Fernando Meirelles

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como foi o processo de montagem do filme, uma vez que o montador foi trocado no meio do caminho?
Meu primeiro montador era muito bom de montar as partes - aquela cena na qual o Justin vai a Berlim e aparecem os trens foi ele que fez e ficou tão bom que continuou. Mas sempre escolhia os takes que não eram os meus favoritos, as cenas nas quais o ator estava exagerando mais na interpretação. Trabalhamos juntos por três semanas e não adiantou que eu pedisse para ele maneirar nessa escolha porque não tinha jeito, o gosto dele era diferente do meu. Para mim, a montagem dele parecia televisão, era tudo muito exagerado. Eu nunca tinha demitido ninguém na vida, foi muito difícil, mas foi necessário. Chamei essa outra montadora (Claire Simpson) porque gosto dos filmes que ela trabalhou (Possessão, Ricos, Bonitos e Infiéis) e também porque ela é uma escritora, então sabia que me ajudaria a contar essa história. Ela me ajudou a revelar esse aspecto romântico da história, que é um thriller político. A intimidade entre os dois parece verdadeira, tanto que as duas cenas mais íntimas foram improvisadas: aquela na qual ele filma Tessa na banheira e na qual eles conversam sobre o nome do bebê. Essa intimidade também foi dada pelos dois atores, que fizeram muito bem o papel de marido e esposa. O filme se beneficiou disso.

Você deixou muita coisa de fora na montagem de O Jardineiro Fiel?
De 40 a 45 minutos, incluindo uma seqüência de sete minutos filmada no Canadá. Tirei não porque a cena não estivesse boa, mas o fim do filme era muito arrastado. Ao invés de encurtá-lo resolvi tirar de vez. Assim, o ficou mais curto, com um final melhor. Por mais que gostássemos daquela seqüência, chegávamos no final do filme muito cansados.
Outra trama que saiu na montagem final é do cara que carrega a taça durante a festa. Ele é o que faz o teste de HIV no começo do filme e eu tinha toda uma trama para ele, mas cortei no final. Por isso filmei a cena da taça, mas, como era bonita, deixamos.
Outra coisa que encontramos durante a filmagem, mas que não entrou na montagem final, aconteceu quando fomos ao necrotério filmar aquela seqüência na qual Justin reconhece o corpo de Tessa. Lá são várias portas com alas. Quando o cara abriu a terceira, bati o olho numa cama e vi uma pilha de coisas roxas que pareciam frangos. Na hora em que reconheci o que tinha ali, vi 12 a 15 bebês mortos, empilhados. Eram natimortos, mas, ao invés de colocarem com cuidado os corpos eles empilharam tudo. Foi horrível, uma imagem chocante.

Um filme recente que se passa na África é Hotel Ruanda. O diretor Terry George percorreu o mundo mostrando seu filme para alertar em relação ao tema. Você pretende fazer isso com O Jardineiro Fiel?
Eu adoraria, mas não pretendo, senão ficarei um ano fazendo isso. Gosto de fazer filmes, mas a parte de divulgação eu gostaria de pular sempre. Quando você termina o filme, quer fazer outras coisas, mas tem de divulgar. Por exemplo, por causa de O Jardineiro Fiel, passei 20 dias nos EUA, lançamos em Londres, agora estamos divulgando na América Latina. Ainda tenho França, Espanha e Inglaterra de novo. Em outubro vou para a Alemanha e quiseram que eu fosse para lá novamente em novembro pela campanha ao Globo de Ouro, mas eu disse que não. Se você deixar, sua vida pára durante um ano.

Apesar de O Jardineiro Fiel ser uma grande produção pros padrões brasileiros, ainda é uma pequena produção para os padrões estrangeiros (o filme custou R$ 25 milhões). Você pensa em fazer uma megaprodução estrangeira?
Penso, daqui a uns cinco ou seis anos vou "enfiar o pé na jaca" e fazer um filme de 80 ou 100 milhões de dólares. É só você "abrir a lojinha". Na hora em que eu quiser fazer, é só deixar claro para os estúdios que estou a fim de um filme grande. Eles vão começar a me mandar roteiros, é assim que funciona. Você começa a ler roteiros até chegar um bacana.

O que te motivou a fazer filmes?
Sempre quis fazer filmes, apesar de ser arquiteto. Abri uma produtora para isso. A idéia era fazer filmes, mas, como era mais difícil, começamos fazendo televisão há dez anos. Cansamos de trabalhar em vídeo e surgiu a oportunidade de fazermos comerciais. São produtos de 30 segundos, em média, mas em filme, com câmera de cinema. Trabalhei nisso por dez anos até que pensei "chega, vou fazer filmes mais compridos". Essa mudança de carreira aconteceu há cinco anos. E está ótimo. Afinal, mudar de vida aos 40 e poucos anos é ótimo.

