Helvécio Ratton (Exclusivo: Batismo de Sangue)

25/05/2009 17h40
por Da Redação
Como você tomou contato pela primeira vez com a história de Batismo de Sangue?
De alguma forma, eu já conhecia a história dos dominicanos e do Tito porque militei naquela época, estava exilado no Chile quando o Tito chegou lá e um dos frades dominicanos era meu primo, o Frei Felipe.

Ele está no filme?
Não. Na história real, são mais de 12 frades que participaram, mas não dá pra mostrar todos no filme. Quando reli o livro em 2002, já com um certo distanciamento, percebi que tinha uma bela história de cinema nas mãos e aquele era o momento para se contar a história com verdade. O livro é muito forte que tinha de ser contado com verdade, não dá para suavizá-lo e levá-lo à tela "desossado". É um grande livro, mas tinha de ser contado com verdade, queria adaptá-lo com a mesma intensidade que tinha sido escrito. Foi aí que resolvi transformá-lo em filme, trabalho que comecei em 2003. Agora estou fechando um processo de quatro anos.

Este é seu quinto filme. Por que demorou tanto tempo para que você dirigisse uma produção sobre esse período que você viveu intensamente?
Sempre tive vontade de filmar alguma história desse período. Períodos de guerras, ditaduras e golpes de Estado são reveladores sobre a alma humana, é quando acontecem histórias muito fortes que revelam coisas sobre a gente. Diz-se que há muitos filmes sobre a ditadura, mas são poucos, um painel sobre o que foi aquela época está começando a ser construído. Sempre achei que havia histórias fortes a serem contadas, mesmo as que eu vi de perto ou a minha. Em 1990, cheguei a escrever um roteiro que envolvia a minha história, de gente próxima a mim e um pouco de ficção, mas acabou não dando certo porque a Embrafilme acabou na mesma época e o cinema brasileiro foi a zero. Logo em seguida fiz Menino Maluquinho - O Filme (1995) e a vontade passou. Hoje acho ótimo não ter feito, não era o momento. Hoje podemos falar sobre esse período com muito mais verdade e liberdade.

Você pensou em retomar esse mesmo roteiro?
Não. Ele foi gerado num momento, não aconteceu e acho que isso foi o certo.

Como foi o envolvimento de Frei Betto na produção do filme?
A única coisa que ele me disse é que livro é livro e filme é filme; não quis nem participar. Chamei-o para acompanhar as filmagens e ele nem quis, disse que preferia ver o filme pronto depois.

Quais elementos em Batismo de Sangue você indicaria como diferencial entre produções sobre a ditadura?
Recentemente, participei de um debate com jovens aqui em São Paulo. Um deles disse que sabia que situações como estas tinham acontecido no Chile, na Argentina, mas não aqui no Brasil. Ele achava que aqui a ditadura era mais light por que nossos filmes nunca mostraram desta forma como os argentinos e chilenos mostraram. Recentemente, estreou um filme argentino, Crônicas de uma Fuga, que tem alguns pontos semelhantes com Batismo de Sangue. Essa coisa da brutalidade, da repressão, nunca entrou como ponto fundamental na trama de filmes brasileiros. No caso de Batismo de Sangue, foi pela tortura que o delegado Fleury arrancou a informação de onde estava Carlos Marighella e o matou. Então, esta é uma parte central da história. Ou seja, ou eu encarava de verdade esta história ou não fazia o filme. Também está ligado ao processo de destruição do Tito de tortura e autotortura que estavam impondo a ele, não havia como não ser honesto ao contar esta história e minha opção foi escancarar. Já era hora de jogar uma luz sobre esta história e falar dela francamente.

Você sente que o público está mais aberto para receber a verdade nesta intensidade?
O cinema norte-americano é infinitamente mais violento. Há pouco tempo, estava assistindo com minha filha de 11 anos a Coração Valente porque o colégio havia pedido para os alunos verem para fazer um trabalho. Nunca vi tanta cena de mutilação num filme! O curioso é que ela não se afetou muito com o filme. Depois ela me disse que alguns pais reclamaram na escola por terem passado esse filme para os alunos. Perguntei o que achou e ela disse que já viu coisas muito piores. As gerações mais velhas têm uma dificuldade com a violência no cinema que os mais jovens não têm. Por um lado, as cenas de violência em Batismo de Sangue estão muito bem filmadas, e isso é o que mais assusta, além do fato de sabermos que elas são de verdade, realmente aconteceram muito próximo da gente. Violência por violência, você tem muito mais num filme do Tarantino ou em A Paixão de Cristo. Isso tudo aumentou a capacidade do espectador de absorver o sofrimento físico na tela.

Como foi o processo da escolha do elenco?
No geral, temos tendência no cinema brasileiro de usar um ator um pouco mais velho para fazer um personagem mais novo; usa-se um ator de 30 para fazer um de 20, como se o de 30 já tivesse um certo distanciamento. Pensei que, quando os frades viveram aquela situação, eram muito novos, tinham 22 ou 23 anos. Queria que tivessem a ingenuidade desse momento no olhar, nos gestos, não queria aquele tratamento mais frio de uma pessoa mais velha. Comecei a listar os atores que eu gostava. Quando fizemos a leitura coletiva do roteiro na casa da Patrícia (Pillar, atriz de Zuzu Angel), juntamos um grupo de atores jovens. Nesse momento, tinha duas possibilidades com o Tito. Quando fizemos essa primeira leitura, observei muito o Caio (Blat), com quem nunca tinha trabalhado, e pensei no processo de transformação que poderia ter com ele. Hoje, percebo que o acerto foi muito grande. O Caio é um ator brilhante e seu trabalho é digno de entrar na história do cinema brasileiro. O frei Tito que ele faz está magnífico desde sua alegria no violão até o sofrimento no final.

E o Daniel de Oliveira?
É um ator maravilhoso e também não tinha trabalhado com ele. O Daniel tinha uma proximidade comigo porque ambos somos de Belo Horizonte (MG) e o tempo inteiro queria ele no filme, sempre soube que ele deveria estar entre os quatro protagonistas. O Betto deveria ser um personagem muito forte, já que ele é o narrador. O Daniel é um ator que encontra uma capacidade de transformação, a qual já havia mostrado em Cazuza - O Tempo Não Pára. O Frei Betto ficou impactado pelo resultado final, dizendo que ele captou até seus gestos. Fizemos um workshop de dois dias em Belo Horizonte juntando os frades e os atores jovens. Levei os frades pra lá, o Frei Betto, Osvaldo, Fernando e o Ivo, que não é mais frade. Queria que os garotos tivessem chances de fazer perguntas a quem viveu aquilo, especialmente em relação às coisas mais complicadas, como os limites da tortura. O Frei Fernando demorou 15 anos para conseguir voltar a falar depois da tortura e hoje trabalha com pescadores no norte da Bahia. Pudemos conversar muito e esse sentimento terrível de não ter conseguido resistir, ainda que ninguém cobrasse e entendesse que cada um tem seu limite. Essa reunião foi muito boa para que pudéssemos conversar com muita franqueza e sentia o Daniel, o Caio, o Léo Quintão e o Odilon (Esteves), que eram muito garotos, ficarem impressionados com aqueles relatos tão pessoais. Porque não era um livro de História que estavam lendo, mas ouvindo relatos da boca de quem viveu.

Neste momento você está somente centrado na divulgação de Batismo de Sangue ou há espaço para novos projetos?
No momento, estou trabalhando para que Batismo de Sangue chegue principalmente aos jovens. O filme também interessará à geração que viveu essa época, mas sinto o interesse dos jovens. O propósito do filme foi realmente mergulhar naqueles anos, cuidamos muito dos figurinos, do ambiente, para que o espectador se sinta como que embarcando naquele momento.

A reconstituição de época é muito cuidadosa no filme. De todos aqueles elementos, o que foi o mais complicado de ser recriado?
A ambientação das ruas... Tive de filmar algumas cenas que se passam em São Paulo em Belo Horizonte, que reproduz um desenvolvimento semelhante ao desta cidade, mas com anos em atraso. Isso foi o mais complicado, além das cenas de ação. Nos propusemos a fazê-las muito bem. Para isso, trouxemos um preparador de dublês, o Javier, que costuma trabalhar em Hollywood. Ele ensinou como bater e apanhar no cinema, isso é uma técnica e no cinema brasileiro se faz muito mal, até por falta de humildade. É uma técnica que você tem de aprender para se fazer bem. As brigas no cinema brasileiro são muito ruins, essa é a verdade, a gente até evitava fazer para não fazer mal. No caso deste filme, que tem várias cenas de tortura, isso tinha de ser feito bem.

Leia também entrevista com Caio Blat sobre Batismo de Sangue.

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