Entrevista: Rodrigo Santoro prova ser um dos grandes atores de seu tempo com o longa Heleno

Rodrigo Santoro fala de Heleno, que estreia na sexta-feira, 30 de março.

26/03/2012 22h08

Por Roberto Guerra

Foto: Marcelo Marques

Rodrigo Santoro: dedicação rende seu melhor trabalho nas telas

Rodrigo Santoro bem que poderia ter se acomodado na posição de galã da Globo. Certamente papéis de protagonista não lhe faltariam. Se repetir em personagens televisivos, no entanto,  não é a praia do ator, que vem construindo uma carreira no cinema marcada pela diversidade. Foi o garoto internado numa instituição para doentes mentais em Bicho de Sete Cabeças, o travesti Lady Di, de Carandiru, e o rei persa Xerxes, da supreprodução 300. Nesta sexta (30/3), volta às telas nacionais em mais um papel diverso, talvez o mais importante de sua carreira: o jogador Heleno de Freitas, ídolo do Botafogo da década de 40.

“Ele é um personagem muito atraente, com uma trajetória incrível e controversa. É parte da história do país, de um esporte que nós gostamos tanto. Isso me atraiu na hora”, revela o ator que esteve envolvido com o projeto Heleno durante cinco anos. Durante esse tempo, Santoro colheu depoimentos, ouviu histórias, leu recorte de jornal da época e perdeu 12Kg para interpretar a fase terminal do jogador, que morreu vítima de sífilis aos 39 anos.

Seguidor assumido da linha "90% transpiração, 10% inspiração", Santoro foi atrás do ex-jogador Cláudio Adão para parecer um craque real em cena. “Conversei com uns amigos boleiros e eles me indicaram o Cláudio, que tinha características semelhantes a Heleno, a matada com elegância no peito e as cabeçadas. Passei quatro meses treinando fundamento, correndo entre cones, batendo falta”.

Advogado de formação, oriundo de família rica, viciado em éter e muito vaidoso, Heleno de Freitas era dono de um temperamento explosivo, o que lhe rendeu o apelido de Gilda (referência a intempestiva personagem de Rita Hayworth no longa de 1946). Jogou pelo Botafogo, o time que amava, mas só levantou a taça de campeão brasileiro pelo Vasco – por coincidência, time de Rodrigo. “Heleno causou efeito em todos que o conheceram. Para o bem ou para o mal, por amor ou por ódio, ninguém ficava indiferente a ele, até hoje todo mundo fala dele de maneira apaixonada. Era exatamente o que Heleno queria”, diz Santoro.

Foto: Divulgação

Heleno: perfeccionista e temperamental

Ator e produtor

Desta vez, a dedicação típica de Santoro à composição de seus personagens se estendeu à produção do longa. Ele, pela primeira vez, participou como coprodutor do filme (ao lado do diretor José Henrique Fonseca), o que o colocou na linha de frente para captação de recursos - o custo total do filme foi de R$ 8,5 milhões. “Nosso modelo de financiamento foi na raça. Passei um ano tentando conseguir uma reunião com o Eike Batista, apresentando o filme a diretores de marketing até conseguir fechar com ele, aos 45 do segundo tempo, quando já não sabia mais para onde ir”, revela Santoro.

O ator não conhecia a história de Heleno de Freitas antes de me envolver com o projeto. "Meu avô ficou emocionado ao saber que eu ia fazer o filme. Disse que ele jogava muita bola, mas gostava de confusão”, conta. Perfeccionista, Heleno exigia dos outros – seu treinador e companheiros de clube – o mesmo nível de superação que apresentava entre as quatro linhas. “Ele arrancava o máximo de si mesmo e não entendia como os outros a seu redor não tinha a mesma atitude”. Esse inconformismo e suas explosões custaram ao craque brigas, expulsões de campo, inimizades e, por fim, o declínio da carreira.

Em preto e branco, Heleno conta a história do jogador de futebol do Botafogo e da seleção brasileira do auge de sua carreira, nos anos 40, ao fim da década de 1950, quando morre em um sanatório. Boa pinta e elegante fora dos campos - e um craque explosivo dentro deles -,o mineiro de São João Nepomuceno tinha certeza de que seria o maior craque brasileiro de todos os tempos. A saúde e o temperamento, no entanto, mudaram o rumo de sua vida.

Rodrigo Santoro tem temperamento diametralmente oposto ao personagem que tão bem leva às telas. Reservado e discreto, fala com entusiasmo de seu trabalho e solta-se quando nota que a entrevista não vai invadir sua vida pessoal. “Não tenho ambição de conquistar as coisas rápido, de alcançar o resultado de imediato. Sou concentrado no que estou vivendo, no caminho”. Pelo que se vê em Heleno, o empenho e dedicação do ator o estão conduzindo pela trilha certa.

Foto: Divulgação

Ídolo do Botafogo sonhou em ser o melhor do mundo e morreu esquecido