Entrevistamos Michael Mayer, premiado diretor de Além da Fronteira

Filme mostra conturbado romance homossexual entre israelense e palestino

03/12/2013 22h20

Por Roberto Guerra

O cineasta israelense Michael Mayer veio ao Brasil apresentar Além da Fronteira, seu primeiro longa-metragem. O filme estreia no país dia 13, depois de exibido e premiado em festivais ao redor do mundo, como os de Toronto, Haifa e Chicago. Mayer mora nos Estados Unidos desde 1995, onde foi estudar cinema. Ele conversou com o Cineclick sobre o longa, que narra o romance homossexual entre dois jovens: o estudante palestino Nimer e o advogado israelense Roy. A difícil relação do casal tem como pano de fundo o conflito entre israelenses e palestinos.

Além da Fronteira toca em grandes temas espinhosos, como política, religião, sexualidade, diferença de classes. Porque resolveu se arriscar logo em seu primeiro longa-metragem?
Há alguns anos estava jantando com um amigo que era voluntário no Centro LGBT de Tel Aviv. Ele me falou sobre o apoio que ofereceu a palestinos gays e fiquei imediatamente intrigado. A ideia de mulheres e homens de ambos os lados do conflito israelense-palestino colaborando e ajudando uns aos outros, não a partir de uma agenda política concreta, mas sim de uma orientação sexual comum, me fascinou. Comecei a pesquisar o assunto e passei meses em Israel familiarizando-me com pessoas de ambos os lados do conflito e com as comunidades gays, tanto da Palestina como de Israel. Quanto mais pesquisava, mais sentia que queria contar essa história. Até que finalmente me sentei com meu amigo e co-escritor Yael Shafrir para escrever o roteiro de Além da Fronteira.

Quais foram as maiores dificuldades que enfrentou durante as gravações?
Acho que a resposta para isso é um pouco chata. O maior desafio em fazer Além da Fronteira foi a falta de dinheiro para a produção. Infelizmente, acho que esta é uma verdade para muitos filmes independentes nos dias de hoje.

Como escolheu os atores principais? Teve dificuldades de encontrar profissionais dispostos a interpretar esses personagens?
Os dois atores principais deste projeto são de lados opostos do espectro da atuação. Michael Aloni, que interpreta o personagem de Roy, é um ator famoso em Israel, que já atuou em muitos filmes e programas de TV. Ele apareceu para a audição com tanta pesquisa e tantas ideias para o personagem que a decisão de dar a ele o papel foi a parte fácil. A história com o personagem Nimer foi diferente. Já tínhamos dois candidatos ao papel e estávamos testando a química deles com Michael. Daí o Nicholas chegou à nós, sem experiência de atuação nenhuma, mas porque sua namorada o recomendou. Nós fizemos alguns teste e detectamos de imediato seu talento. Quando atuou com Michael foi ainda melhor, a química era palpável.

Como foi a preparação deles para o papel? Como conseguiu toda aquela interação e naturalidade na tela?
Não há nenhum grande segredo aqui, exceto que passamos muito tempo ensaiando. O maior desafio foi preparar Nicholas, que nunca havia atuado ou estudado interpretação. O que realmente ajudou foi sua história de vida. Nicholas cresceu em uma casa binacional (árabe / italiano) e foi o único estudante árabe em uma escola totalmente judaica. Ele cresceu em meio à pluralidade de identidades nacionais. Então, quando nós estávamos trabalhando o caráter de Nimer, Nicholas foi capaz de tirar a vivência de seu personagem de sua experiência pessoal, o que compensou sua falta de experiência como ator.

Além da Fronteira

Além da Fronteira: história baseada em apanhado de casos reais


A história de Além da Fronteira é baseada num caso real?
O filme é baseado em meses de pesquisas feitas por mim e Yael Shafrir, mas a história final e os personagens são fictícios. Os eventos que você vê no filme são baseados em fatos reais, mas não aconteceram necessariamente com as mesmas pessoas ou na mesma época.

O filme também toca em questões de imigração e as consequências reais de deportar pessoas gays para países onde não são aceitos. Isso ocorre comumente em Israel?
Eu não diria que é comum, mas acontece. Em 2006 a BBC estimava que existam de 300 a 350 palestinos gays escondidos em Israel ilegalmente. Alguns conseguiram trabalhos temporários ou ordens judiciais para ficar, mas outros foram apanhados e enviados de volta.

Qual foi a reação do público israelense e palestino ao filme?
As reações em sua maioria foram positivas. Nossa estreia israelense foi no Festival Internacional de Cinema de Haifa, de onde o filme saiu vencedor. Depois disso, Além da Fronteira estreou em diversos cinemas israelenses. Atualmente não há salas de cinema em Ramallah e, tanto quanto sei, não houve lançamento oficial na Palestina. Mas nosso distribuidor tem estado em contato com grupos de estudantes palestinos para exibir o filme nos campi universitários de lá.