Fernanda Torres (2003)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como você classificaria o tipo de humor de Os Normais?
Eu acho que Os Normais tem um humor quase infantil. Durante as filmagens, quando fazíamos a cena em que eu e o Rui começamos a dançar feitos uns loucos quando toca um rock, a Marisa (Marisa Orth) olhou e disse: "Eles são uma espécie de dupla de débeis mentais que se dão bem." Os Normais tem piadas muito infantis no fundo. Tanto que criança gosta, mas as mães não deixam ver porque é pesado. Mas a sacanagem dos dois é infantil quase, é cocô, xixi... Esse lado moleque, quase infantil, é que deixa a coisa não ser grossa; é ingênuo. Eu nunca tive de fazer uma cena constrangedora em Os Normais.

Você acha que existem muitos Ruis e Vanis por aí?
Uma das maravilhas do casamento é que você é íntimo de alguém. Há um companheirismo, um lado irmão. Esse aspecto nos Normais é muito forte. Às vezes a gente lembra muito o fato de a Vani ser doida, ser chata, histérica... Mas ela é uma mulher-moleque. Acho que eu sou assim também. Talvez esse seja um traço meu que tenha na Vani. Existem vários tipos de casamento. Têm aqueles movidos a ciúme, passionais, e existem uma forma de relacionamento que tem esse caráter do Rui e da Vani. Em geral, casamentos como esses mantêm as pessoas juntas porque é estável.

A Vani é uma romântica?
Às vezes ela é. O personagem é como a gente, não é uma coisa só. A Vani quer casar na igreja, tem um noivo que a corneia violentamente e meio que encara isso numa boa. Eu sempre achei que ela tem a moral do brasileiro: conservadora e libertária ao mesmo tempo. Você é noiva, você quer muito aquele homem, mas ao mesmo tempo você pula a cerca, ele pula...

Ao contrário do Luiz Fernando Guimarães, você não tinha tradição em interpretar papéis cômicos. Não ficou com receio quando foi chamada para fazer a Vani, que é uma personagem engraçada?
Eu tinha confiança do amor do Luiz por mim. Isso ajuda muito. Quando você é ator e um diretor ou um companheiro te olha com carinho... Um ator tem de ter o mínimo de confiança e de amor próprio para poder dizer sua fala. Tinha muita confiança do amor do Luiz, que queria que eu estivesse ali. Na hora não tinha muita idéia da coisa, fui sem compromisso achando que tudo ia acabar naquele piloto. Um dia, durante a primeira semana de testes, estava fora de cena conversando com o Luiz e fazendo umas brincadeiras com esse meu jeito meio moleque, o Alvarenga olhou e disse: "Aquilo foi muito bom". Daí, vi que meu diretor estava também tendo confiança em mim. Minha grande desconfiança era se conseguiria ser popular. Eu vinha de um mundo bem diferente, muito filme, teatro na Alemanha, Nova York... Isso sempre foi uma barra em minha carreira porque pensava que nunca seria uma atriz popular.

Como você se relaciona com a crítica?
Tem uma frase genial do Oscar Wilde que me curou para a crítica: "Toda crítica é uma autobiografia". Eu passei a entender as críticas assim. Às vezes eu concordo. Você, aliás, é o primeiro a sentir o que de errado você está fazendo. E a crítica às vezes confirma isso. Depois que li Oscar Wilde entendi que o crítico está escrevendo uma história, de um teatro que ele queira, de um cinema que queira, e muitas vezes você vai de encontro a história, da autobiografia que está escrevendo. Muitas vezes eu sou falha, me sinto falha, leio e concordo com o que o cara falou. Às vezes, acho que um crítico pode ser bobo por estar escrevendo uma autobiografia e não dar nenhum valor a uma coisa que obviamente tem valor. Eu aprendia a ler a crítica. Gosto muito da crítica quando ela valoriza o teatro, o cinema. Não gosto quando a crítica esvazia o teatro, a sala de cinema. Isso é o que considero uma crítica ruim. Não gosto da crítica que mata a própria matéria, o próprio cinema.

Para quem já fez tanto cinema, o que está achando do chamado "período da retomada"?
Sempre achei que o cinema brasileiro é uma massa amorfa que está sempre se definindo. Atualmente, tem mais interesse, tem a televisão descobrindo que pode ainda catapultar seu poder e juntar uma janela tão incrível que é o cinema. Mas não sei se a gente vai chegar a ter uma indústria de cinema no Brasil. Eu adoraria que fosse normal fazer filmes aqui. O cinema brasileiro sempre foi uma atividade de esquerda, artesanal quase. Hoje há uma luta para juntar essas duas coisas: você quer um cinema autoral, mas também quer uma coisa que vá chegar ao público.

Você queria ser popular e conseguiu com a Vani. E agora, falta alguma coisa?
Falta. Várias coisas. Sobreviver ao sucesso, por exemplo, é uma delas. Acho que tenho muito mais capacidade hoje que aos 20 anos. Hoje em dia tenho capacidade de mover o que me interessa. Se leio uma peça, tenho amigos para fazê-la. Agora eu estou fazendo A Casa dos Budas Ditosos, que vai estrear no CCBB aqui de São Paulo em 20 de novembro. Tenho o filme do Andrucha, que começa a ser filmado em julho; tem uma peça que estou comprando os direitos para estrear em 2005. Como diz a mamãe, tenho emprego até os 80 anos (risos).