Guy Maddin (Exclusivo)

16/09/2009 12h11

Por Angélica Bito

Guy Maddin é um dos cineastas mais criativos em atividade. E poucos brasileiros sabem disso. Isso porque seus longas nunca foram distribuídos no Brasil, ficando restritos a festivais e exibições especiais. Como a mostra No Crepúsculo de Winnipeg: O Cinema de Guy Maddin, que passou pelo Rio de Janeiro em agosto e ocorre atualmente em São Paulo, até dia 20 de setembro. Tivemos a excelente oportunidade de conversar com o cineasta por e-mail e percebemos que, de fato, o que ele diz condiz com seus trabalhos.

Os filmes de Maddin são repletos de ironia – que pode ser detectada em algumas de suas respostas, aliás -, sem nenhum tipo de restrição ao bizarro, são inspirados principalmente pelo Expressionismo Alemão e no cinema Agitprop (agitação e propaganda) dos anos 20. Recorrendo a temas complexos como a sexualidade, a repressão e a morte, Maddin, que começou a filmar nos anos 80, tornou-se referência para cineastas e cinéfilos atuais. Ainda que o diretor tenha recebido enorme atenção mundial, seus filmes nunca foram lançados em circuito comercial por aqui, seja no cinema ou em DVD (exceto o curta Meu Pai tem 100 Anos).

Veja a programação da mostra.

Você costuma usar elementos autobiográficos em seus filmes, mas, em Meu Pai Tem 100 Anos, você se volta à vida de Isabella Rosselini. Como você se sentiu lidando com o passado de outra pessoa num filme seu?
Amo usar elementos autobiográficos nos meus filmes porque sei que, não importa o quão bizarro ou implausível uma coisa na história pode parecer, sei que aconteceu e um dia foi plausível. Me dá confiança de brincar com os ingredientes mais estranhos, sabendo que em algum momento estão ligados com a verdade. Mas trabalhar com a biografia de outra pessoa foi muito assustador, queria ter certeza que estava fazendo certo, não queria fantasmas raivosos me assombrando pelo resto da vida, então ouvi com atenção os relatos de Isabella em relação ao seu pai. Durante esse intenso processo, descobri que a relação dela com o pai foi parecida com a minha. Sei que seria muito mais fácil depois disso porque eu simplesmente poderia ser Isabella durante as filmagens e ela mesma era meu termômetro neste sentido.

Meu Pai Tem 100 Anos promove uma discussão fictícia entre diferentes e importantes figuras para a história do cinema. Em dado momento, Isabella pergunta ao seu pai: o que é cinema? O que você responderia?
É uma chance para contar uma história de acampamento usando a evolução completa da narrativa, incontáveis artistas, músicos, etc., e todos os tipos dos mais profundamente sublimados desejos, medos e urgências tribais, trazidas à tona pela experiência do olhar. É como uma história de acampamento versão 2.0.

Você é um dos mais aclamados cineastas do cinema mundial, mas seus filmes nunca foram distribuídos comercialmente no Brasil, ficando restritos somente a exibições especiais e festivais de filmes. Por que você acha que isso aconteceu?

O crescimento de minha base de fãs sempre será de uma forma bem orgânica e submetida às micromudanças climáticas. Alguns anos atrás, os filmes “quaaaaaase” chegaram ao Brasil, mas o barômetro sentiu as diferenças, a umidade aumentou e caiu um pouco de chuva. Bem, estamos aos poucos nos acostumando com essas temperaturas, mas sempre desenvolvi as coisas com calma. De-me tempo. Quem sabe não desenvolvemos algumas raízes desta vez.

Você acha que os espectadores brasileiros podem ter uma recepção diferente aos seus trabalhos, tão envolvidos com a atmosfera da cidade de Winnipeg? Você já veio ao Brasil? Quais são suas impressões em relação ao país?
Amo o Brasil. Fui em 2004 como convidado da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e encontrei anfitriões muito amáveis, é uma cidade quente e amigável. Espero que os brasileiros, de alguma forma, achem meu trabalho canadense exótico. Winnipeg é muito exótica, excêntrica. Talvez alguém em Brasil possa ver isso. Espero que sim.

Você disse que admira o cinema de Bollywood, tão cheio de cores, e todos os seus filmes são em preto-e-branco. Você planeja filmar em cores em algum momento ou você não planeja esse tipo de coisa na sua carreira?
Não, eu planejo um pouco sim. Tudo tem se desenvolvido com um passo por vez, como um jardim que cresce bagunçado, sem cuidados. Fico bem confortável no meu jardim, admirando o belo trabalho do acaso. Mas gostaria de produzir algumas flores coloridas no futuro. Fiz algumas filmagens em cores para testar e fiquei bem empolgado com o resultado. No momento, estou escrevendo um roteiro de um filme que deve ser rodado em cores. Muitos cineastas apenas escrevem um roteiro e filmam em cores sem pensar, como se todos os filmes merecessem as mesmas cores. Bem, eu tenho uma história em cores pronta, com as cores que planejei.

Seu cinema tem características muito bem definidas. Você se sente prisioneiro desse formato que você desenvolveu ou é natural filmar do jeito que você faz?
Meu estilo veio das minhas necessidades. Às vezes fico com vergonha dos meus personagens serem tão estereotipados. Isso porque digo a mim mesmo que cada história é um conto de fadas e os personagens nos grandes contos são de todos os tipos, mas há uma variedade infinita em cada estereótipo porque o espectador pode entender esses personagens de acordo com suas próprias experiências.

O que no cinema o levou a dirigir filmes? O que você considera ser essencial a dizer a um estudante de cinema, uma vez que você dá aulas no Canadá? Você acha que ter tido um estudo formal em artes poderia levar seu trabalho a outro caminho? Em que forma?
Sou assombrado pelas narrativas que me compelem a levar à tela, eu seria forçado a filmar estudando cinema ou não. Estudei por conta própria, mas encontrei um modo de levar meus fantasmas à tela. Se fosse um estudante de arte ou cinema, seria conduzido pelos mesmos espíritos. Meu conselho a jovens cineastas, mesmo os que estão determinados a fazer grandes filmes de Hollywood, é: ouçam seus fantasmas. Até ouço seus conselhos sobre onde colocar a câmera, quando ligar meu gravador de voz. Eles sempre sabem melhor. Eles têm a vantagem de poderes ocultos os ajudando e parece que estou em suas boas graças.

O primeiro filme seu que vi foi A Canção Mais Triste do Mundo e, naquele momento, fiquei impressionada pelo seu trabalho. Em relação a esse filme, tenho uma curiosidade pessoal: como você pensou na perna mecânica feita de cerveja? Quero dizer, o que passou pela sua cabeça nesse momento? É sensacional!

Obrigado! Acho que, como todas as histórias que crio são como um conto de fadas, estava pensando em algo como os sapatos de cristal da Cinderela. Pernas de cristal, disse a mim mesmo, é melhor! Quero dizer, é mais, de qualquer forma, não melhor. Além do mais, era uma forma de externar um problema mental, de uma forma física e visível, como Tod Browning e Lon Chaney [atores da época do cinema mudo] fizeram em seus trabalhos juntos. Amo seus contos cruéis. Além disso, as duas pernas elevando-se por cima de homens impotentes, interessados somente no lucro, tristemente rimam um pouco com as torres gêmeas do World Trade Center. Sabia que as pernas tinham de cair no fim da história, tudo que acontece depois disso deveria ser radicalmente diferente do que ocorre antes. Além do mais, era divertido beber cerveja daquelas pernas, especialmente depois que Isabella esquentou os drinques com suas coxas!