Johnny Depp (Exclusivo)

16/11/2009 18h56

Por Da Redação

Alguns bandidos exercem certo fascínio, tornando-se figuras notórias. John Dillinger [1903 – 1934] foi um deles. Atuando nos EUA em plena Depressão de 30, tornou-se uma espécie de herói do povo por assaltar bancos numa época em que essas instituições eram responsabilizadas pela crise econômica que assolou o país, um verdadeiro Robin Hood do século 20.

Johnny Depp interpreta John Dillinger em Inimigos Públicos, longa dirigido por Michael Mann que conta um pouco sobre esse fora da lei que acabou tornando-se herói do povo nos anos 30. Em entrevista exclusiva, cedida pela Universal Pictures, Depp fala mais sobre Dillinger, seu relacionamento com Billie Frechette (vivida por Marion Cotillard) e como foi trabalhar com Mann.

Você gosta de filmes de gângsteres?
Sim! Cresci vendo grandes filmes com Humphrey Bogart e James Cagney, como Anjos de Caras Sujas.

O que o atrai nesse período histórico?
Gosto do estilo, a moda, a forma como homens e mulheres se vestiam para expressar sua individualidade. Era um período de Art Deco.

Como você definiria John Dillinger?
Ele era um fora da lei no mesmo estilo e tradição de Jesse James, que vinha a ser seu herói quando criança. Como teve dez anos de sua vida perdidos na prisão, acho que fez uma decisão consciente quando saiu cometendo crimes porque o relógio estava avançando e ele sabia que, estando em sua área de trabalho, não teria muito tempo.

Você acha que ele teve algum último desejo antes de morrer?
Acho que não. Acredito que, se não tivesse sido entregue por Anna Sage, poderia ter levado um tiro ou outro antes de fugir para o México ou para a América do Sul, onde esperaria por Billie Frechette.

O que você acha que se passava pela cabeça dele enquanto estava assistindo ao filme Vencido Pela Lei (1934), pouco antes de morrer?
Acho que estava fazendo as pazes com ele mesmo.

A história de amor entre John Dillinger e Billie Frechette é chave em Inimigos Públicos
É tudo, mas também tem mais a ver com o que ele era do que com os roubos a bancos. Dillinger procurava uma mulher especial em sua vida e Billie tornou-se seu foco principal. Eram perfeitos um para o outro.

Mesmo Dillinger não conhecendo Billie por tanto tempo, ela teve bastante impacto na vida dele.
Billie Frechette foi, inquestionavelmente, o amor da vida de Dillinger. Ela era seu combustível, ele a adorava.

O que eles tinham em comum?
Eles eram estranhos que acabaram se chocando como dois cometas.

O que você pensa da atuação de Marion Cotillard como Billie Frechette?
Marion é tão talentosa, interessante, há muito acontecendo por trás daqueles olhos. Todos os momentos com ela foram diferentes e fiquei maravilhado com sua dedicação, achei que seu sotaque em inglês ficou ótimo!

Vocês conversavam em francês ou você preferiu falar em inglês com ela para que pudesse treinar o sotaque dela?
Às vezes, falava com ela em francês e tenho certeza que era um alívio para ela voltar à lingua nativa nesses momentos. Mas, na maioria das vezes, conversávamos em inglês porque senti que ela preferia. Marion trabalhou muito em seu sotaque.

O que ela traz ao cinema norte-americano?
Ela é Marion, com suas qualidades especiais, é uma atriz que está profundamente comprometida e se importa com sua personagem. E é perfeccionista.

O que Christian Bale trouxe ao papel do agente federal Melvin Purvis?
Christian é ótimo e fiquei muito animado quando sobre que ele atuaria como Purvis porque é um ator muito talentoso. E lamentei só termos uma cena juntos, exceto pelas que atiramos um no outro. Christian poderia ter interpretado-o de uma forma diferente, mas o representou de uma forma ao mesmo tempo respeitosa e carismática. Fiquei impressionado por sua atuação e estou ansioso em trabalhar com ele novamente ao longo do caminho.

