Hermila Guedes (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Como aconteceu seu envolvimento inicial com este projeto?
Acho que Karim (Aïnouz) me viu em Cinema, Aspirinas e Urubus, no qual fiz uma pequena participação, e gostou. Na seqüência, me convidou para fazer um teste para O Céu de Suely. Fui até Recife para fazer esse teste com ele e passei. Depois, fiz outro com a Fátima Toledo, a preparadora de elenco, em São Paulo, com mais três atrizes. Mas não passei no teste para fazer a protagonista. Por isso, Karim acabou me oferecendo o papel de outro personagem, que estava crescendo na trama, como a amiga da protagonista. Então, originalmente, a Georgina Castro seria a protagonista até eu chegar lá. Antes de começarem as filmagens, fomos levados às locações e o Karim nos filmava vivendo situações normais, mas já com as roupas dos personagens. Nesse processo, falei algumas coisas que eram a cara da personagem. Um mês antes de começarem as filmagens, tudo mudou.

A sua preparação para o filme também mudou?
Não porque a Fátima trabalha o personagem a partir do ator. Não tem um trabalho de personagem para o ator. É o trabalho de cada atriz como o personagem. Aconteceu, então, uma troca de papéis.

A Fátima preparou o elenco de filmes como Cidade de Deus e Cidade Baixa. Como é trabalho dela na preparação de atores?
Não sei se tenho alguma autoridade para falar sobre o trabalho dela, mas entendi que ela busca um processo de memória afetiva. Ela me preparou para encarar as situações como se fosse o personagem. Se a Hermila Guedes não consegue deixar a família e a Hermila do filme o faz, ela prepara a atriz para encarar esse tipo de decisão. É basicamente isso: buscar força para que essa memória afetiva fosse levada em cena.

Essa entrega ao personagem chegou a ser um problema para você?
Era impossível sair do personagem porque eu filmava todos os dias, nem tinha tempo de pensar como Hermila normal. E acho que isso foi pensado pelo próprio Karim. Lembro-me que, quando acabou tudo, ele me perguntou o que eu ia fazer. Respondi que queria correr dali porque não tinha vida própria, eu era a Hermila do filme o tempo inteiro.

Por quanto tempo duraram as filmagens?
Um mês e meio, mas eu tinha chegado um mês antes das filmagens começarem.

Imagino que o fato dos personagens terem o mesmo nome dos atores foi proposital. Isso ajudou ou dificultou?
No começo foi assustador. Afinal, meu nome é tão incomum e essa questão está muito relacionada à identidade de cada pessoa. O filme já era uma doação, uma entrega de alma, de vida, e dar também o nome me assustou. Mas depois vi que seria mais fácil na relação entre os personagens, facilitando, também, pra eu me entender naquele contexto.

E no próprio filme a troca de nome é símbolo para que a protagonista saia de sua própria realidade...
Sim, ela troca o nome pra viver algo que não era ela.

O que foi mais difícil de ser feito em O Céu de Suely?
O processo de entrega para incorporar o personagem. A Fátima faz um trabalho muito físico e eu tenho problemas no joelho. No começo, foi muito dolorido, não sentia nada além de muita dor. O cansaço de 12 horas de filmagens também foi difícil. Tudo era muito verdadeiro. Então, se tinha de chorar dez takes, realmente chorava em todos. Doía também emocionalmente. Foi uma entrega absurda, nem sei como explicar. Acho que não faria de novo. Não porque não quero, mas não do jeito que fiz.

Esta é a primeira vez que você protagoniza um longa-metragem. Como é essa responsabilidade?
É muito grande. Primeiro porque todo o filme gira em torno da minha atuação. Claro, gosto do trabalho que fiz, mas pessoas também, mas tenho muito medo do depois: preciso continuar tendo boas atuações em filmes maravilhosos. Isso também é uma grande responsabilidade grande.

E você já está pensando no depois?
Não recebi propostas ainda, mas espero que apareçam coisas boas.

Sempre no cinema?
Sim, pretendo seguir fazendo cinema por um tempo. É o que sei fazer, o que gosto. Faço um pouco de teatro no Recife, mas tenho alguma dificuldade. Nunca fiz novela nem tenho convites, mas, na verdade, acho esse universo muito novo, não sei o que esperar disso. É outro tipo de trabalho, de linguagem, e precisa de outro tipo de preparação.