Helvécio Ratton (Exclusivo: Pequenas Histórias)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Por que você resolveu voltar ao universo infantil mais de dez anos depois de Menino Maluquinho (1995)?
Este é um universo que sempre vem à minha cabeça, adoro histórias infantis. Tenho uma filha de 12 anos, o que me trouxe de novo esse universo. Já estava com vontade de fazer algo do gênero há mais tempo. Quando surgiu o concurso da TVE, de produzir um pequeno filme infantil, fiz a história da Iara (em 2004, antes de rodar Batismo de Sangue), o que repercutiu muito. Muitas pessoas me procuraram querendo saber onde poderiam assistir ao filme novamente. Percebendo também a carência do cinema brasileiro nesse gênero, me deu muita vontade de fazer um filme que tivesse várias histórias para as crianças.

Existe a idéia de transformar as histórias em livro infantil?
Não, mas uma editora nos convidou para lançarmos o roteiro por causa do interesse de crianças e jovens de conhecer um roteiro de cinema, o que achei extremamente curioso. Claro que seria uma idéia transformar o filme num livro infantil, mas seria comum; já a idéia de levar o roteiro ao público mais jovem me pareceu mais interessante. Portanto, lançaremos no segundo semestre. Além disso, alguns canais de televisão estão propondo transformar Pequenas Histórias em minissérie. No caso, temos somente de conversar os interesses.

Como foi a transição de dirigir um filme tão denso e adulto como Batismo de Sangue para este?
Particularmente, era necessário ter certa leveza e me divertir ao fazer um filme por que filmar Batismo de Sangue foi muito sofrido, não somente pela história. Filmar o sofrimento é difícil demais, precisava de uma coisa bem leve e poética em seguida, além de perceber a carência de produção nesta área.

Como você chegou até este elenco?
Pensei na Patrícia (Pillar) e o Maurício Tizumba ao idealizar a história de uma Iara loira e um pescador negro. A Patrícia é minha amiga, parceirona, assim como o Tizumba, com quem eu já havia trabalhado em outros filmes (como Batismo de Sangue e Uma Onda no Ar). No caso do Paulo José, sabia que ele era o ator ideal para o papel. Já havia trabalhado com ele em Menino Maluquinho, o Paulo é o narrador; sou fã do Gero Camilo e ele foi a primeira opção que pensamos para o papel. Em relação à Marieta Severo, queria uma contadora de histórias que fugisse do estereótipo da mulher de cabelo branquinho, preferia uma mulher mais viva para fazer esta narração. Os protagonistas infantis foram descobertos por meio de testes, ambos estréiam no filme.

Como foi trabalhar com Paulo José em suas condições de saúde atuais?
Paulo José é um ator maravilhoso, um ser humano fantástico. Quando mandei o roteiro, ele me disse que o nome de seu pai era Arlindo, assim como de seu personagem. Na hora ele topou fazer. Sabia das condições de saúde do Paulo, mas ele é um lutador.

E ele está atuando bastante em cinema atualmente...
Sim. E olha que a doença do Paulo (Mal de Parkinson) provoca movimentos involuntários, o que poderia comprometer sua atuação. Tanto que ele pediu pra gente um piano pra tocar nos sets para trabalhar os movimentos, conseguir contê-los e lutar contra isso. Sua generosidade é capaz de dar humanidade ao personagem tão derrotado, o que mais comove as pessoas.

Como você vê a produção cinematográfica brasileira voltada ao público infantil atualmente?
É muito fraca. Não consigo entender porque no Brasil se gera preconceito em relação a este gênero. Temos de fazer cinema para crianças para formar público, não adianta fazer discurso, tem de acostumar o público a ver filmes brasileiros desde pequenos, é muito difícil reconquistar o espectador. Faltam produtos especialmente para o cinema. Na televisão, tem muita coisa infantil surgindo, no cinema não, especialmente na época das férias, sempre dominadas pela produção estrangeira. Inclusive, deveriam ser estabelecidas cotas nos editais para filmes infantis, para estimular e garantir mercado. Da mesma forma que você alfabetiza uma criança para as letras, também tem de fazê-lo para o audiovisual.

Você apresenta seu filme no Festival de Cinema de Paulínia e a cidade está atraindo muitas atenções da classe cinematográfica. O que você acha do projeto?
Fiquei particularmente impressionado pelo fato deste projeto ocorrer no interior do Brasil, já que este tipo de iniciativa costuma partir das grandes cidades. Agora, chegar aqui em Paulínia e encontrar não somente o festival, mas também esta sala de cinema magistral, com projeção e som impecáveis, no interior de São Paulo, vinculado a uma escola e um pólo de cinema, é uma idéia muito bacana. A cidade busca visibilidade por meio do cinema, o que é uma idéia fabulosa. Sabemos que no Brasil este tipo de projeto costuma fracassar na mudança de uma administração, mas espero que isso não aconteça aqui. Ontem, após a exibição de Pequenas Histórias, muita gente da cidade veio conversar comigo, encantados com o filme. Ou seja, é na vontade das pessoas que está a possibilidade do projeto continuar.

Você falou sobre as dificuldades de conquistar o público infantil. Quais aspectos no filme você trabalhou pensando nesta questão?
Em primeiro lugar, sabia que deveria envolvê-lo numa boa história, utilizando elementos brasileiros - nosso ponto de partida -, com o qual poderia se identificar. Além disso, era necessário aproximar gerações; o avô e o neto são capazes de dialogar sobre o mesmo filme. A proposta do filme é fazer esse cruzamento.