Fernanda Torres (Exclusivo: Saneamento Básico)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como começou seu envolvimento com o filme?
Há dois anos, um antes do filme começar a ser rodado, o Jorge (Furtado) me mandou o roteiro, li e topei. Fiquei feliz da vida dele ter mandado pra mim, adorei o roteiro e me danei de rir. Além disso, o texto é oportuno e vem numa hora em que esse tema deve ser discutido. Fizemos algumas leituras no Rio de Janeiro e uma semana antes, fomos à locação.

O Jorge era um cineasta com quem você já pensava em trabalhar num longa-metragem?
Trabalhei com ele em Luna Caliente, um especial da Rede Globo, e sempre quis trabalhar com o Jorge e toda a experiência do Sul. Adoro os figurinos do filme, a direção de arte... Enfim, queria ter a experiência toda do cinema do Rio Grande do Sul com o Jorge. Adorei.

Queria que você falasse um pouco sobre a química desenvolvida entre você e o Wagner Moura, pois parece que todas as cenas entre vocês eram improvisadas...
Ah, o Wagner é maravilhoso... Pois é, as cenas não eram improvisadas, estava tudo no roteiro. O Wagner é um ator extraordinário e, obviamente, nos demos bem pra caramba. Nunca havia trabalhado com ele e já o achava incrível antes disso. Não conhecia a turma dos atores baianos, pois neste filme tínhamos a turma dos nordestinos e a do Sul. Eu e o Wagner nos demos muito bem, a gente ria muito nos ensaios, ele é um ator incrível.

Numa entrevista recente, você falava que passou por algumas dificuldades na carreira por ter escolhido parar de fazer novelas. Como foi isso?
Na verdade não foi uma escolha, a vida foi me empurrando. Dentro da TV mesmo, viver a Vani (no seriado Os Normais) foi como minha novela, durou três anos... Não foi uma decisão, foi natural esse rumo que minha carreira tomou. Depois que terminou Os Normais, passei a encenar a peça A Casa dos Budas Ditosos, depois filme Casa de Areia... Agora estou com um projeto de um pequeno programa para a TV, o Minha Estupidez, mas ainda não sei se vai sair. Talvez pelo fato de eu também ser produtora, acabei produzindo minhas próprias coisas.

Como foi a composição do seu papel em Saneamento Básico, o Filme?
Durante meses, fiquei treinando um sotaque gaúcho e achei que tinha conseguido. Quando fiz a leitura, vi que não tinha sotaque, mas não conseguia mais perdê-lo, voltar atrás e falar normal. Sempre tive muita empatia com a personagem, a entedia muito bem, então não teve uma preparação para o papel. A preparação foi ensaiar, lutei para ter mais uma briga para o casal... Mas o mais difícil foi me livrar do sotaque (risos)!

Este filme crítica um pouco a forma de se fazer cinema no Brasil, a questão da aplicação de verbas públicas nessa área... Como você vê isso?
Na verdade, não há crítica, mas ele conversa sobre isso. Ele não diz que enquanto todo mundo não tiver um vaso sanitário em casa o governo não deve dar dinheiro para cinema, sabe? Muito pelo contrário, o mundo caminha assim e o Brasil é um país de contrastes; o cinema cria uma identidade ao país, ele pode nos apresentar lá fora e uma das grandes forças do Brasil é essa força cultural. Por exemplo, por mais que existam crises no Rio de Janeiro, há uma coisa que você não pode tirar dele: essa força cultural que nunca pára de ser produzida, é uma cidade com problemas de esgoto, de segurança, mas que continua existindo culturalmente. Não é uma crítica, mas sim sobre um paradoxo que existe num lugar onde não tem fossa, mas tem cinema. Somente a Suécia pode ter cinema? Não, né? O cinema subvencionado existe em qualquer lugar, até nos EUA. Há tantas discussões que podem ser desenvolvidas sobre esse assunto... A produção cultural inteira está indo para esse caminho no qual ela é dependente de subvenção vinda do governo; cobrar ingresso é "feio", ela deveria ria ser de graça, mas, nesse sentido, ela deverá ser subvencionada pelo governo, sabe? Depois não se pode reclamar que todo mundo "mama nas tetas" do governo, pois a política caminha para esse sentido. Então, é complicada essa discussão... A arte não vai resolver os problemas sociais sempre, talvez nunca. Saneamento Básico, O Filme é engajado no sentido de abordar assuntos políticos.

Você acha que hoje em dia, no Brasil, um ator tem essa liberdade de escolhe não fazer mais TV, se concentrar mais em outras áreas?
Olha, eu tenho muita pena do ator que optar fazer somente cinema, viu. Isso não existe. Ele vai depender de convite a vida inteira... Ou seja, não existe. Um ator pode viver de TV e, se souber produzir, pode fazer isso no teatro; eu, Debbie (Débora Bloch), Luiz (Fernando Guimarães), Pedro (Cardoso), (Marco) Nanini, Marieta (Severo) fazemos parte de uma ala de atores que faz isso. Sou uma atriz que sobrevive de teatro, cinema e televisão; se um dos três me faltar, abro mão de muita coisa. Queria até colocar rádio no meio disso, entende? Mas se um ator fechar alguma dessas portas, estará perdido.

Mudando de assunto, vai ter mesmo a continuação de Os Normais - O Filme?
Acredito que sim. Já me mandaram o roteiro, chegou ontem, mas não li ainda. Mas parece que o segundo longa vai sair mesmo.

Leia também entrevista com Lázaro Ramos e Jorge Furtado, sobre Saneamento Básico, O Filme.