Entrevista: Brasileira Rebecca da Costa fala de Profissão de Risco

Ex-modelo já atuou ao lado de Val Kilmer, John Cusak e Robert De Niro

24/04/2014 15h02

Por Daniel Reininger

Com sete filmes no currículo, a brasileira Rebecca da Costa é uma estrela em ascensão em Hollywood. No seu trabalho mais recente, Profissão De Risco, interpreta a femme fatale Rivka e atua ao lado de Robert De Niro e John Cusack. A pernambucana falou com o Cineclick sobre o filme que estreia nesta quinta-feira e também sobre a carreira, a qual começou como modelo, mas sem nunca deixar de lado o sonho de atuar.

Quem é Rivka? Quais características você trouxe para o papel?

Passei muito tempo desenvolvendo a personagem. É uma menina muito misteriosa, sensível, alguém que não teve ninguém na vida e aprendeu a sobreviver. Quando você a vê pela primeira vez, pensa que é uma prostituta. E ao conhecer Jack (John Cusack), se deixa levar, pois tem alguém que gosta e cuida dela. Tentei adicionar muitas camadas e aparentar força, mas também vulnerabilidade. Queria que as pessoas vissem quem ela é por trás de sua máscara.

Você tem muita química com John Cusack na tela. Como conseguiram isso?

John é incrível e muito louco, mas um louco bom. Ele é muito criativo. Nossa química tinha de ser genuína, pois temos muitas cenas juntos. Fizemosreuniões e antes de cada cena a gente se encarava por um minuto com o rosto bem pertinho. Quando o diretor falava "rodando", a gente mantinha aquela sensação e intensidade. É muito forte encarar alguém nos olhos. Existe tensão sexual, nada explicito, mas também há aquela dúvida se um vai trair o outro antes do final e isso deixa tudo mais interessante.

Você já trabalhou com Val Kilmer, John Cusak e Robert De Niro. Como foram essas experiências?

Enriquecedoras. Ver de perto a técnica deles foi a melhor escola de atuação que já tive. Com Val Kilmer foi interessante, pois tinha uma paixãozinha de adolescente por ele. Quando fomos gravar - era uma cena externa com fãs por perto e eu estava nervosa por isso - esqueci o texto e fiquei gelada. Então, ele começou a improvisar e passei a acompanhá-lo. A cena ficou incrível e foi usada no filme. Depois dessa experiência aprendi que não posso me deixar levar pelo nervosismo. Com De Niro, que admiro muito, sabia que precisava segurar a onda. Na última cena de Profissão de Risco, ele tem um monologo de sete páginas e eu ficava observando-o. Ele fala baixo, é muito técnico e muito bom. Foi um sonho.

Você se tornou modelo ainda adolescente, mudou de estado, de país, se dedicou ao teatro, foi protagonista muito rapidamente em Hollywood. Como vê sua trajetória?

Realmente me sinto orgulhosa. Mas foi um caminho longo. Saí de casa aos 14 anos, vim para São Paulo e foi um baque grande. Minha mãe falou "você pode ir, mas tem que continuar estudando", então fiz o segundo grau aqui. Venho de família simples e minha mãe me ajudou até eu conseguir me sustentar. Foi difícil também porque era muito tímida e de repente vivia num apartamento com 7 meninas de 14 anos, numa cidade grande, que não conhecia. Aos poucos fui me desinibindo e entendo o business. Aos 16 anos fiz minha primeira viagem internacional para Milão. Parece fácil falando assim, mas tive altos e baixos como todo mundo.

E qual foi o momento decisivo para a sua carreira?

Quando mudei para Los Angeles. Estava em Nova York e já tinha decidido que queria morar na Califórnia. O problema é que tinha um apartamento e precisava alugá-lo para seguir adiante. Lembro claramente de quando estava no Central Park e recebi a ligação de uma pessoa falando "olha, quero alugar seu apartamento". Lembro até da música que estava ouvindo na hora, pois foi o momento quando percebi que tudo ia acontecer. Em Los Angeles as coisas aconteceram muito rápido, em seis meses peguei meu primeiro papel.

Rebecca da Costa


Como foi esse período até entrar na indústria de Hollywood?

A adaptação foi rápida, pois lembra muito o Brasil na praticidade e estilo de vida. A maior dificuldade foi focar no universo da atuação. Entendi muito cedo que para fazer funcionar teria de focar nisso 100%. Peguei uma agência em Los Angeles e continuei trabalhando na área. Ao mesmo tempo peguei um empresário e falei "olha não quero fazer nenhum teste até me sentir preparada". Tenho consciência que toda modelo, em certo ponto da carreira, tenta atuar de alguma forma e as pessoas te taxam como "modelo tentando ser atriz". Não queria isso para mim, afinal sempre soube qual era minha paixão. Logo que mudei fiz seis meses de cursos e precisei bloquear algumas coisas da minha vida, como sair com amigos. Quando me senti preparada fui para o primeiro teste para a série Entourage. Consegui o papel e fiquei super feliz. Continuei tentando e no meu terceiro trabalho já fui protagonista em L.A., I Hate You. Foi muito rápido.

Você sofreu algum preconceito nos EUA por ser brasileira? Qual a maior dificuldade que enfrenta?

Preconceito nenhum, eles adoram brasileiros. O Brasil está em evidência, muitos brasileiros estão em destaque por lá e isso é ótimo. Nosso país tem uma imagem de simpatia e as pessoas abrem as portas para nós. Dificuldade eu sinto todos os dias por ser estrangeira, afinal tem a questão da linguagem. Em Nova York e Miami as pessoas estão familiarizadas, mas agora eu preciso falar o mais claramente possível para uma massa que não está acostumada. Falo inglês bem, mas com sotaque latino e essa é minha briga diária. Não quero ficar presa a esse estereótipo. Se não tiver o sotaque, posso fazer uma menina que nasceu em Minessota, por exemplo.

Você tem 1,80 e é alta até para o padrão das modelos. Isso ajuda ou atrapalha para conseguir papeis? Os atores nem sempre são tão altos...

Ajuda! Verdade, eles não são tão altos. Se você acredita que altura atrapalha, vai atrapalhar. Como não posso fazer nada em relação a isso, uso a meu favor. John Cusack, por exemplo, tem mais de 1,90, então foi tranquilo, mas tem certos truques que podem ser usados e até hoje não tive problema.

Sem contar Profissão de Risco, qual o seu trabalho preferido até hoje?

Acho que o filme que será lançado em agosto em que faço uma brasileira grávida que tem transtorno bipolar e se torna esquizofrênica. Foi um desafio enorme. E eu não queria ser apenas uma atriz dando uma de louca. Queria entender o que acontece na cabeça de alguém que passa por aquilo. Deve ser terrível a mente estar doente. Foi um grande desafio e tenho orgulho de ter conseguido. No último dia de gravação fui para o hotel e só conseguia chorar.

Quais são seus planos para o futuro? Você planeja trabalhar no Brasil?

Adoraria trabalhar no Brasil, nada se compara a interpretar na minha língua. Filme faria com certeza, adoraria trabalhar com Walter Salles e José Padilha. Séries também, a qualidade está melhorando muito. Mas novela é muito complicado, pois demanda muito tempo. O mais importante é que quero continuar me desafiando como atriz. Adoraria fazer comédia, tenho feito muito drama, ação, suspense. Meu foco é viver disso, pois a carreira de atriz é instável e quero continuar a me desafiar sempre.