Gerard Butler

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Você conhecia a graphic novel antes de fazer o filme?
Não, conhecia somente um pouco do trabalho de Frank Miller e já tinha ouvido falar de Os 300 de Esparta, mas nunca havia lido. Fiquei sabendo do projeto quando fui fazer uma visita à Warner Bros.. Quando um dos executivos disse a palavra "300", soube na hora que se tratava de algo simples, forte, que me interessou antes mesmo de saber do que o que ele estava falando. Não pretendia fazer mais esse tipo de papéis, mas, quando li o roteiro, percebi que se tratava de algo especial. Conheci Zach (Znyder, o diretor) num café e ficamos empolgados imaginando como seria cada uma das cenas mostradas na graphic novel. O que foi definitivo na minha escolha foi quando ele mostrou um vídeo de mais ou menos três minutos no qual explica como o filme seria. Percebi que as pessoas nunca tinham visto algo daquele jeito no cinema. Parecia que eu estava no meio de um segredo, pois naquele momento ainda era uma produção meio independente, apesar de ter o apoio da Warner.

Por que você não queria mais fazer este tipo de filmes?
Odeio filmes como 300 (risos), não queria mais interpretar esses personagens cultuados, como Átila, o Huno (Átila, uma produção para a TV). Também interpretei outros papéis entre esses trabalhos, como em Querido Frank, The Jury (minissérie televisiva) e Duelo de Campeões - o qual filmei aqui, no Rio de Janeiro. Mas esse é um tipo de papel o qual não sabia que poderia fazer antes de me mudar pros EUA, nunca havia interpretado esse tipo de herói poderoso. Antes de fazer O Fantasma da Ópera, nunca havia tido uma aula de canto em minha vida. Quero trabalhar com dramas, comédias, romances, filmes de humor negro... Quando me perguntam que tipo de trabalho farei, respondo que não sei, pois é imprevisível saber que tipo de papel vai me conquistar, não quero me limitar em relação aos caminhos que vou escolher. Caso contrário, nunca teria feito 300, a melhor coisa que já fiz, a mais excitante, diferente e bem-sucedida.

Você abandonou a faculdade de Direito para ser ator aos 27 anos. Quando você percebeu que queria ser ator?
Quando tinha 12 anos (risos). Desde cedo, tinha esse sonho de me tornar um ator. Eu me lembro que, aos 15 ou 16 anos, naquele período quando surgem as responsabilidades, pensei: "posso estudar bastante e me tornar o que quiser, um médico, advogado...". Fui segundo esse caminho, mas havia um desejo muito mais profundo e antigo em mim. Comecei a carreira de ator tarde, mas sou um homem e, odeio dizer isso, para nós é mais fácil do que para as mulheres.

A decisão veio no meio de uma crise, quando estava muito triste, e ainda bem que a tomei. Resolvi me mudar para Londres e me tornar um ator, algo que nunca havia tentado na vida. Tinha acabado de ser despedido de uma empresa de advocacia na qual trabalhava havia sete anos e foi algo do destino. Uma semana antes, fui ver a peça Trainspotting no Festival de Edimburgo. O filme não havia sido lançado, mas todos conheciam a história. Quando vi o protagonista no palco, pensei que queria fazer aquilo. Naquele momento, não tinha resolvido ainda colocar todas as minhas coisas no carro e me mudar para Londres. Lá, arrumei os empregos mais esquisitos para conseguir dinheiro. Finalmente, arrumei meu primeiro emprego profissional após entrevista com um diretor de teatro. A coincidência é que a peça era Trainspotting, que seria montada novamente no Festival de Edimburgo. No mesmo dia, fiz teste para um comercial e também consegui esse trabalho, com quem eu contracenaria com um ator chamado Paul Ireland, o mesmo que estava no palco um ano antes em Trainspotting. Na hora pensei: "Ok, alguém está tentando me dizer algo."

