Heitor Dhalia

30/07/2009 13h59

Por Heitor Augusto

Heitor Dhalia não se cansa de repetir que considera À Deriva seu filme mais pessoal e artístico, apesar de ser fruto de uma coprodução internacional. Fato que aconteceu por acaso, explica. “Comecei a escrever esse filme logo após O Cheiro do Ralo, sem pensar em nada disso”.

Dhalia mergulhou no estudo de dramaturgia, deixando de lado personagens obsessivos de seus dois primeiros longas-metragens para contar a história de uma adolescente, Filipa, que vê a família se despedaçar nas belas praias de Búzios.

O Cineclick conversou com o diretor a respeito das inspirações vindas da nouvelle vague. O pernambucano radicado em São Paulo também mostra um desejo em transitar na fronteira do filme de arte que dialogue com um público maior. Dhalia revela também que uma das razões para trazer Débora Bloch para seu filme foi a semelhança dela com a mãe de sua primeira namorada. “Ela é uma atriz com poucas oportunidades no cinema”.

Leia também entrevistas com os atores Vincent Cassel e Débora Bloch.

Confira a entrevista com Dhalia:

À exceção de Vincent Cassel e Débora Bloch, boa parte do elenco é formado por adolescentes. Como você os preparou?
Na época que ia rodar, estava lendo um livro do David Mamet sobre atuação, que era o oposto do método de Stanislavskia, entender o objetivo da cena e jogar jogo. Achei que essa opção combina para os adolescentes do filme. Preferi não-atores porque pessoas dessa idade têm formação de televisão, que eu não queria. Fomos buscar onde dava: escola, indicação de amigo e por aí vai. Adolescente é complicado, acha que é gente grande, mas não é. Tem pai e mãe presente, que controlam bem, ainda mais a respeito de um filme sobre separação e sexualidade. Não conseguia encontrar a protagonista do meu filme.
Na época, o Orkut era mais moda que o Facebook e investimos lá, criamos pequenas comunidades, encontrando pessoas no YouTube. Mas não a encontrávamos, o Vincent Cassel já tinha topado, a Universal colocaria o dinheiro para produzir, e eu sem atriz.
Finalmente conseguimos convencer a Laura Neiva a falar conosco. Quando eu a vi, foi perfeito, totalmente sorte! Poderia não ter achado, seria com outra menina e não seria tão bom.

Já que você não queria jovens vindos da televisão, por que escolheu a Débora Bloch, uma atriz conhecida muito pelo trabalho em novelas
Na verdade, a escolha foi engraçada, porque ela se parecia com a mãe da minha primeira namorada. Ela se chamava Elvira, e eu até coloquei esse nome na amiga da personagem da Débora. Eu achei que ela tinha essa cara dos anos 80, eu vi a Débora em Bete Balanço [filme de 1884 no qual a atriz canta]. Acho que ela é uma baita profissional com poucas oportunidades, como acontece com a maioria dos atores de televisão, fato cruel. É o único mercado que os mantém, mas que limita o potencial. Tem três canais de televisão, todo mundo faz novela, todos contratados. É o único lugar que os permite pagar as contas e, ao mesmo tempo, isso é um grande prejuízo para o cinema.

Apesar de você não situar o ano em que se passa a história, tem uma cara anos 80. Por que ele é um filme de época?
O filme tem elementos da minha própria história e a separação dos meus pais, situação pela qual passa a protagonista, aconteceu nos anos 80. Queria fazer um filme com um certo sentimento de nostalgia com a infância perdida e um verão que todos tiveram. Um lugar no qual, de alguma maneira, você já foi. O assunto emocional tem muito a ver com minha infância, então queria resgatar isso pela memória. Por isso o filme tem sabor nostálgico.
Eu morei vinte anos na Praia do Pau Amarelo, em Pernambuco, que se parecia muito com a praia de À Deriva, o que me traz memórias. O filme fala da primeira grande transformação da estrutura familiar brasileira, a primeira geração de pais separados dos anos 80. Se a história se passasse nos dias de hoje, o filme seria diferente, já que os casamentos acabam mais cedo, é mais bagunçado. Nos anos 80, ainda havia certo tabu. A primeira vez que tive contato com as palavras “pais separados” foi com 7 anos, tinha uma aura em volta. Tornou-se um assunto de décadas, tanto que muitos anos depois eu voltei a ele com o filme.

