Entrevista: Marco Dutra fala do suspense Quando Eu Era Vivo

Filme estrelado por Marat Descartes, Antônio Fagundes e Sandy Leah estreia nesta sexta

27/01/2014 01h20

Por Roberto Guerra, enviado especial a Tiradentes

Marco Dutra

Marco Dutra: "Não consigo levar nada a sério demais"

Foto: Leo Lara/Universo Produção

O cineasta Marco Dutra (Trabalhar Cansa) leva às telas neste fim de semana seu segundo longa-metragem, Quando Eu Era Vivo, suspense psicológico com toques de humor. A tensão que cerca uma estreia diminuiu um pouco depois da boa acolhida que o filme teve em sua primeira exibição pública, ocorrida na última sexta-feira (24) durante a abertura da 17ª edição da Mostra Tiradentes de Cinema. O diretor conversou com o Cineclick na cidade histórica mineira e contou detalhes da produção.

O que fez você tomar a decisão de levar o livro A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, de Lourenço Mutarelli, para as telas de cinema? Qual foi sua identificação com a história?
Muitas coisas me chamaram a atenção no livro. Eu fiquei muito impactado. Li o livro em dois dias. Mas o definidor foi olhar para esse laço misterioso e profundamente alegórico que é a relação de um pai e um filho. Como tema isso me marcou profundamente. E o livro tem um olhar sombrio com o qual me identifico. Eu tenho uma relação muito boa com meu pai, mas no fundo sempre tem água revolta, uma tensão. Isso é uma coisa do ser, da civilização como ela é. Achei que esse era assunto pra mim e que tinha de fazer um filme.

Você tomou certas liberdades na adaptação, como foi a recepção do autor?
Foi um processo forte. Eu a Gabriela [Gabriela Amaral Almeida, coroteirista] fizemos uma análise do livro detalhada, cuidadosa, minuciosa. Havia muito coisa que era essencialmente literal, que não funcionaria num filme. Então tive que chegar àquela essência e fazer as mudanças necessárias. Óbvio que tive cuidado e estava muito preocupado com o que o Mutarelli iria falar quando mandei o roteiro para ele. E a resposta dele foi fenomenal. Ele adorou o roteiro, elogiou bastante. Disse que não sentiu tanta diferença, a essência estava lá. Esse processo me ensinou muito sobre adaptação.

Bruna, personagem vivida por Sandy, originalmente era uma artista plástica. Porque resolveu transformá-la em estudante de música no longa?
Tem coisas que são pessoais, como o fato de a música ser um assunto que domino. Mas a verdade mesmo é que achei que a Bruna como artista plástica fazia sentido no livro e não no filme. Para mim não era excitante filmá-la desenhando. Então achei que se a Bruna entrasse para a trama por conta dessa via seria melhor. A transformei em estudante de música sem mudar a essência da personalidade descrita no livro. E funcionou muito bem, fluiu no roteiro.

E como chegaram ao nome da Sandy?
Foi a partir daí dessa decisão que se criou a necessidade de que a atriz que fosse fazer a Bruna cantasse. E foi numa dessas conversas em que buscávamos nomes que surgiu a Sandy. A gente não sabia se ela ia aceitar, mandamos o roteiro e ela adorou. Dois dias depois nos ligou e marcamos um encontro. Tivemos uma reunião ótima. Ela começou a falar da Bruna como se conhecesse a personagem há três meses e tinha lido o roteiro na noite anterior. Parecia já estar dentro do projeto e a gente ainda não tinha falado de dinheiro, de cronograma de filmagem, de nada. Foi difícil porque ela tem uma agenda apertada, mas fez um esforço grande para encaixar ensaios e filmagens e deu tudo certo.

Podemos dizer que Quando Eu Era Vivo é um típico suspense no qual a tensão vai crescendo até um desfecho impactante. No entanto, o que o diferencia é o uso pontual do humor. Por que esta opção?
Eu tenho senso de humor, apesar de não ser uma pessoa engraçada. Essa é um de minhas frustrações. Gostaria de fazer as pessoas rirem, mas não consigo. Mas apesar de eu não ser um comediante, um humorista, pra mim é difícil levar as coisas a sério demais. O mundo já é bizarro demais, complicado demais. Eu sei que soa como filosofia barata, mas acho tão louco sabermos tão pouco sobre a gente, sobre nossos pensamentos, sobre nossa existência, sobre tudo que nos cerca. O acesso que a gente tem a uma suposta verdade das coisas é tão fugidio. Por isso não consigo levar nada a sério demais. Alguma leveza tem que ter. Em Quando Eu Era Vivo esse humor foi natural, ele veio naturalmente pra mim.