Guilherme Coelho (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Você serviu o Exército quando tinha 18 anos?
Não, morava fora do país. Inclusive, fazer o filme me ajudou a ser dispensado porque, em determinado momento, tive de "dar baixa", ter o certificado, e, durante as pesquisas, conheci uma pessoa que me liberou.

Como surgiu a idéia de fazer este documentário?
Eu estava andando de carro na estrada de Paracambi, no interior do Rio de Janeiro, e vi uns soldados apagando um incêndio. Dei-me conta como a gente vê poucas imagens do Exército. Meu avô foi coronel e contava coisas de ter de ensinar os recrutas a escovar os dentes, até. Então, tinha esse lado da formação, que é muito interessante. É uma mistura de universidade com serviço social; as pessoas podem ganhar até R$ 1.200 no fim de um ano. Também era uma chance de ir de encontro ao jovem brasileiro. Como é começar a vida no Brasil? Depois, decidimos fazer dentro do PQD, a Brigada Pára-Quedista, considerada uma instituição de elite dentro do Exército.

Tanto que o documentário mostra personagens que efetivamente se preparam antes de tentar ingressar no PQD...
Exatamente.

Por que você acha que não existem documentários que focam a vida militar?
Vivemos um ranço contra o Exército, compreensivamente justificado pela ditadura que passamos. É a hora de olharmos para esta instituição, tão importante para o Brasil; não tanto nos centros urbanos, mas certamente nas fronteiras e interior do país. Em alguns lugares, se a Companhia de Engenharia do Exército não estiver presente, não existe ponte, por exemplo. Além disso, é um lugar por onde passam 115 mil jovens por ano.

Essas características e funções do Exército nem estão no documentário.
Não.

Por quê?
Isso não dá um bom filme. Ele precisa de bons personagens, que se transformem ao longo do tempo, capazes de criar empatia junto ao público. Um documentário mais abrangente sobre o Exército e as reformas que ele precisa poderia ser feito, mas não seria cinema. Por meio de conversas como a nossa, espero que a gente consiga falar disso, fazer com que as pessoas se dêem conta. Os que vêem o filme percebem o serviço social que o Exército faz. Por outro lado, tenho dúvidas se as pessoas questionem algo hoje em dia no Brasil; elas falam qualquer coisa e não questionam nada, é um país acrítico.

Essa visão em relação ao Exército foi trazida à tona por algum de seus entrevistados durante a produção do documentário?
Filmamos durante um ano e meio e em nenhum momento foi falado sobre a ditadura militar, tanto com oficiais quanto com recrutas. Não faz parte do imaginário deles. Nada é justificável, mas a ditadura militar teve um impacto pequeno no Brasil se comparado às ditaduras em outros países latino-americanos, como Chile e Argentina. No Brasil, morreram 367 pessoas pelas mãos dos militares nesse período; no Chile, foram três mil e, na Argentina, 30 mil. O impacto na sociedade argentina, que tem um terço do tamanho do Brasil, é absurdo e muito maior.

Aqui, o impacto fica mais por conta da duração do regime.
Sim, mas é nossa cara ter uma ditadura por vinte anos e não mudar nada, né?

Quais foram as dificuldades ao filmar PQD? Como foi obter autorização para filmar tão de perto a rotina da Brigada Pára-Quedista durante tanto tempo?
Tive ajuda de dois generais, avôs de amigos meus, porque é realmente muito hierárquico. Uma vez que vencemos todas as muitas instâncias burocráticas, assinamos um contrato, no qual nos responsabilizamos por qualquer dano causado pela equipe durante as filmagens. Mas uma coisa tem de ser dita: eles nunca pediram para ver o material bruto nem o corte final. Tentaram colocar um oficial nos seguindo, mas isso não durou nem três dias, o cara acabou virando nosso amigo. Ou seja, fomos livres para fazermos o filme que quiséssemos. Sei que não conseguiria filmar gente levando porrada simplesmente porque isso não aconteceria na frente das câmeras. Não tem nem por que tentar fazer isso. O filme é sobre os jovens, meninos se transformando em homens, e o Exército era somente um dispositivo para isso.

Nas suas pesquisas, você já imaginava que encontraria tantos jovens aspirando essa vida militar como é mostrado no documentário?
Eles têm muita pouca ideologia para considerar isso um sonho, é mais uma opção profissional, feita por jovens que, aos 18 anos, ainda não estão engatilhados para entrar numa universidade. Eles ingressam no Exército para, depois de um ano, ganhar R$ 1.200, um salário muito bom para um garoto de 18, 19 anos.

