Fernanda Paes Leme e Lívia Falcão

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Vocês sentiram dificuldade com a sensualidade de suas personagens no filme?
Fernanda: Já havia feito esse tipo de cena para a TV, mas é claro que é melhor porque a tela é menor (risos). Mas não tenho dificuldades para lidar com isso. A gente tem de acreditar no personagem e que aquilo cabe na cena. O desnecessário não é legal. No caso de Gennifer, minha personagem, ela é uma prostituta, não se pode esquecer disso. A cena de nudez cabe e foi super bem-cuidada, o Moacyr (Góes, diretor) e o Marquinhos (Marcos Palmeira, ator) foram cuidadosos comigo.

Lívia: Mesmo antes de ver o filme, sabia que as cenas mais sensuais tinham valido a pena. Quando li o roteiro, me assustei por não saber como aquilo seria filmado, me preocupava se era realmente necessário e pensava na minha carreira. Ao mesmo tempo, achava o projeto muito ousado, fruto de uma grande obra da literatura brasileira. Inclusive, acredito que As Pelejas de Ojuara deve ser lido pelo grande público porque é uma grande obra. Aquilo me instigou a aceitar, junto com a grande confiança que tive no Moacyr. Dali por diante, o trabalho foi construído em cima das relações de cumplicidade e confiança, fundamental para todos nós chegarmos no set com um grau de confiança, mesmo sem não termos nos conhecido. Tive a sorte de ter feito uma oficina de clown com o Marquinhos, onde nos vimos "ao avesso", pois foi um trabalho intenso de exposição. O que foi bom porque logo disse a ele: "vamos colocar nossos palhaços na roda" (risos); conhecíamos os nossos palhaços.

Essa oficina foi feita por conta do filme?
Lívia: Não foi, antes, uma coincidência total. Mas o Moacyr construiu este trabalho menos em cima do texto e mais num trabalho de corpo: junto com o Leon (Góes, preparador de elenco), viajei de Recife ao Rio de Janeiro para ensaiar durante quase 15 dias. Nesse processo, pensava que ele era louco, pois não ensaiamos absolutamente nada do filme! Ficávamos o dia todo dançando forró, cinco mulheres com o coitado do Marquinhos, que se acabou durante esse trabalho. Coitado, ele suou, literalmente, saia exausto todos os dias. Mas essa estratégia acabou se mostrando genial. Não precisávamos ensaiar as cenas falando os textos, precisávamos construir essa confiança um no outro, porque todos os exercícios eram feitos em conjunto e não era por isso que nos entregávamos menos ou mais, todo mundo meio que se "jogou" junto, o que nos deu segurança.
Para o bem ou para o mal, todo trabalho é importante, mas o da TV é mais efêmero: o que foi feito hoje pode ser melhorado nos próximos dias. Em cinema, temos de estar prontos quando chegamos no set e eu pensava muito que meus netos verão Dua. A gente sabe que está sendo impressa na película uma imagem que ficará para a posteridade. Um filme é sempre um marco em nossa carreira, é uma chance que temos para acertar no alvo. Chegar no set com essa segurança e tranqüilidade é muito importante e, claro, sabe qual é o alvo. Todo mundo é importante nesse processo, somos mais uma peça, sem glamour nem nada, fazemos parte de uma engrenagem e essa é a verdadeira magia do cinema.

Fernanda, você também sentiu essa tensão da Lívia ao ler o roteiro e se dar conta da sensualidade de seu papel?
Fernanda: Sim, senti. Não tanto pelas cenas de nudez.

Lívia: Isso porque você não tem uma "barbinha" a ser feita! (risos)

Fernanda: Mas tem um prego para tirar, meu bem. Vamos combinar que estamos no mesmo barco. Imagina minha fama depois disso! Só fico imaginando meus amigos assistindo a esse filme.
Fiquei assustada com a cena do prego, mas é tranqüila e engraçada. Tudo cabe numa história dessas; é um filme alegre, fantasioso, que retrata muito bem o clima do Nordeste, que muitas vezes foi perdido, há muitas pessoas que não o conhecem. Estou feliz em conhecer esse universo, o qual não conhecia, e poder compartilhar com minhas amigas da mesma idade que eu. Em volta de tudo isso, um pego ou um "peitinho" que a gente "paga" não tem a mínima importância.

Fernanda, você fez alguma espécie de laboratório para o papel?
Fernanda: Não, não me deitei com vários homens (risos)! Nos ensaios, tínhamos uma mesa com todas as pessoas do elenco, quando falávamos sobre todos os personagens, inclusive os outros. Este foi o primeiro desejo que tive da minha personagem, principalmente em relação a este universo, totalmente desconhecido para mim. Sou uma pessoa urbana, nasci em São Paulo e moro no Rio de Janeiro. Além disso, fui para Natal (RN) mais cedo - dos 40 dias que fiquei lá, filmei somente dez -; foi ali que bebi da fonte. No set, enquanto os outros atores filmavam, conversava com as outras pessoas. Ouvi-las foi o mais enriquecedor para compor o personagem: além de ouvir os relatos dos locais com quem conversava, também recebi dicas dos colegas e fiquei atenta ao que o diretor queria.

Nesse sentido, a Lívia deu alguma espécie de "consultoria", já que ela é nordestina?
Lívia: Com certeza. É um universo desconhecido; quando ele é apresentado, é feito como se fosse um cartão postal, com sotaque e figurino errados. Então, sempre que tinha a oportunidade e sentia a necessidade de mudar uma outra ou coisa para tornar o filme mais verdadeiro, conversava, não como uma crítica, mas para ajudar mesmo.

Fernanda: Lembro-me de uma história relacionada ao figurino. Quando lemos a descrição da Dualiba - uma mulher fogosa e voluptuosa -, seria muito fácil colocar decotes nela e cair no caricato. Essa mulher existe, é sensual, o vestido a deixa bonita.

Lívia: Gosto da construção em equipe. Um personagem é criado junto à caracterização, ela é o tipo de mulher que acorda e já "monta" num salto porque todo dia é dia para ela arrumar um pretendente! Tudo isso, junto com o figurino e a direção de arte, foi cuidadosamente trabalhado. Às vezes, a direção de arte fazia uma imagem da Dua com um rolo de macarrão na mão para bater no Zé Araújo, o que era fácil demais. Se o filme fosse nessa linha cartoon, tudo bem, mas eu dizia que ela era uma mulher de verdade, ela bate com a mão mesmo, não com um rolo!

Fernanda: Ela e o Helder eram essenciais.

Lívia: Eu ficava à vontade para falar.

Leia também entrevista com o diretor Moacyr Góes, os produtores do filme, Lucy e Luiz Carlos Barreto e as atrizes Fernanda Paes Leme e Livia Falcão.