Felipe Camargo (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O que te levou a fazer o teste para Jogo Subterrâneo?
Fiquei atraído pela complexidade do personagem. Quando comecei a ler o roteiro, logo fiquei fascinado pelo Martín, aquele cara seguindo as pessoas, porque não se explica logo no começo o que ele quer. Fiquei intrigado, pensando "será que ele é um psicopata?". Aos poucos ele vai se revelando um ser humano tão bacana, tão bonito. O Martín tem um lado que todo homem tem. O filme fala muito dessa questão do "gostar" - não sei se do feminino também, mas com certeza do lado masculino, com o qual me identifiquei muito no sentido de estarmos sempre idealizando uma figura na nossa cabeça em relação ao ser amado. Esse jogo que ele faz é uma metáfora do gostar, da idealização de uma pessoa, ficar seguro nisso e, de repente, topar com alguém real, com seus defeitos e qualidades. Para poder viver isso é necessário lidar com os defeitos também, não somente com as qualidades tão idealizadas. Isso me atraiu muito no filme. Também a relação dele com o piano, a música. Enfim, é um personagem muito rico.

A música está muito presente na vida de Martín. E na sua vida, como essa relação acontece?
Na minha vida toda, sempre fui muito ligado à música, inclusive tenho uma frustração por não ter sido músico. Não sei tocar piano, mas eu tocava no filme em cima da dublagem. Quem fez o dublê de mão foi o Vitor Cayres, um pianista novo, clássico, maravilhoso. Também tive preparação com um maestro, comprei um piano - de segunda mão, porque é um instrumento caro, né? -, treinei bastante para tocar em algumas partes do filme.

Como você se reconhece no Martín?
Na verdade, acredito que nós todos somos iguais, mas em doses diferentes. Sempre vejo qual é meu entendimento dos personagens e tento mudar minha equalização para a desse personagem. No fundo a gente carrega tudo de todo mundo, só que em doses diferentes, e isso é o que caracteriza uma personalidade. O Martín vive um momento de muita solidão, o que não quer dizer que ele seja solitário, como eu já estive muitas vezes em minha vida. Não estou agora, mas posso voltar a estar assim. Isso é uma questão de estar, e não de ser. Tanto que o Martín vai se socializando cada vez mais durante o filme.

O que te atrai em um personagem ao escolher um trabalho?
Conflitos. Quanto mais conflitos, melhor, tanto internos quanto externos, mas a riqueza de um personagem está nisso e na história interessante. Ninguém quer ver filmes que tudo está sempre bem o tempo todo, não é? A própria vida é cheia de conflitos.

Você fez alguma espécie de laboratório para interpretar Martín?
Fiz uma preparação de dois meses com trabalho ao piano e, também, na preparação de atores mesmo para que eu entrasse no Martín. Além disso, o elenco ensaiou junto e também fiquei um tempo sozinho.

O que foi mais difícil para você nesse processo?
Dar a sutileza a ele. Por ele estar seguindo as mulheres no metrô, ou melhor, torcendo para que elas façam o caminho desejado, nossa maior preocupação era de ele não ficar com cara de maluco, nem olhar para elas com cara de "vou te comer", sabe? Ele estava jogando e queria uma mulher que fosse a da vida dele, então aquilo era muito sério para o Martín. Ao mesmo tempo, eram várias e diferentes mulheres, então tinha de ter um ar diferente para cada uma que não fosse nada estudado, era um processo muito mais interno do que simplesmente fazer caras e bocas. A preocupação era manter o personagem sempre vivo.

O filme mostra muito a questão da ruptura das regras como forma de ver algo realmente dando certo. O que você acha disso?
Acho maravilhoso porque a gente realmente não tem controle sobre nada, no fundo ta tudo aí na mão de Deus. O bom é conseguir lidar e estar receptivo ao inesperado, quanto mais a gente quer antecipar as coisas mais a gente fecha os próprios caminhos. O bacana é estar sempre aberto ao que vier.