O que você pensa de Leônidas?
Um dos motivos pelos quais me senti tão atraído por este papel é porque não havia interpretado um herói que fosse tão rude, orgulhoso, comprometido e forte de uma forma que nunca se expõe. Esses caras (os espartanos) são uns bastardos. Quando o espectador é apresentado aos personagens, a visão de heróis e vilões é deturpada, eles estão prontos para matar e são focados como lasers. Eles estão lá prontos para fazer o que devem, não são como Rocky (Balboa), que não sabe lutar e desenvolve isso; formam um grupo coeso, 300 pessoas com a potência de 30 mil por causa dessa força. Há muita masculinidade nisso; é uma masculinidade simples, baseada em força e poder. Esperava um herói assim há muito tempo. Ao vê-lo no filme, caminhando com seus homens, você sabe que ele será seguido por seu exército cegamente. Quando assisti ao filme, como espectador, não entendi como esse relacionamento é desenvolvido.

Muitas pessoas não entendem por que 300 foi tão bem-sucedido e acho que há elementos tanto no consciente quanto no subconsciente que contribuem pra isso. É como se a fé em si mesmo se manifestasse quase num âmbito espiritual; são 300 homens acreditando que não podem ser derrotados. As pessoas assistem a 300 e se sentem inspiradas, acreditam que, se tiverem fé em si mesmos, podem fazer qualquer coisa. Num nível mais simples, é divertido ver seus heróis detonando todas. As pessoas torcem por eles. Essa mistura traz um entretenimento incrível.

Como foi sua preparação para interpretar Leônidas?
Todos falam de um campo de treinamento pelo qual os atores tiveram de passar nas filmagens de 300, mas três meses antes já estava me preparando. Mesmo assim, durante o treinamento, havia um instrutor que me ajudava a ganhar músculos. Ele era um venezuelano doido chamado Franco de Castro, que vivia gritando. Mark Twight também nos treinou, mas foi por causa de Franco que fiquei enorme. Treinava seis horas por dia com a equipe de Twight, tinha meu próprio treinador e ainda tinha de praticar com os dublês. É muito difícil conseguir manejar a espada, a lança, apesar de parecer mais fácil.

Sou uma pessoa naturalmente obsessiva; bebo refrigerante e fumo cigarros obsessivamente. Também fiquei obcecado com meu treinamento. Fazia questão de ter pesos no set para que pudesse levantá-los entre uma cena e outra. Isso me fazia parecer maior, mas também mostrava para meus colegas que eu poderia fazer isso, não queria que aquele bando de atores talentosos me visse como um cara que fingia ser um rei; queria que pensassem que eu era louco (risos). Quando você levanta pesos, sabe que está ficando maior, mas também sente um fogo, percebe que está ficando mais forte. Como estava treinando naquele nível, fiquei bastante focado na força. Há muita testosterona nesse processo.

Como você chegou às outras características do seu personagem, como o tom de voz?
Existe muita tensão neste personagem, queria mostrar isso nos movimentos e também na voz. Há muita gritaria no filme, o que eu acho correto, pois ele pretende ser fiel especialmente à graphic novel. São 300 pessoas lutando e gritando. A cada momento que o espectador me vê gritando na tela, a fiz um dez níveis vocais diferentes, como quando Leônidas diz "Loucura? Isto é Esparta!". Nessa cena, Zach escolheu quando falo de forma mais grave. Eu disse que estava ridículo, mas ele disse que estava incrível. Pensei: "Ele é um doido" (risos). Na verdade, não gritei tanto quanto parece porque, se eu realmente gritasse, não conseguiria fazer mais cenas, pois minha garganta sofreria.

Quais são seus próximos projetos?
Estarei na refilmagem de Fuga de Nova York e também fiz uma comédia romântica com Hillary Swank, P.S. I Love You, que é muito bonito e romântico. Quero fazer filmes grandes e conseguir encaixar alguns menores no meio. No momento, estou conversando sobre muitos projetos, é um momento incrível para mim graças ao sucesso de 300, então preciso ser muito cuidadoso.