Halder Gomes (Cadáveres 2)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como você entrou no projeto de Cadáveres 2?
Os produtores do filme, Gerson e Carina Sanginitto, são brasileiros radicados nos EUA há muito tempo e amigos de longa data. São realizadores talentosos e premiados, que fundaram a empresa Reef Pictures, em parceria com investidores privados americanos. Quando adquiriram os direitos do roteiro, pensaram em um diretor que pudesse trazer para a história uma visão mais autoral. Eles já conheciam meus trabalhos, em especial o (curta-metragem) Cine Holiúdy - O Artista Contra O Caba Do Mal, que, apesar de ser uma comédia, tinha esse toque autoral. Dirigi o filme em parceria com o Gerson, o que foi muito bom, principalmente pela sua experiência em filmar nos EUA.

Você participou do desenvolvimento da trama?
Quando assinei o contrato, o roteiro já estava nas mãos de um segundo roteirista, além da autora, mas o Gerson achava que deveríamos reescrevê-lo e assim o fizemos por mais seis tratamentos. O conceito inicial era o de um filme mais slasher (com mais violência). No entanto, decidimos mudar de rumo e desenvolver uma visão mais sobrenatural e transcendental, somado a elementos do gênero terror. É um roteiro não-linear, aberto a várias interpretações, seja do ponto de vista católico, espírita ou cético, com simbolismos sobre alguns dos nossos medos mais primários, como a morte, por exemplo. Trata-se de um filme com forte conceito visual, com reviravoltas surpreendentes no 3º ato, que fecham toda a história... Ou não, dependendo da interpretação!

Como ocorreu a escolha do elenco?
Não foi fácil fechar o elenco, pois nosso cronograma de filmagens coincidia com o período do início dos pilotos dos seriados e a maioria dos atores havia feito testes e aguardavam os resultados. Ninguém queira se arriscar a conseguir um papel no filme. Um tanto quanto paradoxal! Tentamos para o papel principal alguns nomes conhecidos, como Thora Birch, Dominique Swain, Sarah Thompson, etc... Mas os agentes ficaram "jogando" até o último segundo, não podíamos esperar e acabamos abrindo testes para a maioria dos papéis, o que acabou nos trazendo gratas surpresas, como a protagonista, Lisa Crilley, e o Brandon Quinn. Para compor os nomes conhecidos no filme (importante comercialmente), fechamos com a Heather Donahue (A Bruxa de Blair e Taken) e o Bill Cobbs (Uma Noite no Museu, O Guarda Costas, O Presente). Os testes para a protagonista se estenderam por vários call backs até termos a certeza da escolha certa.

Quais são as diferenças mais pontuais de dirigir um longa em Hollywood e aqui?
A maior diferença foi que nunca tive de me preocupar com assuntos que não fossem referentes à direção do filme. Os produtores tinham a preocupação de proteger os diretores de assuntos que poderiam desviar o foco da direção. Outra coisa que me chamou muito a atenção foi a velocidade que resolvíamos qualquer problema técnico. Um dia a nossa câmera Panavision deu problema e em menos de um hora eles nos enviaram outra! Se fosse no Ceará, o filme parava por uns dois dias... Assistíamos os dailies (material revelado e telecinado) até no mesmo dia. O negativo não era um insumo proibitivo, como chega a ser no Brasil; eu podia rodar quantos takes (tomadas) fossem necessários para obter o ideal. Outra diferença é que não existem tantos "atritos" de produção como no Brasil, como ficar paranóico com a segurança de equipamentos e equipe, por exemplo. Não se desperdiça energia em outros assuntos que não sejam diretamente relacionados ao filme. A rigidez do sindicato dos atores quando se tem criança no elenco beira o insuportável. Outra grande diferença é que no Brasil usamos recursos públicos para filmar e o governo não dispõe de produtores executivos para estarem presentes nas filmagens monitorando a produtividade do set. Lá, o dono do dinheiro não abre mão da eficácia e do cumprimento do plano/ cronograma/ orçamento de filmagens. Isto deixa o ritmo mais intenso e rigorosamente pragmático. Nossas diferenças culturais são muito grandes e a relação no set com a equipe americana é mais formal. Como toda a equipe e elenco eram americanos, exigia muito mais atenção em tudo, devido à língua. Por mais fluente que seja em inglês, tinham decisões que levavam um pouco mais de tempo para serem tomadas para não haver possíveis desencontros nas informações. Isto ao longo de 15 horas diárias no set, por quatro semanas, somado ao stress natural das filmagens, aumenta o cansaço físico e mental. No final, foi uma grande escola ter tido a oportunidade de vivenciar as duas realidades e aprender com o que há de melhor em ambas. Isto me fez um diretor muito melhor.

