Entrevista: Paulo Sacramento fala de Riocorrente

Filme faz sua última participação em festivais no Olhar de Cinema e chega às telas nesta quinta-feira

04/06/2014 05h35

Por Roberto Guerra, de Curitiba (PR)

Paulo Sacramento

Paulo Sacramento: "Fracasso pra mim é o filme passar em brancas nuvens"

O cineasta Paulo Sacramento apresentou Riocorrente, seu primeiro longa de ficção, na noite desta terça-feira (3) dentro da programação do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba. A produção é uma crônica visual ambientada numa São Paulo opressora, pano de fundo para a história de três personagens tipicamente urbanos: um jornalista, uma mulher misteriosa e um ladrão de carros que formam um triângulo amoroso. O diretor, que antes havia dirigido o premiado documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003), conversou com a reportagem do Cineclick sobre o filme.

Riocorrente é um filme urbano até a medula, que mostra uma São Paulo sufocante e suas vítimas. Sua relação com a cidade serviu de base para a história?
Tem um pouco de meu sentimento em relação à metrópole. Às vezes de fascínio, às vezes de medo, às vezes de repulsa. A cidade colocada no filme é excessivamente opressora. São Paulo é uma cidade que me instiga: às vezes tenho ódio, às vezes quero voltar para os braços dela. O filme é uma hipérbole, claro. Ele tem um exagero, ela pesa a mão para que a gente consiga enxergar coisas que não vemos mais, ignoramos. Nossa tendência é ir se acostumando. O ser humano se acostuma com tudo.

O filme foi exibido em diversos festivais antes da estreia. Como o público tem reagido?
Esse filme é esquisitíssimo, cheio de arestas. Por isso a identificação e a rejeição são muito fáceis. É um filme que facilita para quem quer ter uma leitura unívoca. As pessoas ficam muito divididas. Vi reações de paixão absoluta e de ódio absoluto. Isso é normal. É cinema de confronto, não foi feito para agradar todo mundo. Também não foi feito para desagradar. Por isso encaro com a maior naturalidade tanto elogios quanto críticas. Pra mim fracasso não é trabalhar vários anos num filme e ser vaiado. Fracasso pra mim é o filme passar em brancas nuvens, que as pessoas saiam da sala indiferentes.

Riocorrente

Riocorrente: personagens urbanos em metrópole opressora

Você abriu o roteiro de Riocorrente a sugestões de amigos, mas acabou filmando a ideia original. Seu perfil de realizador é mais participativo ou controlador?
As duas coisas. Eu sou controlador, me apego a algumas ideias que são pétreas pra mim. Mas quando a gente vai fazer um filme precisa de colaboração. Precisa de outros talentos. Se tenho um fotógrafo como o Aloysio Raulino, isso é uma maravilha. Uma pessoa com aquela inteligência, com aquela cultura, que vai entender você e é generoso porque não vai querer fazer o filme dele, vai querer fazer o seu. Sou ciumento sim de minhas ideias, mas aceito sugestões de pessoas que queiram viajar comigo no meu projeto.

E qual será seu próximo projeto?
O filme se chama O Olho e a Faca e vai buscar um público maior. É um longa com dificuldade de produção muito grande. Um terço dele é filmado numa plataforma de petróleo, então vai ser caro. Naturalmente as pessoas esperam que um filme mais caro seja mais aberto ao público e isso não me incomoda. Uma coisa que vejo mal resolvida e que vou tentar conciliar neste filme é esse cinema mais experimental, sofisticado digamos assim, com o cinema popular. De uma maneira que a gente não desagrade ambos os públicos. Acho ousado, acho que posso quebrar a cara, mas quero arriscar. O filme começa a ser rodado ou agora em novembro ou em março de 2015.

O Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba segue até o dia 5 de junho, quando serão conhecidos os vencedores desta edição. Riocorrente ganha ainda outra exibição nesta quarta-feira (4), às 20h15, na Cinemateca.

*Leia também: Crítica de Riocorrente.

Serviço: OLHAR DE CINEMA – FESTIVAL INTERNACIONAL DE CURITIBA
Quando: 28 de maio a 5 de junho de 2014
Quanto: R$ 5 e R$ 2,50 (meia)
Onde: Espaço Itaú de Cinema (Shopping Crystal - Rua Comendador Araújo, 731 – Batel); Cinemateca (Rua Carlos Cavalcanti, 1174 – São Francisco)

*Os ingressos podem ser comprados antecipadamente no local de exibição dos filmes. Cada pessoa pode adquirir três ingressos por sessão.
**Informações sobre a programação no site: olhardecinema.com.br