Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães

27/08/2009 14h03

Por Angélica Bito

Entrevistar Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães soa mais como uma conversa. Quase um papo de bar. A cumplicidade é natural, o que acaba levando a entrevista a esse clima descontraído, de bate papo; invariavelmente, eles começam a conversar entre si, numa dinâmica tão divertida quanto a que dá forma a Rui e Vani, seus personagens em Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas, longa que marca a volta dos personagens depois da série – exibida por dois anos – e o primeiro longa, Os Normais – O Filme, de 2003. Participamos de uma conversa com os atores – que acabou terminando numa conversa sobre pizzas antes do teatro -, ao lado de outros colegas da imprensa; confira o que rolou:

Quando vocês voltaram a atuar como Vani e Rui, o que vocês acharam essencial retomar?
Luiz Fernando Guimarães: Na realidade, eles não têm uma marca registrada...
Fernanda Torres: Os dois têm uma excitação muito particular. Outro dia a gente participou ao vivo de um Fantástico como Rui e Vani, eles participavam, saiam e voltávamos Luiz e eu.
Luiz Fernando: Quando voltamos percebemos que somos tão sem graça! Fazíamos o Rui e a Vani, depois voltamos apagadíssimos, sem nada a oferecer para o público.
Fernanda: E a Patrícia Poeta animadíssima, esperando que algo incrível ia acontecer!
Luiz Fernando: Mas estávamos atuando, é o que a gente faz de melhor.
Fernanda: E os dois personagens estão sempre à beira de alguma coisa incrível que vai acontecer naquele minuto. Isso está neles.
Luiz Fernando: A função da dramaturgia, aqui, é essencial, pois atuamos como Rui e Vani desse jeito por eu foi como eles foram escritos, frases curtas, rápidas, e vamos no pique.
Fernanda: Atuar é como música: temos de respeitar o ritmo da partitura.

Por isso, então, que vocês parecem estar sempre improvisando, mas seguem sempre o roteiro à risca?
Luiz Fernando: O que criamos quase inconscientemente é um “sujar” a fala do outro. Na vida real, você não espera o ser humano finalizar uma frase para você começar outra. Isso deu um aspecto de improvisação porque, antes que a Nanda termine a frase dela, eu já começo a minha, já entro no final do que ela fala, o que dá a impressão de improviso.

A Fernanda Young comentou que participa mais do processo criativo, quem faz a redação final do roteiro é o Alexandre Machado, mas em cena os personagens são equivalentes nas sacadas, não existe um machismo no tratamento dos dois...
Luiz Fernando: O programa é da mulher, a Vani é “doida demais” [referência à música de abertura do programa, Você é Doida Demais, de Lindomar Castilho], ele é mais sobre o universo feminino, o personagem masculino ficava amparando. A grande novidade do programa é que era sobre uma mulher se expandido como todas as outras. Geralmente, o programa de casal é sobre o homem e a mulher; este era sobre a Vani, o Rui era o boizão, como dizia a Fernanda [Young], eu gostava de fazer isso, jogava frases na hora certa exatamente para conflitar com a Vani. O Alexandre [Machado] escreve para a Fernanda [Youg] e ela opina pra caramba, só que ele fica sentado e ela fica girando em volta dele, falando.
Fernanda: Nisso acho eles muito parecidos com o Rui e a Vani. Não que eles sejam Rui e Vani, mas são parecidos na mecânica dos dois, o que ela observa da vida...
Luiz Fernando: E ele fica lá, boizão, canalizando tudo. Tem uma dinâmica parecida.

Vocês participaram de alguma forma do processo de criação do roteiro?
Luiz Fernando: Na TV fizemos muitas coisas juntos, mas no filme não.
Fernanda: O Luiz fez bem mais do que eu, foi ele que fundou o programa com eles, eu entrei depois, trazida pelo Luiz.
Luiz Fernando: O diferencial do programa não era somente falar de intimidades, mas tendo uma mulher como porta-voz.
Fernanda: E ter um casal que é amigo, não tem essa dinâmica comum dos casais, eles competem...
Luiz Fernando: São colegas, são amigões, amantes, inimigos, cúmplices, o que é incrível.
Fernanda: E no filme eles são cúmplices para resolver o casamento deles.
Luiz Fernando: Eles superam os ciúmes e todos os sentimentos que podem para resolveu seu universo. É muito louco isso, dois personagens que conseguem não ter ciúmes, é dificílimo esse negócio de ter uma terceira pessoa. Quando a Drica [Moraes] fala que o sexo a três pode mudar o relacionamento, remete ao problema de que, quando se tem uma terceira pessoa, existe o risco de alguém se apaixonar, é o que todo casal pensaria. No caso deles, é mais importante salvar a relação, então não há esses sentimentos. É quase “cabeça” o filme, se você pensar assim! (risos) Imagine se fosse um filme francês, seria completamente diferente!
Fernanda: Juliet Binoche faria meu papel.
Luiz Fernando: Fico pensando: será que quando venderem os direitos pra TV americana os atores vão imitar a gente?
Fernanda: Não, não... Acho que vai ter o ritmo do diálogo.
Luiz Fernando: Mas o ritmo eles vão pegar vendo a gente ou lendo?
Fernanda: Lendo... Não tem como imitar.

Vocês pensam em se envolver com essa adaptação?
Luiz Fernando: Não, não...

