Georgia Guerra-Peixe (O Samba que Mora em Mim)

07/02/2011 09h00

Por Heitor Augusto

A câmera de Georgia Guerra-Peixe subiu o Morro de Mangueira para descobrir boas histórias e buscar uma poesia cinematográfica no cotidiano da comunidade. O resultado é o documentário O Samba que Mora em Mim, que revela algumas surpresas sobre Mangueira. A primeira: samba, só no carnaval.

"Essa foi minha maior surpresa, não encontrei o samba tradicional", conta a diretora em entrevista por e-mail ao Cineclick. Na conversa, Guerra-Peixe conta sobre a decisão de conduzir o espectador por um passeio pelo morro, a presença maciça do funk e a ausência do tema da violência em O Samba que Mora em Mim. "Não estava procurando, mas os entrevistados também não me trouxeram". A seguir:

A câmera como passaporte para um passeio é algo que sempre esteve na essência do filme?
Georgia Guerra-Peixe: SIM! Fiz um estudo de linguagem antes de filmar. Pensei MUITO em como trazer o emocional e o meu olhar para o filme. Tenho um enorme respeito por eles e desejei fazer da fotografia um passaporte desse respeito. Caminhar pelo morro sempre foi a idéia e caminhar com steadicam [câmera acoplada ao corpo] foi a maneira carinhosa que encontrei. Andei o morro todo e filmei várias passagens pelos guetos e vielas sem ser percebida. Isso me deixou bem feliz. Para ter essa “passagem livre” esperei para fazer os "passeios" mais para o final das filmagens.

Na trilha, temos poucos sambas e muitos deles com arranjos minimalistas? Reflexo da preocupação de manter o foco do filme nos personagens e não desviar atenção para as músicas?
A música tem a função de me “colocar no filme” de maneira emocional. Por isso o minimalismo, ser tranquila e não desviar a atenção. Mas a falta de sambaA é basicamente porque todo o samba que encontrei eu editei no filme, eram rádios, crianças brincando, enfim coisas rápidas e um pouco sem a poesia do samba que eu “esperava encontrar”.

Acho mesmo que essa foi a minha maior surpresa: Não encontrei samba nas esquinas do morro da Mangueira. Falo do samba tradicional, do Cartola, do Carlos Cachaça. Mas apesar disso o filme é bastante musical. Tem música do morro somadas às compostas para o longa que, juntas, tornam o filme leve e musical.

Assista ao trailer de O Samba que Mora em Mim

Você poderia falar um pouco sobre a pesquisa de personagens, pois os personagens mais marcantes são largamente conhecidos no morro todo...
Os personagens não são conhecidos, ao contrário, procurei anônimos. A Vó Lucíola é conhecida pela comunidade e por algumas pessoas do Rio que acompanham o carnaval da Mangueira. Ela passou a ser uma lenda afinal tem 110 anos e tem filho para todos os lados do morro. E o Taranta que é um ex-diretor de bateria. Fora isso nenhum outro personagem é conhecido. Essa escolha ocorreu para dar ao filme a força do morro e não dos personagens. Queria mesmo conviver e conhecer e para isso procurei as casas mais simples e as histórias complementares.

A Gisela Câmara fez a pesquisa de campo durante 20 dias. Depois, cheguei ao Rio e fui visitar casa a casa das pessoas que ela tinha reservado. Buscamos outros (como o Cosme e Taranta que achamos juntas). O critério foi o som do morro. As casas com histórias para contar a vida , o dia a dia da comunidade.

Dá pra sentir que falar da violência é algo que passou longe de suas intenções, mas, uma pergunta: por que o tema praticamente não dá as caras no filme, a não ser pela fala do Cosminho?
Na verdade a violência entra no filme sempre que os personagens falaram sobre ela. Não busquei por ela, mas os entrevistados também não me entregaram. Procurei falar das pessoas pelas pessoas...

Uma coisa que marca em O Samba que Mora em Mim é a convivência do funk com o samba. Você esperava por isso antes de filmar? Coisas, por exemplo, como um DJ discotecando vestido com uma camiseta de membro da escola?
Isso foi uma surpresa. O funk e o samba se relacionam muito bem no período do pré-carnaval (quando filmei), mas a verdade é que durante o ano não tem samba, prevalece o funk. Porém, todas as casas tem algo verde ou rosa. Tem flâmula da escola, possuem camisa do samba do ano e, principalmente, todos têm orgulho de fazer parte da nação mangueirense, que tem toda a ligação com o samba possível.