Eryk Rocha (Transeunte)

08/08/2011 13h18

Por Heitor Augusto, enviado especial a Brasília

No Festival de Brasília para apresentar seu primeiro longa-metragem de fição, Eryk Rocha, ao lado de sua equipe, conversou com a imprensa e com o público sobre Transeunte, filme sobre Expedito (Fernando Bezerra), um senhor que está desconectado de si mesmo e do mundo. Uma história sobre o isolamento filmada em preto e branco e registrando as transformações de um personagem e de uma cidade, Rio de Janeiro.

Melhor Ator no Festival de Brasília e Melhor Filme (Prêmio de Público) no Festival Latinoamericano, Transeunte estreia nesta sexta-feira (12/8). Confira parte da conversa com o diretor Eryk Rocha:

O preto e branco é uma opção?
Eryk Rocha: O p&b me possibilita brincar com o passado e o presente, misturar o que foi e o contemporâneo.

Por que o rádio é algo tão importante em Transeunte?
O rádio permeia todo meu trabalho, até mesmo no curta Quimera. Desde moleque, tenho uma relação forte com o rádio. Quando morei na Colômbia, só conseguia dormir colocando o radinho com som baixo, era quase como um mantra. Acho que alguém tem que fazer um filme sobre isso, o rádio no Brasil, mas radicalizar mesmo a ideia.

Já estava no início do projeto construir a relação do personagem com o mundo sempre por meio do som?
Desde o roteiro, o Edson Secco, desenhista de som, estava envolvido. O rádio que Expedito escuta era o elemento narrativo de Transeunte [clique aqui para entender a função do som] A partir daí, com o Edson, começamos dois movimentos. Várias das noticias que estavam indicadas no roteiro eram coisas que a gente ouvia e integrava no roteiro. Gravamos essas coisas antes mesmo das filmagens, fazendo um arquivo, um banco de dados com as pesquisas radiofônicas.

Manoela Dias, roteirista: O som foi muito pensado no roteiro, teve um período que paramos na hora de escrever e ficamos pensando só no roteiro.

Edson Secco, desenhista de som: Passei meses pesquisando rádios, gravando programas, entendendo estruturas e histórias, aquele universo.

Érik Rocha: Foi uma mistura: por um lado, um elemento muito ficcional, porque o som está integrando na dramaturgia, e ao mesmo tempo, um elemento documental de coisas que descobrimos na hora.



Alguma razão para filmar no centro do Rio de Janeiro?
Porque no centro as coisas se misturam, os tempos coexistem. A obra na frente na casa de Expedito é metáfora disso, pois aquela região que ele caminha é uma região da cidade que quase não existem mais. Interessava isso, a transformação do lugar e do homem. Para onde que vai?

Seu personagem é um senhor que se distancia da vida...
Qualquer pessoa pensa sobre a morte. E eu também tive perdas grandes na minha vida, do avô e pai [Glauber Rocha]. Então, a gente cria uma conexão inconsciente, até de corpo, muito forte. O personagem poderia até ser um adolescente, mas é um senhor... não sei responder a essa questão.

A questão do isolamento esteve na essência do seu filme?
O Expedito é um personagem que está presente em qualquer metrópole da América Latina. Tem senhores, velhos assim, que não tem ninguém, nenhuma pessoa. Como vão saber que um homem desses passou pelo mundo? Ele não tem família, filhos, mulher... como vão comprovar a passagem dele pelo mundo? Isso me fascinava. O cinema é uma forma de dizer que esse homem passou, materializar a memória, é a prova, o rastro disso.

*Heitor Augusto viajou a convite da organização do evento.