Você teve o corte final do longa? Como foi a sua relação com os produtores do longa?
Quando terminaram as filmagens, voltei ao Brasil imediatamente para resolver assuntos pessoais e para me distanciar um pouco do filme. Isso foi muito bom, pois quando retornei para a montagem, o terceiro corte já havia sido feito. Esse distanciamento ajudou bastante para ver diferentes possibilidades no corte e no ritmo do filme. Fizemos exibições testes e aos poucos fizemos os ajustes necessários. Fiquei até o fim da montagem e fechamos o corte final, na oitava versão.

A relação com os produtores foi muito boa, pois somos amigos há muito tempo. Mas eles são profissionais extremamente exigentes e perfeccionistas, com grande conhecimento acadêmico de cinema. Isto me deixava bastante seguro e ao mesmo tempo ciente da minha responsabilidade. Ao contrário do que ocorre com freqüência em filmes, continuamos amigos. Mas tomei os meus puxões de orelha! Esse convívio me ensinou muito, pois além de produtores, o Gerson é um diretor talentoso, perfeccionista, e a Carina é uma excelente diretora de fotografia e uma produtora impecável. Sou muito grato a ambos pela oportunidade e pelo voto de confiança.

A recepção do filme já lhe rendeu novos projetos na direção?
Ainda é cedo para ter uma resposta. Estou muito tranqüilo com o resultado final do filme. É o meu projeto mais elaborado até então. Na pior das hipóteses, será um ponto forte no meu currículo para pitchings (ocasiões nas quais os profissionais brasileiros para exporem seus trabalhos para os compradores internacionais de materiais audiovisuais), editais e captação de recursos. Além do mais, reforça minha versatilidade como diretor, pois meu primeiro filme foi de ação (Sunland Heat), o segundo uma comédia, curta-metragem (Cine Holiúdy - O Artista Contra o Caba do Mal), documentário (Loucos de Futebol) e um suspense sobrenatural (Cadáveres 2), meu quarto trabalho em direção. Este portfólio tem um mix bem-sucedido de festivais e prêmios e comercialmente. Todos foram lançados comercialmente. Ter o filme lançado nos EUA pelo selo da Lionsgate Films e no Brasil pela Universal Pictures atesta a qualidade do produto final. Isso passa credibilidade aos potenciais investidores de futuros projetos. Cada filme realizado atrai boas surpresas, desde que bem realizado. Jamais imaginaria que faria minha estréia como diretor em Hollywood por causa de um curta-metragem chamado Cine Holiúdy!

A escolha do nome do filme em português foi escolhida pela distribuidora com que base? Você, como diretor, não pôde interferir de alguma forma nessa escolha?
Sim, foi uma opção comercial da Universal Pictures. O gancho foi o sucesso do filme Cadáveres, embora Cadáveres 2 seja um projeto original. Isto é comum como estratégia num mercado muito competitivo e prejudicado pela pirataria. Quando o filme tem sua venda negociada por agentes internacionais, o realizador perde o contado com a trajetória do mesmo e neste caso não tive nenhuma interferência na escolha. É como um filho que cresce e toma seu rumo... Como estamos falando de mercado, o importante é que o filme está bem nas vendas e isso me dá a sensação de dever cumprido. Fora os EUA e Brasil, Espanha, Portugal, Romênia e Japão também já adquiriram os direitos do filme. Poder chegar em qualquer uma das mais de cinco mil Blockbusters dos EUA e dar de cara com o filme é uma sensação muito gratificante. Sem contar com as redes Hollywood Video, Movie Gallery, Net Flix, etc... O filme estará também disponível nas grandes lojas de departamentos nos EUA: Best Buy, Target, Wal Mart, K Mart, Boardes, Virgin Mega Stores, etc... Tomara que com tanta exposição, alguém me "descubra"!