Evaldo Mocarzel (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Evaldo Mocarzel é um dos mais importantes representantes do cinema documental brasileiro da atualidade. Carioca, formou-se em cinema, mas exerceu a função de jornalista do jornal O Estado de S. Paulo, editando o caderno cultural da publicação. Mocarzel também estudou cinema na New York Film Academy e estreou na direção com o curta-metragem Retratos no Parque (1999). Seu primeiro longa-metragem, À Margem da Imagem, é de 2003 e aborda a vida de moradores de rua em São Paulo. No ano seguinte, lançou Mensageiras da Luz - Parteiras da Amazônia. Nesta produção, Mocarzel filmou o parto de seu filho. Em Do Luto à Luta, abordou a inclusão social dos portadores de Síndrome de Down a partir do exemplo de sua filha, portadora da alteração genética. Sobre este seu documentário, premiado em diversos festivais nacionais, o cineasta conversou por e-mail com o CIneclick. Confira:

Texto: Angélica Bito
Fotos: Aline Arruda

Do Luto à Luta foi o grande vencedor do Cine PE em 2005 e entra somente agora em circuito. Por que tamanha demora para a estréia?
Em primeiro lugar, depois do Cine PE, em Recife, o filme passou nos Festivais de Belém, de Gramado, do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, entre outras mostras, nos quais recebeu prêmios e foi visto por muita gente em diferentes regiões brasileiras. Depois disso, inscrevemos o filme no edital da Petrobras de comercialização e ganhamos verba para preparar o lançamento. Preferimos lançar com a novela no ar logicamente porque o assunto está muito mais vivo agora na cabeça das pessoas com a influência da televisão, que está ajudando a semear uma nova visão sobre a Síndrome de Down. Esse sempre foi o objetivo do filme. Eu o fiz com dois objetivos: ajudar pais e mães a superar uma possível rejeição inicial ao bebê com Down (que, para mim, é o grande problema, pois o preconceito começa dentro de casa e, quando não aceitamos e amamos um filho especial, acabamos não fazendo com que ele seja estimulado como precisa e isso é para mim o grande problema!) e também mostrar pessoas com Down namorando, casando, trabalhando, surfando, andando a cavalo, até mesmo dirigindo uma cena de ficção com atores dentro do próprio documentário, promovendo assim uma espécie de inclusão lúdica dentro do filme. Trabalhei o filme em três níveis: o circuito institucional (para o qual foram distribuídas de graça mais de cinco mil cópias do filme: universidade, centro de reabilitação, escolas públicas e privadas, hospitais, maternidades, Apaes, psicólogos, professores de educação física, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e logicamente pais, mães e famílias com relação direta com a Síndrome de Down), o circuito de festivais (para levar o filme nas mais distantes regiões do país, além de atingir os formadores de opinião que cobrem, freqüentam e escrevem sobre os filmes dessas mostras) e agora o circuito das salas de exibição comercial.

O fato da Síndrome de Down ser um dos principais temas da principal novela da Rede Globo atualmente ajudou para que a produção entrasse em cartaz, por mais que tenha uma carreira de sucesso em festivais brasileiros?
Após a repercussão de Do Luto à Luta em Recife, Manoel Carlos, autor da novela Páginas da Vida, me pediu uma cópia do documentário. Depois, quis comprar um determinado número de cópias para distribuir entre os pesquisadores e, depois, entre os atores que estão hoje fazendo a novela. Dei as cópias de graça porque estava na época distribuindo as cinco mil cópias antes mencionadas e também porque sabia que uma novela pode ajudar a atingir o objetivo do meu filme, como já disse, que é semear um novo olhar sobre a Síndrome de Down no Brasil. O documentário ajudou, com toda certeza, a preparação da novela e acho que agora a repercussão da novela tende a ajudar a carreira do filme no circuito comercial.

Você tem uma ampla experiência profissional jornalística, mas há muito de sua vida pessoal em seus documentários. Como separar a visão de jornalista (pretensamente objetiva) à de pai, neste caso?
Na verdade, eu me formei em Cinema na Universidade Federal Fluminense e depois fiz muitas cadeiras de jornalismo, mas a minha primeira opção sempre foi Cinema. Migrei para o jornalismo depois que acabaram com a Embrafilme e resgatei esse sonho e essa vontade de fazer cinema recentemente, também graças à experiência que adquiri no jornalismo, que é uma bela escola de vida. Todo documentário é um recorte do mundo, um recorte tendencioso do tema que estamos focalizando. Acho que, na verdade, é um atrito entre o olhar tendencioso do realizador e o imponderável do próprio tema que é fugidio, que jamais vai caber num filme, que sempre será um recorte, um fragmento. Mas procuro me colocar muito nos meus filmes tentando desnudar todo o processo de manipulação que acontece nos bastidores. No caso de Do Luto à Luta, especificamente, eu tinha mesmo que me colocar, pois, como disse o meu amigo Ugo Giorgetti, nesse filme não fui eu que escolhi o tema, mas o tema que me escolheu. Seria uma tremenda falsidade ideológica se eu fizesse um documentário sobre Síndrome de Down sem assumir que eu tenho uma filha com Down de sete anos.

