escolheu o elenco?

Fiz uma audição com atores locais e foi maravilhoso. Eles não falavam o inglês perfeito, tinham sotaque de sua língua e isso era perfeito para O Albergue. Você não tem idéia de quantos talentos locais encontramos. Quero encontrar novos rostos. As pessoas se cansam de ver sempre as mesmas pessoas repetidamente. Eu penso que, num filme de terror, o ator tem de ser assustador e não interessante. Trabalhar com atores locais foi uma experiência grandiosa.


É verdade que você não gosta de sangue? Fica enjoado só de ver?

Eu não gosto. Já meu próprio sangue não me incomoda. Quando criança, fiz um corte na perna e fui logo pegar a câmera para filmar. Mas, realmente, o sangue dos outros me incomoda muito e as pessoas sempre vêm me mostrar por achar que vou adorar. Eles não entendem como posso fazer aqueles filmes e não conseguir ver sangue de verdade. Nos filmes é tudo falso, é efeito especial.


Você pediu desculpas para o presidente da Islândia por ter feito os islandeses parecerem alcoólatras e maníacos por sexo. Por que não fez o mesmo pelos personagens americanos?

Isso foi uma brincadeira, mas aconteceu. Eu não tenho de pedir desculpas para os americanos. As pessoas estão me agradecendo por ser o primeiro diretor a mostrar como os jovens americanos são realmente, como eles falam e agem de verdade. Isso é assustador.


O Albergue é muito diferente de Cabana do Inferno. Por que fez essa mudança?

Eu fiz Cabana do Inferno quando tinha 22 anos. O Albergue, fiz com 32. Não quero repetir o que já fiz. O Albergue realmente me assustou. É uma jornada para o inferno, enquanto Cabana do Inferno foi feito pra divertir.


Então, O Albergue 2 será diferente?

Será diferente, mas não muito por ser uma continuação, é o mesmo universo. Posso começar direto da parte assustadora do filme, sem a introdução de farras que teve o primeiro.


Como está o andamento de O Albergue 2?

Estou escrevendo. Devo começar a filmar em julho.


O que você conhece sobre os filmes brasileiros?

Infelizmente muito pouco. É difícil encontrá-los, não temos muito acesso, nunca sabemos onde procurá-los. Mas agora, por causa do DVD, têm chegado algumas coisas como Central do Brasil. Cidade de Deus é demais. As pessoas me disseram para parar tudo que eu estivesse fazendo e ir assistir a Cidade de Deus. É um filme único. Mas eu espero que isso mude. Existem locações maravilhosas no Brasil, muitas histórias. É tudo muito diferente dos EUA. Dá pra fazer um filme realmente aterrorizante aqui no Brasil.