Entrevista: Conversamos com Daniel Ribeiro, de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Longa acompanha a descoberta do amor entre um garoto cego e seu novo colega de classe

15/04/2014 14h57

Por Ana Carolina Addario

Quando liguei para Daniel Ribeiro, diretor de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, fiz questão de começar a seguinte entrevista dizendo que saí da sessão do seu filme com o coração cheio de amor. Tietei mesmo. Ele deu uma risadinha simpática e disse "que bom saber, essa era a ideia". Quem assistiu ao filme sabe que é verdade. E quem ainda está para assistir, vai sair do cinema com a mesma sensação.

Desde o lançamento do curta Eu Não Quero Voltar Sozinho, em 2010, até a estreia do longa nos cinemas brasileiros, a história da descoberta do amor entre os garotos Leonardo (Ghilherme Lobo) e Gabriel (Fabio Audi) ganhou o carinho do público e o reconhecimento da crítica. No início do ano, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho venceu o prêmio da Firepresci (Federação da Crítica Internacional), na seção Panorama do Festival de Berlim.

Com discussões mais amplas que os relacionamentos homoafetivos, embora este seja um tema importante, o filme aborda questões como a busca pela independência e individualidade durante a adolescência, além de refletir uma geração disposta a buscar o amor livre de preconceitos.

Confira abaixo a entrevista exclusiva com Daniel Ribeiro, diretor de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho:

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De onde surgiu a vontade de contar esta história?

Esse assunto sempre me interessou. Me lembro das muitas conversas que tive com amigos em várias situações e de este ter sido sempre um assunto recorrente, sobre como cada um descobriu sua sexualidade, o primeiro amor da adolescência, essas coisas. Todos temos uma história dessa época da vida porque é uma fase muito marcante, e essas descobertas são comuns a todo mundo.

E por que abordar essas descobertas a partir da experiência de um garoto cego?

Na juventude, os primeiros estímulos de descoberta da sexualidade são provocados pela visão, nós vemos as coisas das quais gostamos e reagimos a elas. É um processo natural. No caso do Leonardo, é diferente por ele ser cego, então os estímulos acontecem de outras maneiras e o filme mostra isso. A chegada do Gabriel traz mais complexidade à história, porque além de descobrir seus interesses sobre sexualidade, ele lida com o fato de se apaixonar por um garoto.

Você tinha a ideia de se comunicar com algum público específico por meio do filme?

Fiz um filme que achei que poderia dialogar com todos os universos. É como falei, os conflitos da adolescência são universais, todos passamos por eles de alguma maneira. Para o público gay, quis que o filme fosse uma maneira de dizer para o mundo "é assim que eu me sinto". Mas foi incrível ver a quantidade de pessoas completamente diferentes que demonstraram sua identificação com a história desde a época do curta.

"Para o público gay, quis que o filme fosse uma maneira de dizer para o mundo 'é assim que eu me sinto.'"

Cena de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Você acha que a questão do amor livre de preconceitos é mais próxima desta geração?

Acho que a geração que o filme retrata é muito mais aberta para essa questão do que a minha. Tenho 31 anos e na minha época o gay praticamente "não existia", no sentido de ser pouco representado, não sentia muita abertura para se expressar. Hoje, os jovens da idade do Leo convivem muito mais com gays assumidos porque têm amigos que se abrem mais cedo, ou têm alguém na família que seja e em outros ambientes. O cinema e a televisão ajudaram nesse processo também.

É, muita coisa mudou de lá pra cá...

Sim, a nossa geração viveu a fase de transição. Nos anos 90, lembro de assistir a séries como Will and Grace, que tinha protagonistas gays, e ver ela se tornar um grande sucesso. Até as novelas brasileiras passaram por esse processo, como em A Próxima Vítima, na qual Sandrinho e Jefferson eram namorados.

E onde buscou referências para compor este cenário?

Relembrei muito de como eu era nessa fase da vida para poder compor os personagens, até porque as questões da adolescência continuam as mesmas: os vínculos de amizade, as relações de grupo, a busca por aceitação. Não tem como não buscar nas nossas próprias experiências, né? No filme, o Leo tem uma amizade muito forte com a Giovana (personagem de Tess Amorim), eles se conhecem desde pequenos, cresceram juntos. Para criá-la, me inspirei em uma amiga que tive nessa idade, fazíamos tudo juntos. Me lembro de levá-la ao cinema para ver aquele filme que a Jennifer Aniston se apaixona por um amigo gay (A Razão Do Meu Afeto) para tentar entrar no assunto.

"As questões da adolescência continuam as mesmas: os vínculos de amizade, as relações de grupo, a busca por aceitação. Mas a geração que o filme retrata é bem mais aberta."

Cena de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Como foi pra você transportar a história original do curta-metragem para um longa de quase duas horas de duração?

A maior dificuldade foi conseguir enxergar o roteiro de uma maneira geral. Na época do curta, eu podia ler o roteiro inteiro umas cinco vezes por dia e visualizar o todo. No longa foi muito mais difícil. Quando estava escrevendo a personagem da mãe (do protagonista), por exemplo, algumas pessoas me disseram que ela estava pesada, eram muitas cenas dela super-protegendo o filho. De início, não tinha notado. Então, algumas coisas foram mudando aos poucos, à medida que conseguia ver as partes com mais calma.

Os personagens principais também mudaram na transição do curta para o longa?

Eles já estavam bem definidos desde o curta, mas é normal que tenham ganho mais profundidade. No longa, acrescentei a questão da busca pela independência do Leo, que está ligada à relação dele com seus pais e com seu universo. Ele está cansado de estar sempre cercado de tantos cuidados, sofre um pouco com isso. A própria mudança do título do filme de Eu Não Quero Voltar Sozinho para Hoje Eu Quero Voltar Sozinho reflete o desenvolvimento desses sentimentos.

Como foi a sensação de finalmente ver o filme completo? Já consegue pensar em novos projetos?

Fiquei muito emocionado em Berlim quando percebi que a reação tinha sido positiva, que as pessoas entenderam a mensagem. Tinha um monte de gente da área lá, equipe, críticos, minha família, amigos. Estou há um ano e meio dedicando 100% do meu tempo a esse filme e agora ele finalmente está pronto. Claro que já tenho algumas ideias pro futuro, nada concreto ainda, não parei para escrever. Mas personagens homossexuais sempre estarão nos meus filmes, é um tema que pretendo continuar retratando.

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Veja o trailer de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho: