Entrevista: Quem são as novas heroínas e vilãs dos contos de fadas?

Especialista em contos de fada, Katia Canton avalia as transformações na estrutura das histórias da nossa infância

30/05/2014 15h44

Por Ana Carolina Addario

Crescer assistindo aos contos de fadas da Disney, durante muito tempo, significou ter visões bastante maniqueístas sobre as histórias fantásticas da infância. Com pontos entre e mal e bem claramente definidos, nunca restou dúvida sobre que personagem defender e aqueles que deveríamos odiar instintivamente. Era mais simples escolher um lado.

Com o lançamento de Malévola, que chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 29, o traço ancestral dos contos de fadas parece ter mudado de vez sua maneira de enxergar as histórias. Por que não dar a oportunidade de uma vilã, como a que sempre perseguiu a frágil Bela Adormecida no conto, a explicar sua trajetória? E mais: que papo é esse de que ela só sabe ser má?

Segundo Katia Canton, curadora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo e especialista em contos de fadas, a mudança é fruto da transformação na maneira do próprio público se enxergar socialmente. Assim, surgem heroínas mais fortes e vilãs não necessariamente más. Ou pelo menos não só isso.

Descubra na entrevista abaixo porque os contos de fadas mudaram tanto nos últimos anos.

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- Contos de fadas são quase obras abertas, com adaptações constantes ao longo do tempo. A que se pode atribuir essas mudanças?

Os contos de fadas não só podem como devem ser reescritos diversas vezes ao longo dos tempos, contanto que sejam mantidas algumas essências das histórias. O que acontece é que a partir de 1939, a Disney eternizou um determinado jeito de contá-las e influenciou diversas gerações com as versões que escolheu. Mas elas refletem um contexto histórico muito ligado ao desenvolvimento norte-americano, por isso são tão carregadas de uma ideologia paternalista e ligadas ao american way of life.

- Como exatamente essas ideologias influenciaram as versões que conhecemos dos contos de fadas?

Em A Bela Adormecida, a Disney escolheu a versão dos Irmãos Grimm (XIX) para a história. A original de Charles Perrault, do século XVII, tem traços mais medievais e não tem nem o beijo do príncipe. Ela, na verdade, foi inspirada nas Grandes Cruzadas. Existiam histórias que contavam que os homens daquela época, ao retornarem para suas terras após anos viajando e sem estar com uma mulher, tinham relações sexuais com camponesas enquanto elas dormiam. E assim nasceu o conto da Bela Adormecida, que é 'acordada' para a vida com o beijo do homem.

"Temos uma mudança daquele perfil passivo da princesa para uma mulher com mais força"

Malévola


- Qual a importância das vilãs para os contos de fadas?

As vilãs fazem parte da realidade da vida humana. Elas são representações simbólicas de pessoas normais, que cometem atos de bondade e maldade. Ninguém é inteiramente bom. Elas são simbolizações de fatos que aconteciam e continuam acontecendo. Desde os anos 90 vivemos uma era do politicamente correto, que se esforça para amenizar os elementos do mal. 

- As mocinhas dos novos contos mudaram muito nos últimos anos: estão mais independentes e não buscam necessariamente um príncipe encantado. Essas adaptações refletem a mudança na visão de mundo dos espectadores?

Tem toda uma leva de filmes abordando contos de fadas no sentido de repotencializar a heroína. Nas que a gente conhece, elas são passivas e delicadas, dependem do homem para acordá-las, fazê-las felizes. Em A Branca de Neve e o Caçador, por exemplo, temos uma mudança daquele perfil passivo da princesa para uma mulher com mais força, habilidades de combate.

- Nos contos tradicionais, as vilãs e mocinhas são apresentadas como pessoas essencialmente más ou boas. Que motivos levaram a indústria a criar personagens menos maniqueístas do que os tradicionais?

Nossa maneira de enxergar o mundo, e até a educação, mudaram muito desde as antigas versões da Disney. Hoje, se relativiza muito mais o bem e o mal, é um ponto de vista mais comum na sociedade atual. Seria impossível manter a estrutura exatamente igual a das antigas princesas em um mundo em que a mulher não é mais vista com essa posição de passividade, por exemplo.

" As mulheres não precisam mais do beijo do príncipe para despertar"

Malévola

- As heroínas, inclusive, então mais fortes do que nunca nesse universo. Além de Malévola, filmes como Frozen e Valente sustentam uma ideia até um pouco feminista sobre as mulheres não precisarem mais do príncipe para serem salvas. Será que os contos estão tentando se comunicar com essa nova mulher?

Sim. Mesmo na sua origem, os contos de fadas tinham uma finalidade de comunicação com as mulheres, sempre adequadas de acordo com seu contexto histórico. Era uma espécie de cartilha de comportamento para as mulheres e as crianças. Durante muitos séculos, a mulher permaneceu com o stauts da fragilidade e da dependência masculina, mas continuar sustentando esse modelo atualmente seria um engano. Por isso as histórias de hoje colocam, inclusive, o príncipe em um plano muito menor do que antes. As mulheres não precisam mais do beijo do príncipe para despertar.

- Neste filme, Malévola é uma vilã circunstancial, que 'se tornou má' por ter sido decepcionada na vida. Qual a importância de mostrar profundidade desse tipo de personagem?

Vivemos em uma sociedade mais interessada em entender as razões do inconsciente que nos levam a ser e a nos transformar no que somos, é uma característica da vida pós-psicanálise. Para se comunicar com esse novo público que se estuda para entender a origem da própria personalidade, foi necessário criar personagens que revelassem a trajetória até o ponto em que ela vive ou narra a história.