Hugo Carvana (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O que te motivou a fazer essa homenagem às chanchadas com Apolônio Brasil?
Talvez a velhice. A gente vai chegando nessa idade e, fatalmente, olha para o caminho percorrido. E, nesse meu longo caminho de 50 anos de cinema, a chanchada sempre esteve muito presente. O meu primeiro encontro com o cinema foi com a chanchada; o cinema colou na minha pele através da chanchada. Ela fez me entusiasmar pelo humor, pela representação desprovida de qualquer intelectualismo. Então, Apolônio Brasil são fragmentos de minhas memórias, de minhas lembranças. Alguns amigos dizem que é o meu Amacord. Essa é a essência do filme e tudo isso me motivou a escrever a história e filmá-la.

Depois de 50 anos de cinema, como você se vê?
Eu me vejo um pouco cansado, porque fazer cinema no Brasil é uma tarefa muito difícil, muito sacrificada. Tem um lado meu que, às vezes, pensa em parar, descansar e tal. Mas tem outro que ainda me empurra para frente. Pessoalmente, me sinto cansado diante das dificuldades que a gente sempre tem. Os eternos problemas de distribuição, de exibição, de dominação do mercado por filmes estrangeiros, da ausência de uma política protecionista. E as coisas vão continuar assim porque ninguém enfrenta o cinema americano, é muito difícil.

Qual a sua visão do cinema que se faz hoje no Brasil, o chamado "cinema da retomada"?
A gente pode dizer que as coisas melhoraram. Estamos produzindo mais, surge uma nova geração de bons cineastas e temos bons e variados filmes, o que é muito importante. Não existe mais a ditadura da estética única, agora cada um faz o filme que bem entende, ninguém está mais seguindo ou preocupado com correntes. Essa diversidade é altamente fecunda, porque todo mundo seguindo uma mesma corrente soa como dirigismo cultural. Cada artista é um artista, tem sua maneira de olhar o mundo. Quanto mais diversidade melhor para nós que fazemos cinema, porque ampliamos nossa presença no mercado. Só não podemos adotar a ditadura do sucesso.

O que seria a ditadura do sucesso?
Essa imposição do mercado que cinema tem de fazer sucesso. Qualquer indústria de cinema do mundo se sustenta com o filme médio, não com o blockbuster. Tem um lado da indústria que quer que todos nós produzamos 'Carandirus' e isso é um erro. Não que eu queira produzir filmes para ninguém ver; eu faço filme para o público. Mas não posso ter a obrigação de levar milhões e milhões de espectadores para as salas de cinema.

Para os filmes que não se enquadram nesse perfil, a distribuição continua a ser um dilema?
Veja, eu procuro fazer filmes de orçamento médio, de médio para baixo. Mas mesmo assim tenho muitas dificuldades. Agora, as distribuidoras são as majors americanas e mais a TV Globo. Quem não estiver com as majors e com apoio da Globo não tem distribuição, porque no Brasil não existe distribuidora. Só temos a Riofilme, que praticamente está deixando de distribuir e apenas produzindo. Se não temos esse aparato na hora de distribuir, isso significa que vamos lançar o filme com poucas cópias. Com poucas cópias, a tendência do filme é não ir bem.

Hoje é difícil se ver filmes como Apolônio Brasil, que foram escritos para cinema e não são adaptações de livros ou peças de teatro. Você acha que ainda faltam roteiristas que escrevam para cinema no Brasil?
Hoje a gente já tem um número bem maior de roteiristas do que tínhamos no passado. A profissão está mais difundida, divulgada, mas ainda não é o ideal. O que está acontecendo é que os filmes estão procurando se adaptar a linguagem da televisão. Alguns cineastas e escritores procuram esse caminho. Eu não consigo fazer isso, porque eu só trabalho em TV como ator. Nunca dirigi nem escrevi para TV, eu escrevo para cinema. Aprendi a escrever para cinema com um dos melhores roteiristas que este País já teve, que foi o Amando Costa. Gosto de fazer histórias originais, pensadas por mim, sonhadas por mim. A única vez que fiz um filme baseado em história de terceiros foi O Homem Nu, do Fernando Sabino, mas me aborreci demais...

O que aconteceu?
Existem determinados escritores que não se importam com a adaptação que o cineasta faz de seu livro, o Jorge Amado, por exemplo, era assim. Eles entendem que um filme é a visão do diretor daquela obra que ele escreveu, que o diretor não tem a obrigação de recriá-la. E com o Fernando Sabino foi complicado, porque ele queria impor normas. Terminou sendo uma relação muito desgastante. Desde então, decidi não fazer mais nenhum filme com história adaptada. Prefiro eu mesmo escrever o que vou fazer, porque se errar, erro sozinho, se acertar, acerto sozinho.

Você disse que gosta de fazer filmes para o público. O que as pessoas podem esperar de Apolônio Brasil?
Apolônio Brasil é um filme de extrema comunicabilidade com o público. Ele é muito simples como narrativa, não pretende revolucionar a linguagem cinematográfica. Acho que as pessoas vão gostar.