Dillinger e Purvis tê uma relação de gato e rato. Você acha que, mesmo assim, eles tinham características similares?
Se um dia esses caras ficassem sozinhos numa sala sem tentar atirar um no outro, provavelmente chegariam à conclusão que são bem parecidos. Eram duas forças que contavam uma com a outra e certamente estavam conectadas em diversos níveis, provavelmente mais do que Purvis e J. Edgar Hoover. Ambos eram leais cavalheiros do Sul, numa época em que o cavalheirismo ainda estava vivo, e tinham integridade, cada um em sua área. Anos atrás, quando fiz Donnie Brasco, passava meus dias com agentes do FBI e noites com pessoas relacionadas à máfia para me preparar pro meu papel. Uma das coisas que achei fascinante nesse processo foi que eles não eram tão diferentes uns dos outros.

John Dillinger era um inimigo ou um herói público?
Não acho que ele era o inimigo público porque os bancos eram. Acho que ele incorporava o público.

O que você admira nele?
Admiro-o por ter sido um homem comum que lutou contra a elite governante, pelo que acreditava.

Como você se preparou para o papel?
Queria entrar na mente de Dillinger e tentar encontrar aquele brilho. Li tudo que pude sobre ele e vi filmagens, embora não haja material em áudio. Percebi que ele nasceu não muito longe de onde fui criado. Não era muito diferente do meu avô. Estes elementos me ajudaram a encontrar John Dillinger.


Parecia que ele não tinha muitas chances…
Dillinger resolve os problemas com suas próprias mãos quando não havia muito mais para fazer porque, ou você é uma vítima do sistema, ou resolve as coisas de sua própria forma. Para mim, ele era uma espécie de Robin Hood.

Como foi trabalhar com Michael Mann?
Michael é ótimo, ele sabe perfeitamente o que quer e é apaixonado por cada detalhe.

Tendo trabalhado com muitos grandes cineastas, qual você apontaria como a maior qualidade de Mann?
Gosto do fato dele não abrir mão de nada. Você pode ter uma ou dez grandes tomadas, mas, se ele sente falta de algo, tem de conseguir e continuará a filmar até lá. Sua sensibilidade para os detalhes é impressionante, ele ouve e vê tudo. Nesse sentido, ele é um verdadeiro autor. E a razão pela qual passamos por todos os locais que Dillinger esteve é porque Michael Mann insistiu ficar o mais perto da realidade que pôde.

Deve ter sido um deleite raro e verdadeiro filmar em muitas das locações onde John Dillinger esteve.
Sem a insistência de Michael Mann na realidade, provavelmente teríamos filmado em algum cenário falso genérico ao invés dos locais onde as coisas realmente aconteceram.

Quão importante foi para você seguir os passos de Dillinge?
Muito importante. Ter ficado na prisão Crown Point, passa pelas mesmas portas que John Dillinger atravessou, me ajudou a preparar-me para o papel e entender quem ele realmente era.

Mesmo sabendo que filmes de gângsteres e foras da lei são sempre ambientados em lugares e numa época específicos e sempre foram populares. Por que você acha que isso acontece?
Não tenho certeza, mas talvez seja porque todos gostam de assistir um filme no qual alguém foge carregando algo que o espectador gostaria. Todos amamos Robin Hood porque gostamos de ver como o vilão – que na verdade é o mocinho – vence. Há tanto que temos de lidar na vida que é divertido ver alguém desafiar o sistema.

Você tem algo de Dillinger?
Sim e acho que todos temos, de alguma forma, porque somos capazes que nos envolvemos com o que realmente acreditamos.

O que você aprendeu com este trabalho?
Certamente aprendi muito sobre John Dillinger! Mas, antes de tudo, tendo passado tanto tempo em tantos locais, experimentei a cordialidade de estar cercado de tantas pessoas respeitosas em relação ao nosso trabalho. Sentir-me bem-vindo por eles, apertando suas mãos foi a impressão mais forte em mim.

O que você aprendeu de Dillinger?
Tudo! Entrei para o projeto amando John Dillinger e saí amando ainda mais. A verdade é que o respeito muito.