Há uma citação no roteiro ao caso Doca Street, famoso crime passional ocorrido na Praia dos Ossos, Cabo Frio, em 1976?
Tem sim. Eu ouvi esse caso na época, acho que os anos 80 tinha os casos famosos, que todo mundo debatia. Coloquei isso no filme, numa cena em que os adolescentes estão ao redor de uma mesa ouvindo de rabeira o que os adultos falam, pescando a conversa. Eu me sentia assim na época, não entendia nada de verdade.
Essa parte da história ajuda a construir a segunda linha dramática do filme, das tragédias que não se concretizam. O clima de ameaça constrói a tensão, quando ele cessa, outros eventos começam a acontecer, como a separação, revelações. Então, o filme caminha para outro registro.

Por que você mudou o desfecho da história?
O roteiro foi amadurecendo aos poucos, de maneira totalmente intuitiva. Quando já estava perto de filmar, um dia acordei e saquei que as transformações do filme não estavam bem realizadas. Inicialmente, o longa era sob o ponto de vista da Filipa. Porém, percebi que À Deriva tinha a ver com a família e que o crescimento era de todos os personagens envolvidos, tanto do pai e da mãe. A personagem da Débora foi se revelando para mim, entendi que ela tinha de fazer escolhas, o que deixou o filme mais complexo.

Em uma entrevista anterior ao Cineclick, você disse que sentia a presença do diretor francês Eric Rohmer e de seus Contos Morais no filme. Onde a influência se manifesta?
Tem a ver com os filmes de praia do Rohmer e a dramaturgia do “oito fechado”, histórias que se fecham em uma geografia, como em Pauline Na Praia. Há relações com Truffaut também, os filmes de amor e de família, focados em um drama pequeno burguês em um lugar que ocorrem coisas dramáticas. Não há grandes acontecimentos, uma bomba atômica, catarse. Uma pequena tragédia que é capital.
Por isso tem a ver com as produções da nouvelle vague. Tem um certo clima, eu olhei para muitos filmes que eu achava que tinha tudo a ver, mas não. O Desprezo, do Godard, Jules e Jim, do Truffaut... tem relações com À Deriva, mas não é muito claro. Fui me influenciando com tudo, olhando para minha vida, incluía, descartava, achava conexão para outra coisa que me inspirava. Uma soma de tudo isso.

Seus filmes anteriores, Nina e O Cheiro do Ralo, tinham dois protagonistas que concentravam toda a atenção do filme, o que não acontece em À Deriva. Por quê?
A começar porque eu sou apaixonado por personagens obsessivos, sófoclinianos [em referência ao dramaturgo grego Sófocles, ícone das tragédias], com tendências suicidas. Depois, eu conheci o herói aristotélico [em referência a Aristóteles, que transformou a filosofia], que cresce, apesar de eu gostar mais do primeiro. O comum dos três filmes é um forte protagonista que tem sensação de deslocamento com o entorno.
Os subtextos dos outros personagens eram uma loucura. À Deriva é o filme que mais tem a ver comigo mesmo, de fato, que me revela. É uma história com traços autobiográficos Eu queria fazer um filme pequeno, todos meus projetos estavam travados. Não tinha nenhum plano de buscar um filme de maior diálogo, coprodução internacional. Ele cresceu muito. Acho que estou amadurecendo como autor e quero, sim, buscar diálogo com o público. A maturidade é quando você consegue falar sobre o que acredita e se comunicar. O Truffaut e Almodóvar falam isso. Gosto de correr risco, seria fácil repetir O Cheiro do Ralo. Quero alternar filmes com mais apelo, mais sófoclinianos e também colocar filmes experimentais no meio. Acho meu futuro será filmes de arte que apontem para um diálogo com o público.

Se o seu filme tem um conceito formal de belo, por que você trouxe Alexandre Herchcovitch, cuja moda é associada a personagens marginais, para fazer o figurino do teu filme?
Ele veio por acaso, se ofereceu para fazer o filme. É um cara muito legal, de conhecimento amplo. Desenha para travestis, mas faz alta costura, é fino. Estava com vontade de trabalhar comigo, ele se ofereceu. Achei muito inteligente o trabalho dele, que tem muitas influências dos anos 80.
Herchcovitch vinha completamente sem referências, apenas trazia roupas. “Olha essa camisa que eu usava”, ele dizia. É brilhante o caminho que ele percorre no filme, adorei!