Irmãos Farrelly (Passe Livre)

04/03/2011 09h30

Por Heitor Augusto, de Los Angeles*



















Peter, o cabeludo, entra primeiro na sala onde um grupo de jornalistas da imprensa internacional, entre eles o Cineclick, aguarda para falar com o codiretor de Passe Livre. “Olá, tudo bem? Sou o Peter”, apresenta-se cordialmente. Peter enverga uma camiseta dada pela equipe da animação Família da Pesada.

Bob, seu irmão mais novo, entra logo em seguida. Também simpático, mas vestido com um paletó preto e camisa azul. Seria ele o complemento mais sério de Peter. “Não! Só estou com essa camiseta porque derrubei líquido na minha camisa, aí troquei”, surpreende o fratello primogênito.

Pode até ser. Porém, ao responder as perguntas, Peter e Bob Farrelly se completam. O mais velho é mais falastrão, sacode os braços e adora imitar o tom de voz quando reproduz uma fala de outra pessoa. Já Bob guarda um sorriso irônico no canto esquerdo da boca, faz comentários pontuais e tiradas irônicas como esta. “O 3D funcionou no Jackass”.

Nesta entrevista concedida em um hotel de Beverlly Hills, Los Angeles, os irmãos Farrelly contam detalhes sobre seu décimo longa-metragem, Passe Livre, estrelado por Owen Wilson, Jason Sudeikis e Jenna Fischer.

Vocês se consideram parte deste novo movimento da comédia americana que tem Judd Apatow, Todd Phillips, Greg Mottola, Paul Rudd e Seth Rogen?
Peter Farrelly: Na verdade, a gente não sai muito junto ou coisas do gênero, mas os respeitamos. Achamos que eles estão fazendo um grande trabalho.
Bob Farrelly: Eles são fantásticos. Os últimos quatro, cinco anos da comédia têm sido os melhores desde os últimos 20. Isso se deve em grande parte a estes caras.

Seria justo procurar semelhanças entre Passe Livre e Se Beber, Não Case?
Peter: Alguns dizem isso, mas certamente não procuramos criar um link entre ambos. Depois que o Se Beber, Não Case foi lançado, a gente cortou algumas cenas de Passe Livre porque, de fato, se pareciam. Pena, porque escrevemos nosso filme antes do de Todd.

A história do filme permite uma liberdade e falta de pudores mais próxima do europeu do que do americano. Por quê?
Peter: Durante a pré-produção, tinha a sensação de que o filme seria mais bem sucedido na Europa do que nos Estados Unidos. Eu visualizo os americanos um pouco assustados em algumas partes do filme, nas partes que os europeus estariam mais abertos.

Por quê?
Porque não tem tanta religião lá [risos]. Eles têm a mente mais aberta sobre mostrar órgãos sexuais.


O termo que dá origem ao título do filme [Hall Pass, em inglês] é algo comum da cultura americana, largamente conhecido?
Bob: Claro, nós utilizamos o passe livre toda semana [risos]. Sem a permissão das nossas esposas, claro [risos]. Tirando a brincadeira, é uma expressão que vem do colégio, se o aluno quiser sair da sala de aula para ir ao banheiro, o professor dá um hall pass. Então a gente transportou isso para o conceito de casamento.

Como vocês trouxeram Stephen Merchant, comediante parceiro de Ricky Gervais, para o filme?
Bob: Apesar de não ser realmente conhecido nos Estados Unidos, ele é um daqueles caras que você olha e começa a dar risada.
Peter: Nós os vimos na série Extras, na hora achei, que ele era um dos atores para o nosso filme. Considero Stephen um dos cinco caras mais engraçados do planeta, de verdade.
Bob: Queremos trabalhar com ele novamente, mas sua agenda está ficando apertada.

Por que todos os seus filmes sempre têm dois camaradas, irmãos ou um personagem que se divide em dois como em Eu, Eu Mesmo e Irene?
Bob: Cara, é mais simples ter dois porque quando um personagem está sozinho tem de falar consigo próprio. Com dois, a comicidade acontece na dupla...

Para criar um jogo de opostos?
Peter: Acho que é maravilhoso fazer piada só quando tem alguém para escutar. Sua questão é realmente boa porque no caso de Os Três Patetas [longa-metragem baseado nos curtas com Larry, Moe e Curly] estamos escrevendo um filme em três episódios, não uma cinebiografia.

Cada novo episódio começa onde o último terminou e no total dá um filme. No final de cada, tem o tema musical tipo tan-tan-tan-tan-taram [Peter cantarola o tradicional tema de Os Três Patetas] e aí vêm outros acontecimentos. Tem um pedaço do filme que eles brigam e se separam e tomam rumos separados. Foi a coisa mais difícil de escrever no filme inteiro, uma situação para cada um deles isoladamente. Numa hora, desistimos e decidimos deixar pelo menos dois juntos para um fazer chiste com o outro.
Bob: No começo do roteiro, tivemos uma ajuda dos irmãos Zucker [diretores de Apertem os cintos! O piloto sumiu], que consideramos os caras mais engraçados da história. Eles nos alertaram que o cômico não está no que acontece, mas como alguém reage ao fato. Isso basicamente justifica sua pergunta: tem de existir uma segunda pessoa na cena cômica.


Em Passe Livre, Jason Sudeikis [esquerda] e Owen Wilson são maridos que "dão um tempo" das esposas

No filme, tem um personagem que vocês apelidaram de Wannabe, algo como “pretensioso”, que almeja tornar-se cineasta. A quem essa mensagem é interessada em Hollywood?
Bob: Foi um bom momento que encontramos no filme para mostrar que o personagem de Owen é um careta fora do metiê de cinema. Daí a resposta tão agressiva [“você se acha o máximo, mas são caras como eu que contratam”].
Peter: Mas respondendo à sua pergunta, sobre a quem a mensagem é endereçada... não estamos dizendo que não gostamos do Wananbe, porque ele representa, em certa medida, o que somos, cineastas. Mas a gente no filme acaba tomando o lado do Owen, trabalhador e suburbano.

Cameron Diaz foi considerada para o papel que ficou com Jenna Fischer no filme?
Bob: Sempre pensamos em trazer Cameron para um filme nosso [trabalharam juntos em Quem Vai Ficar com Mary?], mas no caso de Passe Livre consideramos que Jenna está perfeita no papel porque tem um ar adorável, a esposa perfeita.
Peter: Consideramos também Samantha Morton também, uma ótima atriz da qual vamos gostando aos poucos durante o filme. Você não a vê diz “wow”, é devagar. Jenna Fischer é assim também.

Neste mundo de ultratecnologia e expansão do 3D, a comédia tem futuro nos Estados Unidos?
Bob: As pessoas precisam dar risada, logo a comédia vai continuar existindo.

É possível trazer o 3D pra comédia? Existe um filão de mercado a ser explorado?
Bob: Funcionou para o Jackass, né? [risos]... serviu para alimentar a curiosidade do espectador. Mas não sei se precisamos disso na comédia.

*O repórter viajou a convite da distribuidora.