No cinema brasileiro, discute-se essa questão de existirem cineastas oriundos do cinema publicitários. Alguns críticos mais ortodoxos, digamos, não aprovam essa "escola". O que você tem a dizer sobre isso?
É a melhor escola por que é onde você pratica. Há cinco ou seis anos, por exemplo, a ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP) de São Paulo finalmente percebeu que aprender cinema não é só ver filmes e ler livros. "Caiu a ficha" que cinema se aprende fazendo. Por isso, mudaram completamente o currículo dessa faculdade (uma das principais no curso de Audiovisuais no País). Com pequenas câmeras, de tecnologia de custo baixo, os alunos filmam diariamente e eu concordo plenamente. A prática ensina mais do que a teoria, você faz para entender o que está aprendendo. Pelo menos é assim meu processo e na publicidade você tem essa possibilidade. Não vou "puxar a brasa para a sardinha", mas acho que os melhores diretores brasileiros da atualidade, aqueles que conseguem fazer filmes que realmente contam, em sua maioria vieram da publicidade, como o Walter Salles, o Beto Brandt, o Andrucha Waddington, José Henrique Fonseca, Cláudio Torres, eu, Paulo Morelli, a Mara Mourão... Enfim, quem são os cineastas brasileiros que não fizeram publicidade? Pegue os filmes desses caras e os do que eu citei, sabe? Não estou dizendo que é melhor ou pior, mas, narrativamente, quem filma muito tem um estilo que flui mais. Por isso, defendo a publicidade como escola.

O que você procura em um roteiro?
Não tem nada específico. Neste, por exemplo, achei bonita a história de amor. O cara perdeu a mulher e depois disso começa a entendê-la. Ser filmado em Nairóbi também me interessou, além do fato de falar de indústria farmacêutica. Não tem nada específico.
Meu agente não costuma me mandar roteiros, a não ser que ele tenha uns muito bons. Há duas semanas li um ótimo que eu adoraria fazer, chama-se The Kite Runner, lançaram o livro no Brasil nesta semana (o nome do livro no Brasil é O Caçador de Pipas). É um best seller americano e o roteiro é genial.

O Sam Mendes vai produzir...
É, ele vai fazer*, mas me ofereceram o roteiro antes. Fiquei muito tentado, mas teria que filmar no Marrocos - é uma história que se passa no Afeganistão -, sabe? Eu tenho um filho de 16 anos, uma família, não dava para fazer tudo isso. Se fosse daqui a cinco anos eu aceitaria no ato. É uma história no Afeganistão sobre os Russos chegando, toda essa história. Não sei o que me atraiu, você lê e é bom, sabe?

Qual é o papel social do cinema?
O que a gente pode fazer é pegar um assunto, colocar uma luz sobre ele, colocá-lo em evidência, fazer com que as pessoas pensem sobre ele. Se isso vai mudar uma coisa, já não é mais nosso dever. Mas o papel é colocar em evidência temas e determinados entendimentos de uma realidade, é até aí que vai nosso papel social.

Você acha que ao fazer um filme sua formação como arquiteto ajuda?
Eu adoro arquitetura. Acredito que penso menos literariamente e mais como um desenho, como um arquiteto. Quando penso em O Jardineiro Fiel, por exemplo, não é na condução da história, mas vejo blocos. Acho que tenho uma cabeça organizada espacialmente, sou muito bom para entender espaços, o que facilita na filmagem. Meu passado de arquiteto me ajuda a fazer cinema.

É verdade que um cineasta estrangeiro te perguntou, impressionado, como você fez a cena da galinha de Cidade de Deus?
Pois é. Fui convidado para fazer um filme da Dreamworks, por isso tive uma reunião com o Steven Spielberg e foi ele que me perguntou, na verdade. Mas foi muito informal. Expliquei que trabalhamos com uma câmera bem pequena, enrolamos com uma fita crepe em uma vassoura e ficamos carregando em volta da galinha. O Spielberg morreu de rir, falou pra secretária chamar os técnicos dele e disse: "eles têm de aprender isso, iam me cobrar meio milhão de dólares para fazer esse troço aí". Ele é um cara muito generoso.

E esse filme com a Dreamworks não acontecerá?
Era o Colateral, mas eu não quis fazer. Eles iam rodar isso em julho de 2003 e antes disso eu estava viajando muito, estava escrevendo esse roteiro que vou fazer agora. Encontrei o Spielberg em fevereiro de 2003, eu estava louco para ir para casa. Em 15 dias começaria a pré-produção e eu pensei que não queria mais ficar ali. Vim para São Paulo, fiquei pensando, fui para Los Angeles de novo, escolhemos elenco. Foi aí que desisti.

Quem estava cotado antes de você para dirigir O Jardineiro Fiel?
O Mike Newell, que dirigiu Quatro Casamentos e um Funeral e agora fez Harry Potter e o Cálice de Fogo, que é com o Ralph Fiennes. Eu vi umas imagens dele como o personagem do Harry Potter. Fizeram uma maquiagem genial nele, cortaram o nariz do cara. Geralmente a maquiagem põe coisas, mas com computação gráfica tiraram o nariz dele. É muito maluco porque ele tem um nariz meio grande e o personagem dele tem um nariz como se fosse de porquinho, sabe? É a cara dele, mas sem nariz... Loucão, muito apavorante.

* Sam Mendes produzirá The Kite Runner, que será dirigido por Marc Forster.

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