Florinda Bolkan (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como surgiu a idéia de fazer seu primeiro filme? O que a motivou?
O roteiro surgiu por acaso. Eu não tinha a menor intenção de fazer um filme. Foi de repente. O que senti foi uma vontade grande de escrever. Comecei a descrever situações da minha infância, coisas que eu tinha visto acontecer com minha família e com a família de amigos. Cheguei a um ponto em que vi que tinha um filme em mãos e não um livro. Daí veio uma grande vontade de contar essa história. Parti, então, para o processo de preparação e, de repente, estava tudo pronto para ser filmado.

Eu Não Conhecia Tururu é um filme urbano que, ao contrário da maioria, não foi rodado nas grandes capitais, Rio de Janeiro ou São Paulo. A intenção era fazer uma homenagem à sua terra natal?
Foi. Eu saí do Ceará muito jovem e sempre via o Estado muito pequeno. Pequeno comparado ao Rio e São Paulo. Esse lado acanhado do Ceará explodiu. De repente, eu voltei e ouvia minhas amigas contando histórias típicas de uma cidade grande, de uma cidade cosmopolita; não mais de uma cidade pequenina. Os problemas de relacionamento das mulheres continuam os mesmos, mas agora num contexto urbano, cosmopolita. E eu mostrei no filme o que há de moderno na cidade. Isso tinha muito a ver com o filme; mostrar esse mundo que havia ficado para trás, o mundo rural onde a mãe ficou, que representa o passado.

No filme, a personagem Eleonora é uma escritora bem-sucedida que volta da Itália depois de ter passado muitos anos fora. Trata-se de uma autobiografia?
Não... e sim. A Eleonora é uma personagem descritiva. É como se ela tivesse contado a história. É claro, eu sou uma atriz, moro na Europa e sou eu aquela personagem. Eu quis interpretá-la justamente para dar a ela um aspecto nulo. Ela não existe. Seria difícil pôr uma atriz para interpretá-la. Se você analisar a personagem, nota que ela nunca sai daquela rigidez. Ela é consciente que pode sair, que pode quebrar aquele ritmo. É muito segura. Ela é uma personagem sofrida, um estereótipo de mulheres que eu conheci, que viveram uma vida plena de sucesso, de vivência, de realizações profissionais, mas que não têm seu lado emotivo, amoroso bem resolvido. Naquela idade, ela se depara com uma situação muito maior do que ela esperava. É muito delicado para ela tratar daquele assunto. É muito delicado para nós mulheres tratarmos desse assunto. Eu a criei de forma que ela não tivesse nenhum valor, justamente para poder dar peso aos problemas mais evidentes das outras personagens: uma não pode ter filhos, a outra quer um grande amor, a outra casa quatro vezes...

O filme retrata um típico problema das mulheres modernas?
Eu quis trazer à tona esse mundo. O filme não tem o sofrimento como base. Elas são muito felizes, mas tem aquela coisa do ranço, o ranço do amor que fica nas mulheres, em todas, sem exceção. Para a mulher, a base é o amor. Não há mulher que diga 'não, eu não tô nem aí'. Ela está, e como! O amor é uma coisa que transcende barreiras. É isso o que me fascinou. Com todas as lutas que as mulheres venceram na vida, elas ainda estão procurando uma coisa simples que é o amor. Se você está com o homem errado, seja livre ou escrava, você está com o homem errado. A situação não mudou com o passar do tempo.

Até que ponto você se inspirou nos grandes diretores que a dirigiram durante sua carreira para realizar seu trabalho?
O cinema é uma mistura de muitas coisas: fotografia, atuação, roteiro...Mas é, principalmente, o olho do construtor. Então, o cinema é basicamente uma arquitetura. O olho do diretor, quando ele define, define tudo. No olho tem o retrato daquilo que a gente assimilou. É claro que o encontro que eu tive com esses diretores me influenciou. Eles me deram talvez uma coisa plástica, uma forma de contar, uma maneira de escolha, de olhar.

Você se desentendeu com a Maria Zilda durante as filmagens. Isso prejudicou o filme de alguma forma?
Não. O filme nasceu com uma estrela positiva. A mensagem que eu queria transmitir foi transmitida. Os atores estão extraordinários, todos. Foi uma vitória. Eu considero um filme positivo em todos os aspectos.

Como você vê o atual momento do cinema nacional?
O cinema brasileiro já foi fortíssimo depois parou. Agora, está estourando. O mesmo aconteceu na Itália e em outras partes do mundo. Nós ficamos anos sem ver um grande filme francês, um grande filme italiano. Cinema não se faz sem dinheiro, cinema não se faz sem entusiasmo. Temos de ter leis de incentivo. Você tem de fazer dois, três filmes para que um dê certo. Não é possível se fazer tudo muito bom. Eu acho que o cinema brasileiro, nesse momento, tem uma grande força. As pessoas estão indo às salas ver filmes nacionais. A porta está aberta; o empurrão foi dado para a produção brasileira decolar. Há um crescimento e isso é maravilhoso.

Você pretende voltar a filmar?
Eu quero continuar a filmar. Já tenho um projeto na cabeça e vou filmar no Brasil, no Ceará de novo. É o que eu conheço, o que sinto. Se o filme vai depender de mim, se eu vou conseguir fazer o meu filme, vou querer fazer no Ceará, porque a história nasceu na minha cabeça lá. Agora, não vou contar do que se trata, porque eu prefiro não contar os planos e sim realizá-los.