Fernanda, você tem um timming de comédia e tem se dedicado ao gênero nos últimos tempos, mas também tem trabalhos em drama. Você pretende voltar a atuar nesse gênero?
Fernanda: Não, para teatro, talvez, mas não por ser dramático... A comédia tem uma comunicação muito boa. Não tenho projeto para fazer drama em cinema, no teatro talvez. Também não planejo muito, mas adorei terminar Os Normais e fazer em seguida Casa de Areia, foi ótimo visitar outras coisas. Nem sei o que vou fazer agora! Mas tudo tem o outro lado, no caso de Os Normais é o romantismo...

Vocês acham que em Os Normais 3 o casamento pode ser motivo de drama para Vani e Rui?
Luiz Fernando: Não vejo muitas mudanças no relacionamento dos dois...
Fernanda: Eles só pensam no carnaval da Bahia agora, vão tentar conseguir um abadá da Ivete [Sangalo]! (risos)
Luiz Fernando: Conflito terá sempre... Sempre vai ter uma iniciativa deles para agitar a vida.

Vocês acham que o público reage no cinema de acordo com o momento histórico? Por exemplo, as comédias, principalmente brasileiras, andam bem cotadas num momento de crise...
Luiz Fernando: Muitas vezes é possível, mas não acho que seja somente por isso. A quantidade de gente paga para rir é uma coisa impressionante. A comédia é sempre uma coisa mais agradável. Estamos com uma peça no Rio de Janeiro [Deus É Química] e, quando saio de cena, fico na sonoplastia para ver o público rindo. É uma coisa muito legal. Mas não é só crise financeira, quando a vida está ruim, existe muito sofrimento, tragédias, o humor é um escape. Mas não uma alienação.
Fernanda: O Brasil não está passando por nenhum momento trágico, pelo contrário, há um sentimento de esperança. Nos EUA, por exemplo, todo o cinema independente decaiu este ano, mas é uma coisa de indústria: o público deseja o escape das comédias, então estão sendo produzidos filmes do gênero, é mais canalizado. No Brasil, um sucesso acabou puxando outro, não existe planejamento porque não há indústria de cinema.

Este ano o cinema brasileiro estará lá em cima por causa das comédias...
Fernanda: Ao mesmo tempo, você tem o Carandiru, uma tragédia nacional que despertou a curiosidade das pessoas.
Luiz Fernando: Abordando a realidade, Cidade de Deus trouxe um público que descobriu ali a qualidade do cinema brasileiro.
Fernanda: Aquela época representou um boom do cinema brasileiro porque as pessoas queriam se ver no cinema. Agora, veio Se Eu Fosse Você 2 fazendo seis milhões de espectadores, coisa que ninguém esperava. Quando começamos a fazer Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas, o cinema brasileiro estava em baixa, não tinha essa expectativa nas comédias, 400 cópias, nada disso.

A comédia que vocês fazem em Os Normais é muito física. Vocês tiveram alguma preparação nesse sentido?
Fernanda: Somos atores de teatro!
Luiz Fernando: É muito engraçado, só de entrar no set já dá uma acelerada.
Fernanda: Somos atores físicos, faço ioga e pilates quase diariamente, corro...
Luiz Fernando: Não somos humoristas de contar piadas, mas fazendo piadas.
Fernanda: E ganhamos a vida de cueca, calcinha e sutiã, então temos de correr atrás! (risos)

Vocês ficaram com vergonha de fazer alguma cena constrangedora no filme?
Luiz Fernando: Na hora você nem pensa nisso, senão você não faz! O grande barato é estar numa onda de não pensar nisso, faz parte do nosso ofício.
Fernanda: O teatro na hora de perder a vergonha é fundamental no processo de aprender a lidar com o ridículo.
Luiz Fernando: O ator não pode questionar isso, senão é mais fácil ir para outro ramo. Todo ator até pensa em ficar mais bonitinho em cena, mas na hora a gente esquece, não dá pra se preocupar com isso.
Fernanda: Por exemplo, sempre tive o sonho de fazer aquela cantoria do início [na primeira cena do filme, Rui e Vani estão cantando animadamente num karaokê].

Aliás, você [Fernanda] canta no filme em três oportunidades diferentes. Como foi?
Fernanda: Pois é, íamos colocar a versão original de Maluco Beleza, mas daí deu problema com os direitos autorais. Trouxe pro [José] Alvarenga Love is Magick, que ele não conhecia, e sugeri usarmos essa ao invés de Maluco Beleza. Gravei as duas, mas optaram por Maluco Beleza no meio do filme e colocaram Love is Magick nos letreiros finais. Não canto direito, desafio muito, mas estou melhorando.
Luiz Fernando: No making of tem você cantando o tempo inteiro!
Fernanda: Pois é, fiquei tão surpresa com isso!
Luiz Fernanda: Ela fica cantando o tempo inteiro, igual uma maluca e músicas que não tem nada a ver uma com a outra.

Você se preparou de alguma forma?
Fernanda: Nada!
Luiz Fernando: Mesmo por que era a Vani cantando... Poderíamos ter procurado algum instrutor de canto, mas daí não seria legal.
Fernanda: O balé inicial seria feito por um casal de bailarinos que faz somente aberturas, a gente não faria, mas o melhor era imaginar o que o Rui e a Vani faria se estivessem na Broadway, a graça está nisso.
Luiz Fernando: O casal ainda aparece no começo e fez nossa coreografia.


Também entrevistamos o diretor José Alvarenga Jr.