Flores Raras: Confira entrevista com diretor e elenco

Glória Pires, Miranda Otto e Bruno Barreto falam sobre novo longa

16/08/2013 11h21

Por Cristina Tavelin

Flores Raras estreia nesta sexta-feira e não poderia chegar numa hora mais apropriada. A obra conta a história de amor entre a poetisa americana Elisabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo com uma visão bem humanista, fugindo de estereótipos. "O filme veio em um momento importante e desmistifica o universo gay ao mostrar um relacionamento comum", destacou a atriz Glória Pires em coletiva.

A ideia de levar às telas essa relação foi de Lucy Barreto, mãe de Bruno Barreto, que assina a direção. Para Miranda Otto, Flores Raras também foi feliz ao traçar o processo de criação poética de uma maneira interessante e acessível por meio de uma personagem histórica envolvente. "Quando li o roteiro, escrevi para o Bruno dizendo que tinha amado essa mulher, essa história, principalmente por ter papéis femininos fortes", destacou a australiana, cuja última atuação havia sido no longa Guerra dos Mundos.

Confira um pouco do que você pode ver nos cinemas a partir de hoje segundo a visão das protagonistas e do diretor.

Glória Pires

Cineclick – Você teve algum cuidado ao compor sua personagem, Lota de Macedo, para não deixá-la com um tom caricato? Outras cinebiografias te inspiraram nesse processo?

É uma história real. Por mais licença poética que tenha existido por questão de roteiro, de tempo, para deixar a história clara e apresentar a relação entre essas personagens, trabalhamos em cima da realidade, com fatos. Houve pequenas mudanças, como determinadas situações que não ocorreram exatamente no momento em que o filme as retrata.

O processo é bem diferente se comparado a um personagem totalmente criado na ficção. Existe uma responsabilidade sobre o que está se contando porque essas pessoas existiram, devem ser respeitadas, deve haver todo esse cuidado. A Lota era mesmo um pouco caricata. Um crítico falou que ela está caricata e machona demais no filme. Mas ela era assim, desculpe! (risos).

Cineclick – Como foi contracenar com uma atriz estrangeira? Há diferenças de estilo ou a arte acaba sendo uma linguagem em comum?

Essa foi minha primeira experiência nesse sentido, nunca trabalhei com uma atriz estrangeira, nem falando outro idioma. Minha observação diz que, da mesma forma como acontece no Brasil, lá fora também existem os atores que estão entregues ao contar uma história, ao interpretar aquela determinada personagem, e não focados em si próprios.

Eles se entregam, disponibilizam-se para receber a personagem. E existem outros nos quais a autoimagem é tão forte, tão presente, que impossibilita a abertura desse espaço. Sempre gostei de inglês, morei um ano nos Estados Unidos e essa experiência me ajudou. Mas interpretar em outro idioma requer mais tempo para mergulhar no processo.

Miranda Otto

Cineclick - Uma das cenas mais impactantes de sua personagem é a do discurso sobre a empolgação incessante dos brasileiros mesmo em época difíceis, a exemplo de quando perdemos a liberdade durante a ditadura. Qual o seu ponto de vista, como estrangeira, sobre essa fala?

Li essa passagem quando recebi o roteiro e acabamos por filmá-la relativamente tarde. Então, houve um intervalo considerável. Finalmente, quando gravamos aquela cena, realmente entendi o que Elisabeth Bishop queria dizer, porque naqueles dias de gravações eu pensava: "Como nós vamos filmar isso amanhã?", "Que horas faremos?" e esperava as notícias chegarem. Então, alguém vinha e dizia: "Vai ter uma festa hoje à noite!" (risos).

Entendi perfeitamente esse conceito de celebração. Porém, quando estive em Nova York recentemente e os jornais falavam sobre todos os protestos que estavam acontecendo por aqui, pensei: "Falamos sobre isso no filme, sobre as pessoas não se mexerem, ficarem apenas celebrando; e justamente agora elas estão indo para as ruas!". Agora sei que aquilo não era totalmente verdade.

Cineclick - Quais referências você utilizou para compor a poetisa Elisabeth Bishop?

Não a conhecia. Ela foi uma artista realmente incrível. Quando li o roteiro pela primeira vez, escrevi para o Bruno (Barreto) dizendo que tinha amado essa mulher, essa história, principalmente por ter papéis femininos fortes. Li muita coisa sobre como Bishop se comportava. Também busquei referências visuais, icônicas, de vídeos, além da leitura de sua poesia, que dizia muito sobre ela. Por acaso, estava trabalhando em outro filme e os pais de uma pessoa a conheceram muito bem. Agora muitos vão saber quem foi Elisabeth Bishop.

Bruno Barreto

Cineclick – Você comentou que as atrizes contribuíram bastante ao levantar várias questões durante as filmagens. Quais seriam essas indagações?

Glória e Miranda contribuíram muito com questões comportamentais. E já havíamos passado duas semanas inteiras ensaiando no Rio de Janeiro, lendo, destrinchando, desconstruindo, esmiuçando esse roteiro. Tivemos toda essa dinâmica. Na hora de filmar uma determinada cena, surgiam outras perguntas.

Um das principais: a hora que em que Lota de Macedo se despede da Bishop com um beijo no quarto. Glória não entendia o motivo dessa passagem, sendo que elas eram hostis uma com a outra. Mas não foi algo com conotação sexual, era quase um sentimento de pena ao perceber aquela mulher extremamente frágil.

Cineclick – Essa fragilidade dela lembrou um pouco a personagem da Julianne Moore no filme As Horas. Foi uma referência?

Sim, esse filme foi uma das principais referências. Queria que Flores Raras tivesse a complexidade e a poesia de As Horas e a emoção e escala épica de Entre Dois Amores.

Cineclick – Como foi trabalhar com protagonistas de diferentes países e encontrar o tom ideal na interação entre elas?

Veio intuitivamente das duas, não foi algo muito trabalhado ou ensaiado. Na verdade, foi a parte mais simples. A relação delas era muito clara; o complicado foi traçar a trajetória interna de cada personagem. Não teve nenhum momento que discutimos muito uma em relação à outra.

Bishop vai ficando mais forte. O grande desafio que permeou todo esse filme foi como fazer dela uma personagem interessante, empática. Ela era chata, implicante, reativa. Não queria transformar um personagem antipático em simpático, mas em empático, fazer as pessoas se interessarem, mas sem abrir concessão.

A personagem de Miranda era uma pessoa brava, egoísta, como todo artista é. As pessoas, a princípio, gostam mais da Lota, dão risada. Mas acredito que conseguimos chegar a um equilíbrio; e uma história de amor precisa ser assim. Se apenas um prevalece, ela não funciona.