Do Luto à Luta mostra como acontece a inclusão social dos portadores da Síndrome de Down. Você nota alguma mudança nesse cenário após este filme? O que você espera neste sentido?
Acho que a inclusão é uma das palavras de ordem do mundo em que vivemos, mas muita coisa ainda precisa ser feita e novas mentalidades precisam ser inauguradas para que possamos ter, de verdade, uma inclusão ampla, geral e irrestrita. Mas estamos caminhando nessa direção, com toda certeza!

Como você reagiu quando ficou sabendo que sua filha é portadora da Síndrome de Down?
No início, meu mundo desabou. Passei por um processo de rejeição não a minha filha, mas a uma situação de dor que subitamente invadiu a minha vida. Não tinha nenhuma informação sobre aquele assunto e criei um monstro que não existia. Acho que a discriminação começa dentro de casa e a grande vilã no campo dos preconceitos é a falta de informação. O mundo tem fome de informação humanizada sobre os mais diferentes assuntos e Do Luto à Luta também foi feito para ajudar a suprir um pouco essa carência no que diz respeito à Síndrome de Down.

Em qual momento nessa relação familiar nasceu a idéia de produzir Do Luto à Luta?
Quando Joana nasceu, senti logo vontade de fazer um filme para exorcizar aquela dor, ou melhor, para universalizar aquela dor e ajudar pais e mães a não passar tudo que estava sofrendo por causa da mais absoluta falta de informação sobre Síndrome de Down.

Quais foram as maiores dificuldades na produção de Do Luto à Luta? Quanto tempo demorou para o documentário ficar pronto, desde sua idealização até o final?
As maiores dificuldades na produção do filme foram falta de verba para a produção. Do Luto à Luta nasceu como um curta-metragem para o Programa de Assistência e Tratamento a Pessoas Especiais (PATE), da Petrobras, mas eu batalhei muito para finalizar um longa em 35 mm com som dolby digital. Coloquei dinheiro do bolso para finalizar o filme e contei com um apoio imenso dos Estúdios Mega e Mega Color, que viram a relevância do filme e nos deram um desconto muito grande em todo o processo de finalização.

Do Luto à Luta percorreu diversos festivais brasileiros. Nas exibições, o que você observou de mais interessante em relação à reação dos espectadores?
O filme ganhou alguns prêmios de público e acho que isso se deve ao fato de que os espectadores, de um modo geral, talvez por um preconceito inconsciente, não imagina que uma pessoa com Down possa transcender e questionar tudo que todos nós, ditos "normais", questionamos: o amor, a morte, a vida, Deus, etc. Acho que o filme é muito revelador nesse sentido e talvez por isso tenha conquistado prêmios em mostras como o Cine PE e no Festival do Rio.

O documentário influenciou para que Joana fizesse parte do elenco da novela? Como aconteceu essa seleção?
Depois de terem visto o filme, ligaram para a minha mulher Letícia e nos pediram que Joana fizesse um teste para a novela Páginas da Vida. Relutei um pouco não tanto pela exposição (o Fantástico já tinha exibido cinco minutos do documentário, fui entrevistado por Glória Perez dentro da novela América, diversas outras emissoras fizeram muitas reportagens sobre o filme), mas muito mais por questões operacionais, pois moro em São Paulo e a novela é gravada no Rio. Todos os profissionais que já cuidaram da Joana acharam que seria um bom estímulo para ela. Minha mulher tinha medo de negar essa oportunidade para ela e, quando crescesse, se soubesse, poderia ficar ressentida conosco por isso. Antes de assinar o contrato, pedi a minha mulher que fosse com a Joana no Projac (estúdios onde são gravados pros programas da Rede Globo no Rio de Janeiro) para conhecer o diretor Jaime Monjardim e a atriz Regina Duarte, entre outros. Joana foi lá, fez amizade e voltou para São Paulo dizendo que ia fazer a novela. Ela tem gostado muito das gravações e tudo tem sido um ótimo estímulo.

Você já pensa no tema do próximo documentário? Qual seria?
Depois de Do Luto à Luta, fiz À Margem do Concreto, sobre os sem-teto e os movimentos de moradia em São Paulo, e estou finalizando Jardim Ângela, sobre a periferia de São Paulo a partir de uma oficina de cinema ministrada pela Associação Cultural Kinoforum no bairro que dá nome ao filme.