Outro dia, saíram os resultados da Penad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE. Os cidadãos que recebem salário acima de R$ 1.200 são 20% da população mais rica do Brasil; os 10%, ganham acima de R$ 2.076. É uma loucura. Aí você pensa: este filme conta a história de garotos que querem chegar aos 20% dos mais ricos do país. Esta é a cara do Brasil.

No seu longa-metragem anterior (Fala Tu), você também aborda a juventude brasileira, mas em recortes completamente diferentes. Como você acha que seus dois longas dialogam entre si e como seu trabalho evoluiu do primeiro pro segundo trabalho nessa metragem?
Não penso em Fala Tu como um filme de jovens porque, quando o filmei, eles eram dez anos mais velhos do que eu, embora me identificasse mais com eles do que com as pessoas da minha idade na época (23 anos). Fala Tu tinha uma linha retomada em PQD ao abordar a história de jovens tentando vencer na vida. Mas, no primeiro documentário, eles tinham um sonho político, por isso foram escolhidos. Esses garotos, de certa forma, são um retrato mais defensivo da sociedade brasileira. Neste documentário, os personagens não necessariamente estão no Exército porque concordam com a instituição, mas pela vontade de ganharem R$ 1.200 por mês - talvez até mais do que recebia o pessoal de Fala Tu. Depois de fazer o filme, cheguei à conclusão que PQD poderia ser Fala Tu dez anos antes; ficava imaginando se alguns desses garotos não estarão buscando algo que os defina como gente daqui a dez anos.

Mesmo no filme, há alguns personagens que, após um ano, já começam a se enveredar a outras áreas... Você acha que, nesse período, eles ficaram desiludidos em relação à vida no Exército?
Sim. Isso eu via também nos oficiais, todo mundo ali tem a noção do pequeno papel exercido pelo Exército quando ele poderia ser maior. Por exemplo, temos uma necessidade enorme de proteger fronteiras para evitar a entrada de drogas, temos o problema do desmatamento e ocupação da Amazônia, a questão da segurança pública... Ou seja, tem coisas que o Exército poderia estar fazendo e não faz. Não deveriam ser treinados 115 mil homens por ano, mas sim 15 mil para que se pudesse investir também em outras áreas. O problema é que se acomodaram; eles mesmos não acreditam no que estão fazendo nem em que poderiam fazer. Na chance de poder fazer bem, fazem mal e isso é a cara do Brasil.

Você pretende exibir PQD de forma a levantar debates em relação ao tema do documentário?
Gostaria, mas estamos vivendo um momento muito fraco do discurso popular. A intelectualidade de esquerda está silenciada, morrendo de vergonha pelo Presidente da República. Nós, que o elegemos, também sentimos vergonha. O Brasil está muito mal de conversa, tornou-se um país acrítico; a gente faz filme e as pessoas não escrevem, não discutem, independente da penetração que se tem ou do debate que poderiam ser levantados. Vamos tentar, é o jeito, né?

Você acha que o sucesso de Tropa de Elite pode atrair mais público para seu filme, já que ambos também mostram o treinamento em instituições que visam garantir a segurança dos cidadãos?
Espero que sim. Os filmes são diametralmente opostos. Vendo Tropa de Elite, pensei em ter tido sorte em não ter filmado mais o lado de treinamento dos recrutas, porque isso a ficção faz melhor. Ninguém vai dar porrada na frente de ninguém na frente da câmera, a não ser que seja ator, sabe? Documentários servem para mostrar a relação entre o documentarista e seus personagens, uma relação ética, de troca humana. Por isso que documentários são superiores à ficção, existe essa dimensão ética de relação que não há na ficção.

O que mais te surpreendeu mais nesse um ano e meio de filmagem?
A garra dos personagens. PQD mostra que o Exército está ali para treinar guerreiros, que existem também no nosso dia-a-dia. De certa forma, essa garra é folclórica e esperada em se tratando do brasileiro. Outra coisa que me surpreendeu é o aspecto do acomodamento; as pessoas buscam "se encostar" no Exército, o que também é a cara do Brasil.

E também é o contrário da garra que você também encontrou em seus personagens...
Exatamente, mas que co-habitam. E isso do acomodamento existe em todas as áreas, é muito do brasileiro. No entanto, é compreensível: não há nada de errado em querer ter estabilidade.

Você afirma que documentários são superiores à ficção. Você pretende, portanto, somente trabalhar com documentários?
Eventualmente, até faria ficção, mas sem pressa. Também quero trabalhar com televisão, tenho alguns projetos nessa área. Nada no estilo de PQD, pois ele é muito peculiar, é preciso de mais tempo e uma sala de cinema, sabe? É preciso ter atenção das pessoas e a TV é o contrário disso. Quero fazer ficção mais pelo tesão de fazer uma coisa pela primeira vez, sabe?