Fernando Meirelles (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Depois do dia 27 de janeiro, o nome de Fernando Meirelles ganhou um peso maior para os brasileiros. Não que ele já não fosse importante para a história do cinema nacional, depois de ter feito um filme como Cidade de Deus, só que tudo mudou. Meirelles é o primeiro cineasta brasileiro a ser indicado ao Oscar na categoria Melhor Diretor. Isso sem contar que seu filme foi indicado em outras três categorias: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem. Mesmo que as chances de uma estatueta dourada vir ao Brasil sejam pequenas, Meirelles já fez seu papel: o de ajudar a gravar o nome de nosso País na história do cinema mundial.

Em meio às expectativas em relação ao Oscar e se preparando para dirigir seu primeiro filme internacional - O Jardineiro Fiel -, Fernando Meirelles separou um tempo em sua concorrida agenda para conversar com o Cineclick por telefone, direto de Nova York.

Foi uma loucura! - No momento em que as indicações ao Oscar saíram, o cineasta conta que estava em uma reunião com o ator Danny Huston (21 Gramas), cotado para estar no elenco de O Jardineiro Fiel. "Quando saíram as indicações, o pessoal da O2 (produtora do diretor) me ligou. E, nesse momento, eu nem estava pensando no Oscar. Logo em seguida, o pessoal da Miramax também me ligou já com o New York Times na linha. Foi uma loucura, não consegui pensar em nada na hora", conta Meirelles.

Uma grande surpresa. Foi essa a reação causada pelas indicações de Cidade de Deus, inclusive para o diretor que, enquanto estava envolvido na produção do longa, não pensou em como seu trabalho seria recebido pelo público, muito menos pela crítica. "O processo do filme foi tão intenso que nem pensamos em como ele seria recebido pela crítica. Pelo tamanho do investimento (mais de US$ 3 milhões), esperávamos um público de 800 mil espectadores, mais ou menos, e era essa a única expectativa que eu tinha enquanto produzia Cidade de Deus", explica Meirelles. O filme, que levou quatro anos para ficar pronto desde sua idealização, ficou 54 semanas em cartaz no Brasil em 170 salas, totalizando um público de 3,4 milhões de espectadores, uma das maiores bilheterias do ano e a segunda entre os filmes brasileiros em dez anos.

Cinema tipo exportação - Sucesso mundial de público e crítica, Cidade de Deus foi lançado em cinemas espalhados em mais de 40 países, com bilheteria mundial de US$ 20,5 milhões, sendo que cinco milhões foram nos EUA e quatro na Inglaterra. As indicações ao Oscar deram um fôlego a mais à sobrevida do filme de Meirelles no mundo inteiro. Enquanto que no dia 6 de fevereiro o filme entrou em circuito comercial novamente no Brasil, no dia anterior Cidade de Deus reestreou nos cinemas norte-americanos em nada menos do que 500 salas. Para se ter uma idéia, este é o número de salas que costuma receber filmes estrangeiros em sua estréia nos EUA. O detalhe é que o filme brasileiro já estava em cartaz há um ano por lá.

A estratégia de relançar Cidade de Deus nos cinemas norte-americanos partiu da Miramax, distribuidora conhecida pelos pesados investimentos no marketing de seus filmes (saiba mais). Ao fazer com que o filme brasileiro ganhasse mais atenção do público e da crítica norte-americana, automaticamente a Academia passou também a prestar atenção na produção, o que certamente contribuiu para as indicações que ele conseguiu. "Depois que Cidade de Deus entrou em 30 listas de melhores filmes do ano em revistas e jornais americanos, com certeza chamamos mais atenção, o que é mais fácil quando o filme está em cartaz. Foi o próprio Harvey Weinstein (um dos principais executivos da Miramax) que acreditou no filme, resolvendo adiar o lançamento em DVD nos EUA para que ele tivesse uma vida maior nos cinemas dos EUA", explica Meirelles. "O marketing da Miramax foi muito sensível e estratégico. Seu relançamento nos cinemas americanos foi a grande ajuda que a empresa deu também para que fôssemos indicados ao Oscar."

Tanta confiança depositada no talento de Meirelles depois de Cidade de Deus mudou a carreira do diretor brasileiro. "Depois do filme, chegaram a me oferecer 60 roteiros, incluindo de grandes estúdios. Alguns tinham orçamento de US$ 80 milhões e eu não aceitei nenhum deles porque não estou preparado para isso. Não consigo trabalhar sendo vigiado o tempo todo e é assim que as coisas funcionam quando você está em um grande estúdio. Tanto dinheiro envolvido significa mais interferências e eu não consigo trabalhar desse jeito", conta.

Mas isso não significa que Meirelles pretende ficar fora do cinema internacional, muito pelo contrário. Tanto que em maio ele começa a rodar O Jardineiro Fiel, baseado no livro de John Le Carré, com Ralph Fiennes (Spider) como protagonista. "O roteiro de O Jardineiro Fiel chegou em minhas mãos na hora certa. Na verdade, só aceitei dirigir este filme por ser uma produção independente e inglesa", confessa. "Hoje, as pessoas confiam em mim mais do que eu mesmo confio e isso é assustador."