Frei Betto (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Qual foi sua primeira reação quando o Helvécio Ratton o procurou contando sobre a adaptação de seu livro?
Primeiramente, me senti lisonjeado, mas avisei para ele: "Filme é filme, livro é livro e não quero interferir, é outra criação, então, por favor, não me peça opinião que não quero entrar nisso". A arte cinematográfica não é minha área. A Dani Patarra me mandou o primeiro tratamento do roteiro. Li, gostei, mas, como disse, sou analfabeto nisso, não sei o que seria o roteiro transformado na tela. Depois o Helvécio me pediu para dar uma palestra para o elenco e ficou nisso. Agora, eu tinha uma desconfiança: o filme, em geral, costuma ser inferior ao livro e não por falta de talento do diretor, mas sim por limites que o livro não tem; posso fazer um com 200 ou 300 páginas, ele permite uma temporalidade, um aprofundamento que o filme não permite. Fiquei muito gratificado com o resultado, o filme vai além do livro, é seu coroamento, uma obra de arte absolutamente fantástica, primorosa e impactante.

Como o filme vai além do livro?
As imagens têm muito mais forças do que as palavras. Milhares de pessoas que nunca lerão o livro verão o filme. Cada um lê um exemplar do livro; uma cópia do filme é visto por milhares de pessoas. Esta é a diferença.

Em algum momento você chegou a pensar que não seria uma boa idéia adaptar cinematograficamente este livro?
Não por confiar muito no trabalho do Helvécio. Se fosse um diretor que eu não conhecesse, ou que tivesse muitas críticas... Mas eu conhecia o trabalho que ele fez em Amor & Cia e Uma Onda no Ar, sabia que estava em boas mãos, além dele ser mineiro e de ter sido vítima da ditadura militar como eu.

Quais são suas impressões em relação aos atores escolhidos em Batismo de Sangue?
Foi uma escolha primorosa. Todos têm um talento excepcional, mas há dois "clones": o Daniel de Oliveira me fazendo e o Marku Ribas fazendo o Marighella. Sobre o Daniel, esta não é só a minha opinião, mas de todo mundo que me conhece. Já tinha visto Cazuza - O Tempo Não Pára e esperava um pouco isso, mas nem tanto.

Vocês chegaram a conversar enquanto ele se preparava para o filme?
Fizemos uma espécie de laboratório durante dois dias, ele ficou me observando e foi bastante tranqüilo, ele é muito discreto.

Hoje em dia, como é revisitar esta história no cinema?
Chorei muito na segunda vez que vi o filme. A primeira foi no Festival de Brasília e estava mais ligado no público, mas da segunda chorei muito, foi uma emoção muito forte. Já vou assistir agora pela sexta vez, então estou mais calejado (risos). Hoje lido com a outra dimensão da imagem.

Como você vê Batismo de Sangue nesse painel cinematográfico que vem se formando com filmes sobre a ditadura?
Primeiro, parabéns à arte brasileira que está fazendo algo que o governo deveria fazer e não faz, que é abrir os arquivos da ditadura. Mas a arte está escancarando esses arquivos, que estão vivos na memória de quem viveu isso. Lamentavelmente, o Brasil é o único país da América do Sul que ainda não prestou contas com seu passado. O povo é como uma pessoa. Não tendo acertado contas com esse passado tão dramático, há o risco disso se repetir, por isso que a gente faz análises, para que possamos caminhar com uma prospectiva mais saudável e resolver os fantasmas que carregamos. Nenhum filme brasileiro que tratou deste tema é tão realista quanto Batismo de Sangue, nenhum foi tão fundo e consegue unir fatores que na cabeça do senso comum são antagônicos: fé e luta armada, a condição humana levada a seu extremo e esse ritmo alucinado de filme policial.