Hector Babenco (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Depois de um filme tão brasileiro como Carandiru (2001), O Passado, filmado em sua terra natal (Argentina) significa para você uma volta ao passado, às suas raízes?
Não... Descobri o livro no aeroporto de Buenos Aires, quando estava indo visitar minha mãe, que estava doente. Quando digo que ele foi encontrado num aeroporto, é porque é um livro difícil de achar num local como este. Lá, normalmente se encontra obras de auto-ajuda, uma literatura mais superficial, né?

Sempre que tenho de fazer um filme mais emocional, pessoal e subjetivo, por algum motivo, vou a Buenos Aires. Coração Iluminado (1998), mais autobiográfico, no qual revivi histórias minhas antigas, foi feito na Argentina. É como se o Brasil estivesse mais atrelado à barbárie e minha indignação em relação às injustiças sociais; a Argentina vai muito mais ao encontro de minhas necessidades espirituais, sensíveis, à minha alma. Cuido da minha alma na Argentina e de minha consciência no Brasil.

A idéia de fazer um filme baseado no livro O Passado surgiu no momento em que você o leu?
Não, não foi na hora, nem um pouco. Foram seis meses depois. Li o livro como leio tantos outros e ele não saia da minha cabeça, havia situações nele que me interessavam muito e pediam que continuasse pensando e trabalhando em minha mente. Foi quando pensei que havia algo nessa história que, ao ser extirpado do livro, poderia dar um bom filme. E foi isso que encarei fazer.

Essas partes que não saiam de sua cabeça, são com as quais você se identifica? O que há de Hector nesse livro?
Não sei, acho que tudo! Como funciona a memória? Aquilo que volta é o que escolheu voltar e é o que forma quem você é. Por que voltou tal situação e não outra? Talvez porque ela esteja mais sincronizada com o que eu gostaria de contar, de ouvir ou a que mais me chamou a atenção.

O Alan Pauls participou do trabalho de adaptação para o roteiro?
Não, ele me deu os direitos do livro e disse: "Faça o que você quiser. Pode esquartejá-lo como quiser, mas não vou te ajudar". Ele me deu liberdade total. Para mim, foi um ato de respeito ao meu trabalho, ao mesmo tempo em que eu respeito o dele. Ou seja, ele é escritor e eu faço cinema; se vejo algo no livro dele que interessa, paguei pelos direitos e usei. Por isso, ele não quis se envolver por ser escritor de livros, não roteirista de cinema.

Você o conhecia antes de ler o livro?
Ele tinha me entrevistado uns seis ou sete anos para um jornal argentino.

Essa entrevista veio à sua memória quando você se deparou com o livro?
Sim, quando o li lembrei que era do rapaz que havia me entrevistado porque ele tinha feito uma entrevista muito inteligente e interessante, totalmente diferente da grande maioria das outras que havia dado na época. Ele havia propiciado uma excelente interpretação daquilo que havia dito.

O que Gael Garcia Bernal tem que o levou a escalá-lo para interpretar Rimini?
Ele é um grande ator, veja as escolhas que tem feito até agora. Eu não tinha outro ator latino-americano para fazer este papel. O Brasil tem grandes atores ou muito jovens ou mais velhos. Rodrigo Santoro seria uma possibilidade inteligente, mas ele estava ocupado fazendo um seriado nos EUA.

Além disso, O Passado é uma história em castelhano, tinha de ser feita em Buenos Aires, os personagens são de lá. Seria como fazer uma história sobre o cangaço nos Pampas. Tudo bem, é uma história humana, pode ser que os mesmos problemas que acontecem no Cangaço podem acontecer nos Pampas, mas há algo no comportamento dos personagens que tem a ver com o lugar onde eles moram e a cultura regional à qual eles pertencem. Por isso, ela tinha de se passar em Buenos Aires. O Gael é o melhor ator de sua geração que poderia interpretar este personagem.

O que no comportamento dos personagens de O Passado poderia se relacionar somente com Buenos Aires?
Tudo, absolutamente tudo. Não consigo ver esta história acontecendo no Rio de Janeiro, por exemplo.

A partir da escolha de Gael, como se deu a seleção das três personagens femininas do filme?
Fazendo casting. Foram três ou quatro meses entrevistando atrizes, organizando leituras , fazendo workshops dramáticos, improvisações, escolhendo as que mais me interessavam. Quando o Gael entrou no processo, tínhamos marcado cinco semanas de ensaio; trabalhamos com 10 ou 12 atrizes que eu havia selecionado e as últimas que ficaram foram num processo bem darwiniano: a evolução das espécies foram me levando às que considero as melhores.

Como você as definiria no filme?
Você está pedindo para que eu fale como se fossem arquétipos. Há um personagem que é muito ciumento; a ironia é que a mais ciumenta é também a mais bela. A rigor, pensaríamos que a mais bonita é a mais segura, mas é o contrário. A mais segura, que dá um filho a Rimini e aparentemente o compreende como um todo, rompe relações definitivamente ao primeiro deslize dele. A terceira é um personagem aparentemente de uma bondade absoluta e, aos poucos, enlouquece e se transforma numa mulher de comportamento neurótico. Não dá para falar sobre eles como se fossem jogadores de futebol, a dramaturgia é mais complexa e profunda do que isso.

Você ilustra o pôster da Mostra este ano e seu filme é o que abre o evento. Como é para você ter tanto destaque nesta edição do evento? Como a idéia do pôster foi concebida?
Na verdade, quem tinha de posar era o Leon Cakoff, queria que ele fosse o garimpeiro na foto porque é ele quem passa o ano inteiro pinoteando de festival em festival para encontrar filmes para nosso deleite. Mas ele não quis, achou que era um ato de vaidade e eu acabei optando por fazer eu mesmo. Estava cansado de ver pôsteres com sketches de diretores ou celulóides, câmeras, fachos de luzes... A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é uma coisa de garimpagem mesmo, de ver cinco mil filmes para escolher 300, achei que seria emblemático usar a figura do homem-placa, algo muito paulista e brasileira. Também foi uma idéia engraçada e divertida, fomos lá, tiramos 600 fotografias... Ficou bonito o cartaz, gosto dele.

Para mim é uma honra abrir a Mostra com o filme. O Leon viu a primeira cópia que ficou pronta e a decisão foi totalmente dele de usá-lo na abertura. Isso aumentou minha cota de responsabilidade em relação ao que o filme poderia ser. Estou achando o máximo, doido para que a noite de amanhã chegue!