Francis Lawrence

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Você pensa na classificação de um filme durante a produção? Porque, se ele não recebe a classificação para 13 anos, pode ser prejudicado nas bilheterias...
Nos EUA, nem tudo é muito claro quando se trata da classificação etária que os filmes recebem. Achávamos que estávamos fazendo um filme PG-13 (nomenclatura recebida pelos filmes indicados a esta idade, no mínimo) com Constantine, mas ele recebeu classificação Rated R (menores de 17 podem assistir ao longa somente com a permissão dos pais). Geralmente, filmamos prestando atenção à linguagem, presença de nudez e sexualidade, violência... Mas Constantine é um filme com elementos religiosos. O Senhor dos Anéis é mais violento e tem mais monstros, mas é mais fantasioso do que Constantine, que tem anjos e demônios, criaturas nas quais as pessoas acreditam por conta da religião. Eu Sou a Lenda tem elementos mais assustadores - alguns relacionados à religião, à esperança - e mesmo assim conseguimos PG-13. Estávamos torcendo por esta classificação para que não saíssemos prejudicados nas bilheterias. O mais difícil de ser medido num filme é a intensidade das coisas, pois é subjetivo.

O filme foi editado seguindo estes conceitos?
Não cortamos nada pela classificação etária.

Você vê alguma proximidade do personagem de Eu Sou a Lenda com o protagonista de Mais Forte Que a Vingança (1972)?
Nunca assisti a Mais Forte que a Vingança, mas com certeza os filmes dos anos 70 foram referências para esta produção. A história aborda como um homem que sofreu tantas perdas e traumas consegue sobreviver num ambiente como aquele. Outra coisa que pode ser relacionado com os filmes nos anos 70 é como tudo é silencioso. Nos filmes de hoje em dia, as coisas não são muito silenciosas, tudo é solucionado com música e diálogos, todos explicam tudo. Assim que você faz algo que tem um respiro, as pessoas pensam sobre esses tipo de filmes como O Franco Atirador (1978), desses que são apoiados em personagens.

E o silêncio em uma cidade como Nova York, onde isso é tão inconcebível.
Sim. Tentamos trazer o máximo de realismo ao filme, fugindo do que já se usou quando se trata de histórias apocalípticas, como prédios pegando fogo. Ao contrário, temos animais correndo, céu claro, uma bela ambientação.

E a sensação de que a natureza é poderosa.
Com certeza. Tudo isso faz parte. Não importa o que acontecer no planeta, a natureza continuará existindo.

Hellblazer, HQ que inspirou Constantine, mostra a história de um homem guiado pela sua solidão, o que foi mantido no filme. Você vê conexões entre John Constantine e Robert Neville?
Sim. Engraçado, mas os heróis solitários têm certo apelo junto a mim. Ao mesmo tempo, nem percebo isso enquanto filmo. Eles são figuras solitárias, mas olham o mundo de maneiras diferentes. Por exemplo, há cenas com banheiras em ambos os meus longas, o que só percebi depois. Então, há muitas similaridades, mas não foram propositais.

Como foi trabalhar com Alice Braga?
Ela é uma atriz muito talentosa e adoro trabalhar com pessoas talentosas. A idéia inicial era ter uma personagem britânica, mas não nos prendemos a isso, pois ela deveria ser de outro lugar fora da América, primeiramente, para demonstrar que o problema é mais global.

Da mesma forma que o último homem da terra poderia ser branco...
Exatamente e essa discussão foi levantada em muitos países. Will Smith é negro, Alice é brasileira e o menino é branco; muitos viram isso como uma declaração política! Mas simplesmente são eles porque eram as melhores pessoas para o trabalho.

Estávamos comentando o destino da cadela Sam. Onde ela está agora?
Ela está com seu treinador, Steve. Ela foi resgatada de um canil. Will queria ficar com ela, mas o treinador nunca permitiria isso. Inclusive, filmamos alguns cachorros assustadores no rancho de Steve para termos referências visuais para a criação digital dos cachorros infectados.

Eu Sou a Lenda é, em sua grande parte, mais "artístico". Porque você escolheu fazer os seres infectados digitalmente? O filme não fica mais pobre com isso?
Acho que não. Acredito que seria ridículo andar num set com um bando de pessoas maquiadas. Além disso, fazer as criaturas digitalmente fez com que eu tivesse mais liberdade com seus movimentos e com a forma como seus músculos aparecem na tela, você pode colocá-los hiperventilando e abrindo muito seus maxilares. Foi uma escolha prática. A maioria das pessoas não se incomoda com criaturas digitais. Ao mesmo tempo que Eu Sou a Lenda é um blockbuster, também existem elementos de pequenas produções.

E os próximos projetos?
Não há muitos em vista, na verdade.

Sem chances de uma continuação de Constantine?
Ainda não, mas adoraria. Foi um trabalho divertido. O problema é que muitas pessoas apresentam argumentos interessantes, mas não há um projeto concreto. Quando algo assim chegar, será incrível, principalmente a idéia de fazer um filme muito mais sombrio e assustador do que o primeiro.

Você faria uma seqüência de Eu Sou a Lenda?
Claro! Se for uma boa idéia, com uma história interessante, por que não? Com muitas criaturas digitais (risos)!

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