Jeffrey Levy-Hinte (Exclusivo)

06/12/2009 22h00

Por Heitor Augusto

Jeffrey Levy-Hinte tinha 125 horas de filmagens nas suas mãos e, com elas, tinha de fazer um filme sobre o Zaire 74, festival de música que levou nomes fortes do soul ao Congo.

Conseguiu. O Poder do Soul retoma as apresentações e o contexto por detrás do evento: o “orgulho negro” e a luta por direitos civis. Nesta entrevista ao Cineclick, realizada por e-mail, Levy-Hinte conta tudo sobre o filme. Confira:

Você tinha 125 horas de material para editar. Eu imagino que você sabia muito bem o que estava nas suas mãos por causa do seu trabalho em When We Were Kings. Mas, por favor, você pode explicar para os nossos leitores como chegou a um corte final de 93 minutos?
É aterrorizante começar um filme com tanto material. O segredo é ser organizado e sistemático. Basicamente, assisti às 125 horas anotando o que seria mais dramático, dinâmico, interessante e relevante. Dessa observação, editamos o material para cerca de 70 cenas indispensáveis que, juntas, davam umas seis horas. Ao lado disso, escolhemos 20 performances musicais dos artistas.

Minha metodologia fez com que tivesse de trabalhar, de fato, apenas sobre seis das 125 horas. Com isso, refinamos, refinamos e filtramos até chegar ao filme que vocês irão ver.

Uma coisa que surpreende é que, apesar de ter James Brown, Bill Withers e outros cantando, o filme fala mais sobre os bastidores e as espectativas dos músicos sobre o que é o “soul power”. Foi uma opção sua desde o início?
Eu amo aquela música e é extremamente fácil montar sequências musicais. Porém, com tanto material de arquivo, eu queria ir além e dar aos espectadores a sensação da experiência para os organizadores do Festival Zaire 74, o que eles sentiram enquanto o evento rolava. Eu sempre quis fazer um filme desse o mesmo espaço para o que estava atrás do palco como o que estava na frente.

Seu filme exala um “orgulho de ser negro”, que lembra a audácia de Billy Paul em canções como Am I Black Enough For You. Como é ser branco e abordar um clima tão relativo aos negros?
Cara, na verdade eu sou branco, judeu e, mesmo assim, amo tanto a soul music que não finjo entender completamente seu significado ou o que o Festival Zaire 74 provocou para os africanos ou os afro-americanos.

Meu objetivo era fazer um filme no qual os personagens retratados enxergassem na tela um olhar honesto. Esta foi minha premissa. Tentei dar voz a eles e mostrá-los agindo naturalmente. Meu trabalho era abrir a porta e deixá-los sair [risos].


Como você avalia a posição do negro em 1974 e o que mudou três décadas depois? Você acha que um garoto afro-descendente, hoje, reagiria da mesma maneira que trinta anos atrás ao teu filme?

Definitivamente, não tenho propriedade para apontar o que mudou desde 1974. Na maior parte dos Estados Unidos o racismo não é mais aceitável, mas seus efeitos históricos ainda podem ser percebidos no cotidiano da Justiça criminal, nos índices de pobreza entre afro-americanos, etc.

Por outro lado, Barack Obama foi eleito presidente, algo impensável tempos atrás. De modo geral, ainda acho que os jovens são menos engajados e menos radicais. Em 1974, eles ainda estava tentando fomentar a revolução, hoje estão esperando pelo lançamento do Halo 3 [jogo de tiro em primeira pessoa].

Pode parecer maluquice, mas a atmosfera de seu filme me fez lembrar de Sympathy for the Devil, que fala tanto de momento político quanto de música. O filme do Godard serviu, em algum momento, de inspiração?
Eu amo o filme. Assim como outros daquele tempo, é surreal, exuberante e maravilhosamente desequilibrado. Eu gostaria de conseguir deixar meu pensamento flutuar e ter tamanha imaginação. Mas, minhas maiores influências no filme foram coisas do tipo Wattstax [vencedor do Globo de Ouro em 1974], Soul to Soul [de Denis Sanders], Monterey Pop [sobre o festival de 1968], Woodstock e os documentários de Frederick Wiseman [Near Death].

Por que você não fez novas entrevistas com os personagens do seu filme? Por que deixou O Poder do Soul com cara de anos 70?
Eu amo documentários com veracidade e, desde o princípio, estava inclinado a não fazer entrevistas. Devido ao tamanho do material que tinha em mãos, dava para deixar a música, o evento e as pessoas falarem por elas mesmas. Não estou interessado em filmar um bando de especialistas ou velhos companheiros olhando para o passado e analizando tudo aquilo. Prefiro um filme que permita aos espectadores formarem seu próprio entendimento.

Além disso, era o sentimento e a experiência do festival que eu queria que convencesse os espectadores. Não estava muito interessado em informações e falação para explicar tudo aquilo.